O People’s Climate Vote da ONU revelou que 30% do planeta apoia a dieta baseada em plantas como uma política climática.

Com 1,2 milhão de entrevistados em 50 países, cobrindo 56% da população mundial, o People’s Climate Vote da ONU é a maior pesquisa de opinião pública sobre mudanças climáticas já feita. O número chega a incríveis 42% nos países em desenvolvimento e 33% nos países de alta renda.

A pesquisa foi realizada pela ONU em conjunto com a Universidade de Oxford e várias ONGs. Em princípio, objetivo foi educar as pessoas sobre o tema das mudanças climáticas e suas possíveis soluções. Simultaneamente, para pesquisar o público em todo o mundo sobre as ações que realizam.

Com o início da crise COVID-19, a pesquisa de opinião pública ganhou um significado adicional, ao fornecer uma visão das percepções sobre a crise climática no contexto de uma pandemia global. De fato, muitas das escolhas de políticas na People’s Climate Vote falam de problemas que os países estão enfrentando ao mapear sua recuperação. Seja elas sejam relacionadas a empregos, energia, proteção da natureza ou regulamentação da empresa.

Dieta baseada em plantas como política climática

Sobre o tema das dietas à base de plantas, o relatório afirma:

“A criação de gado de forma convencional contribui para a mudança climática principalmente devido ao desmatamento para expansão das pastagens. A menos que abordagens amigas da floresta, regenerativas e de conservação da biodiversidade sejam adotadas, ela cria impactos ambientais e de saúde.

Nesse contexto, as dietas à base de plantas oferecem uma alternativa para fornecer alimentos nutritivos com menores emissões de metano.”

A popularidade do conceito de dieta baseada em vegetais como política climática, em comparação com a média geral de 30% em todo o mundo, mostrou que 42% eram a favor nos pequenos países insulares em desenvolvimento; 33% eram a favor dos países de alta renda; 29% em países menos desenvolvidos; e 29% em países de renda média.

Apenas 30%

Apesar de parecer um bom número, a solução que mexe no prato parece não ser a preferida. A promoção de dietas baseadas em vegetais foi a mais baixa de todas as 18 políticas, com apenas 30% das pessoas pesquisadas endossando a mudança.

Como já sabemos, a pecuária tradicional há muito é criticada por sua contribuição para a degradação ambiental. Tudo isso porque, destroi florestas para pastagens e contribuindo para as emissões de gases de efeito estufa. Mas o problema vai além das vacas, porcos e galinhas para incluir todas as atividades que orbitam o universo culinário.

Certamente, o sistema alimentar – o que comemos, como cultivamos e colocamos em nossas mãos e o que vai para a lixeira – é responsável por um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo Eduardo Calvo Buendia, copresidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um órgão da ONU.

Em 2019, um relatório do IPCC sobre a relação entre o uso da terra e as mudanças climáticas, pediu uma revisão dos hábitos alimentares para salvar o planeta e aliviar a pressão sobre os recursos naturais.

Os 107 cientistas que prepararam o relatório concordaram que uma mudança para alimentos à base de plantas, bem como carne de origem sustentável, é uma grande oportunidade para enfrentar a mudança climática. Contudo, não chegaram a pedir que todos adotem uma dieta vegetariana ou vegana.

O apoio indiferente a uma dieta amiga do ambiente surge à medida que as escolhas alimentares estão cada vez mais sob escrutínio quanto ao seu impacto na crise climática.

O número tende a aumentar

De fato, os consumidores estão se tornando mais atentos ao que colocam em seu prato. Desse modo, muitos estão reduzindo a ingestão de carne em meio a um crescimento explosivo de alternativas quase indistinguíveis do produto de origem animal.

O que explica essa falta de entusiasmo entre os entrevistados por mais vegetais da dieta?

“Em primeiro lugar, em alguns países, existem poucas opções baseadas em plantas. Já em outros, pode não haver ainda uma consciência significativa sobre essas opções. Noutros, as pessoas podem ter sentido que a dieta é mais uma escolha pessoal do que algo que pode ter impacto político”. Escreveram pesquisadores do PNUD.

“As pontuações baixas não significam que as pessoas sejam contra as políticas, uma vez que não endossar uma política também pode ser devido à indiferença a ela”, observaram, acrescentando: “Esta pode ser uma oportunidade importante para mais educação sobre esses temas”.

Consciência e educação

A ênfase dos autores em expandir a consciência ecoa as descobertas de um estudo de 2020 da Universidade de Yale que analisou a percepção das dietas vegetais entre os americanos. Os pesquisadores descobriram que cerca de metade dos entrevistados expressaram vontade de dar uma chance às opções baseadas em plantas se “eles tivessem mais informações sobre o impacto ambiental de diferentes produtos e/ou alimentos”.

O aumento do conhecimento pode ajudar os compradores a adicionar mais vegetais, frutas e legumes aos seus carrinhos. Assim como, encarar a dieta baseada em plantas com política climática. Mas as escolhas alimentares são uma questão complexa em que cultura, hábito, gosto pessoal, orçamento e emoções interagem uns com os outros no supermercado e na cozinha.

Uma meta-análise de 101 fontes da literatura feita no ano passado examinou benefícios e obstáculos da conversão para uma dieta totalmente vegetal. O estudo descobriu que, quando se trata de abandonar a carne, os velhos hábitos são difíceis de ficar para trás.

“O prazer de comer carne e a imensa dificuldade em abandoná-la são sugeridos por pesquisas como as maiores barreiras para a mudança para uma dieta baseada em vegetais”. Disseram os autores.

Talvez um dia parte do apetite demonstrado pelo grande público por ações políticas para combater as mudanças climáticas se reflita em suas próprias refeições.

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por Nadia Ferreira Gonçalves em 10 de fevereiro