Em um artigo revisado na revista Communications Biology, cientistas norte americanos examinaram o potencial papel e os benefícios dos alimentos fermentados na promoção do crescimento cerebral dos hominídeos. Eles também exploraram a viabilidade da “hipótese de fermentação externa” e analisaram práticas alimentares presentes em diversas culturas humanas.

Por que isso importa?

O cérebro humano cresceu muito durante a evolução, mas como isso aconteceu ainda não está muito claro. Algumas ideias sugerem que o aumento do cérebro significou que precisamos de menos energia para a digestão, então nossos intestinos ficaram menores em comparação com os primatas. Outras teorias falam sobre mudanças na dieta, como comer mais carne ou cozinhar alimentos, o que teria ajudado a sustentar um cérebro maior.

Mas essas teorias têm suas limitações, e ainda não entendemos completamente como o crescimento do cérebro começou. Uma nova ideia chamada “hipótese da fermentação externa” foi proposta por pesquisadores para preencher essa lacuna. Eles analisaram evidências que sugerem como certos alimentos fermentados podem ter tido um papel importante nesse processo.

O que é a fermentação interna / externa?

Fermentação interna

No trato gastrointestinal humano, especialmente no cólon, as bactérias simbióticas decompõem a matéria alimentar orgânica em nutrientes, como ácidos graxos de cadeia curta, um processo denominado fermentação interna. Fornece energia adicional a partir de fibras não digeridas, melhora a absorção de vitaminas e minerais e também permite a quebra de fatores antinutricionais presentes nos alimentos.

Fermentação externa e seu papel na expansão cerebral

Por outro lado, a fermentação externa ocorre quando a decomposição dos alimentos é provocada por bactérias no ambiente ou na superfície dos alimentos. A fermentação externa oferece benefícios semelhantes aos da fermentação interna. Melhora a saúde intestinal do hospedeiro, contribuindo para a sua microflora, melhora a absorção de nutrientes, aumenta a biodisponibilidade de nutrientes ao quebrar os fatores antinutricionais e ajuda a converter substâncias venenosas em material comestível. Além disso, a fermentação externa melhora a imunidade do hospedeiro, pois as bactérias probióticas ingeridas colonizam o intestino e evitam a colonização de patógenos na área. 

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De acordo com os pesquisadores, o cólon diminuiu consideravelmente, cerca de 74%, ao longo da evolução, sugerindo que houve menos necessidade de digerir alimentos vindos de plantas. A hipótese da fermentação externa sugere que essa mudança pode ter sido uma adaptação após o consumo de alimentos fermentados de fora do corpo.

A viabilidade da fermentação externa foi discutida mais detalhadamente, levantando a hipótese de que os primeiros hominídeos podem ter transportado e armazenado alimentos, iniciando involuntariamente a fermentação externa. Com o tempo, esta prática pode ter evoluído para um fenômeno culturalmente reforçado, contribuindo para a expansão do cérebro e o desenvolvimento cognitivo dos hominídeos.

Os benefícios desta hipótese em comparação com outras

Foram identificadas diversas vantagens explicativas da teoria da fermentação externa em comparação com ideias anteriores. Ao contrário das mudanças na dieta, como a caça de tubérculos, o consumo de carne e o cozimento, ingerir alimentos fermentados de fora demanda habilidades cognitivas bem mais simples. Os alimentos fermentados oferecem os mesmos benefícios dos cozidos, sem a necessidade de planejamento, coordenação social ou atenção especial.

Nesse cenário, a descoberta da fermentação parece ser mais provável do que a descoberta do fogo necessário para cozinhar, por exemplo. Além disso, enquanto os incêndios precisam ser mantidos ativamente, a fermentação é um processo passivo. Ela também é uma alternativa mais simples a outras formas intensivas de preservação de alimentos. Os pesquisadores sugerem que os hominídeos com habilidades cognitivas menos desenvolvidas e cérebros menores poderiam ter dominado a fermentação mais facilmente do que outros métodos.

Por que a hipótese da fermentação externa é válida?

A tecnologia de fermentação atual é altamente evoluída e difundida. Pessoas em todo o mundo conseguem fermentar todos os tipos de alimentos de fontes variadas em diferentes condições climáticas e escalas de tempo. Os pesquisadores reuniram uma lista de tais exemplos e os utilizaram como evidência para apoiar a plausibilidade, a aceitabilidade cultural e a universalidade da fermentação.

Testando a hipótese

Para testar a hipótese da fermentação externa, os pesquisadores sugerem vários caminhos, incluindo o exame de mudanças genéticas relacionadas aos processos metabólicos, digestivos e imunológicos afetados pela fermentação externa, a análise de genes de receptores olfativos para possível seleção positiva relacionada à detecção de alimentos fermentados e a investigação de mudanças no microbioma humano em comparação com parentes de macacos. Eles enfatizam a necessidade de investigação empírica, incluindo estudos microbiológicos, análises comparativas e investigações genéticas e genômicas, para apoiar ou negar as suas hipóteses.

Os pesquisadores da revisão em questão propõem a “hipótese da fermentação externa”, sugerindo que a adoção da tecnologia de fermentação pelos primeiros hominídeos foi um mecanismo chave para a expansão do cérebro humano e a redução do intestino. Eles sugerem que a conversão da fermentação intestinal numa prática externa pode ter sido uma inovação significativa, estabelecendo as condições metabólicas para a seleção da expansão cerebral. A revisão oferece novos insights sobre a evolução da dieta humana e a anatomia do intestino e do cérebro, convidando comentários e testes experimentais para validar ainda mais a hipótese.

Imagem de capa: Unsplash

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