Nessa entrevista falaremos sobre a dieta à base de plantas! O Dr. Kaue Kranholdt é nutrólogo e sócio do Espaço Volpi, formado em medicina pela Santa Casa de São Paulo com pós-graduação em nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia. 

Ele mencionou: “A minha atuação no Espaço Volpi e a minha decisão de ser nutrólogo estão bem alinhadas”, relatando que iniciou na clínica como assistente do Dr. Thiago Volpi. Ao trabalhar nesse cargo percebeu uma grande afinidade com a nutrologia, apesar de já ter um certo interesse no tema desde a época da faculdade. Logo, Volpi sugeriu que ele fizesse uma especialização em nutrologia e afirmou que se ele seguisse essa carreira, viraria médico do espaço. 

Entrevista com o Dr. Kaue Kranholdt sobre a dieta à base de plantas 

Vegan Business: Muitas pessoas confundem uma dieta vegana com uma dieta à base de plantas. Como você faria essa distinção?

Kaue Kranholdt: A diferença principal seria na questão filosófica que está por trás da dieta vegana. Quem faz uma dieta vegana vive um estilo de vida vegano, baseado em não explorar nenhum tipo de vida animal. Portanto, essa é uma dieta que vai sempre excluir derivados de animais e também vai se estender para outros hábitos como cosméticos, vestuário, etc. 

A dieta à base de plantas não necessariamente está implicada em um estilo de vida, em uma filosofia, preceitou ou conceito. Ela é permissiva ao derivado animal, mas em uma quantidade que é pouco expressiva, vai ser muito pontual. Quem faz uma dieta plant-based não necessariamente leva isso para outras esferas como vestuário, cosméticos, entre outros. Eventualmente pode ter seu consumo de derivado animal sem que isso quebre seu padrão plant-based de dieta. 

VB: A dieta à base de plantas traz quais benefícios para a saúde? 

KK: Os benefícios da dieta plant-based para a saúde são inúmeros. A alimentação à base de plantas tem uma densidade calórica menor, porque tem essencialmente muito menos gordura. Estamos falando de uma alimentação que provoca uma grande saciedade, isso favorece a manutenção de um peso mais saudável. Além disso, se for uma dieta 100% plant-based, sem laticínios e nem ovos, é uma dieta com zero colesterol e isso é muito benéfico para a saúde humana. 

Também é uma dieta com pouquíssima participação de gorduras saturadas, o que é um outro ponto muito positivo para a saúde cardiovascular e a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Sabemos também que pelo perfil menos inflamatório desse tipo de alimentação, temos um risco reduzido de formação de câncer, como mama, próstata e intestino. 

Ademais, a alimentação plant-based é muito mais benéfica para a saúde intestinal. A microbiota fica mais saudável quando a alimentação é à base de plantas, isso favorece a boa manutenção de peso, a boa sinalização hormonal e a boa função imunológica, até evitando reações imunológicas exacerbadas que seriam patológicas. Também contribui para o controle lipídico e de triglicérides, bem como para um bom controle glicêmico, podendo ajudar a compensar e até reverter problemas crônicos como diabetes e pressão arterial elevada. 

VB: Na sua visão profissional, alguém que segue uma dieta à base de plantas precisa suplementar a alimentação com alguma vitamina ou isso depende do caso? Se sim, qual?  

KK: A dieta à base de plantas precisa da suplementação da vitamina B12. Isso acontece porque a pessoa não vai estar ingerindo essa B12 do animal que é um intermediário. Basicamente, o animal toma suplemento de B12 e quem consome a carne animal não precisa tomar o suplemento, porque ele está consumindo o suplemento que foi dado ao animal. 

Quando não ingerimos o intermediário, é necessário suplementar diretamente a B12. Na natureza, a B12 não é produzida pelo animal, é feita por bactérias. O que acontece é que atualmente o tratamento do solo e da água, algo muito relevante para prevenir doenças, retirou a possibilidade de ter B12 nessas fontes. 

VB: Como nutrólogo, quais são as suas dicas para quem deseja realizar uma transição para a dieta à base de plantas? 

KK: É complicado dar dicas muito genéricas sobre essa transição, como nutrólogo vejo que a alimentação é uma questão muito individualizada: tem relação com a palatabilidade, a digestibilidade, os hábitos, a criação e a cultura em torno da alimentação de cada pessoa. Porém, podemos deixar algumas coisas mais claras em relação a essa transição. 

Primeiro: não se substitui carne, essa é uma das dicas mais importantes.  O erro mais comum  de quem vai parar de comer carne é procurar algo para colocar no lugar, como uma carne de soja. Olhe mais para o que sobrou na constituição do prato sem a carne, é importante valorizar a variedade dos alimentos e a integração entre eles. 

Basicamente, orientamos a fazer combinações de cereais com grãos e leguminosas para garantir o aporte proteico completo, porque quando temos essas combinação conseguimos uma boa quantidade de aminoácidos e é possível juntá-los. Quando você tem um alimento de origem animal, você terá todos os aminoácidos presentes em uma fonte só. Na fonte vegetal, você não tem, por isso, fazemos combinações que torna isso possível. 

Uma combinação tão básica e brasileira como o arroz com feijão consegue fazer essa integração. Quando você tem um prato de arroz com feijão, você tem todos os aminoácidos que o corpo humano precisa. Essa combinação entre os grãos, leguminosas e cereais é o que garante um prato com um balanço proteico legal. Também é importante observar as cores, porque a alimentação precisa ser colorida: temos que ficar atentos para ingerir pelo menos cinco cores diferentes no dia a dia. 

VB: Considerando os atletas, muitos tem a visão de que precisam da carne para performar melhor. O que você tem a dizer sobre isso? 

KK: Em relação aos atletas que acreditam que precisam de carne para performar melhor, isso é um grande equivoco. Muitas pessoas poderiam performar melhor até sem carne e não sabem disso. 

Esse equivoco vêm da supervalorização da proteína em detrimento de outros macro e micronutrientes. A proteína é de fato importante para o esporte, porém, ninguém nunca constatou e provavelmente isso não vai acontecer, de que a fonte proteica precisa vir da carne do animal. Pode ser obtida de qualquer fonte. Os aminoácidos que compõe as proteínas são originalmente produzidos pelos vegetais, a ingestão de carne para obter proteína é meramente um intermediário: foi um animal que consumiu esses aminoácidos dos vegetais. 

VB: A orientação médica é muito importante para tomarmos decisões acertadas a respeito da nossa saúde, entretanto, diversas pessoas resolvem mudar sua dieta sem consultar médicos ou obter informações. Quais prejuízos isso pode causar? 

KK: A mudança repentina de um padrão alimentar sem a orientação profissional e sem uma individualização, pode acarretar problemas como deficiências ou carências nutricionais, sejam elas de macronutrientes ou micronutrientes, como vitaminas, minerais e antioxidantes. 

É muito comum pessoas que não comem bem, com monotonia alimentar e pouca variabilidade, decidirem fazer uma mudança drástica. Geralmente, são essas pessoas que apresentam problemas com a mudança da alimentação, porque já não comiam bem e ainda fizeram uma mudança significativa no padrão alimentar, aprofundando as carências e os problemas que estavam se instalando. 

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*Imagem de capa: Divulgação Dr. Kaue Kranholdt | Espaço Volpi



por Amanda Stucchi em 19 de abril