Em 21 de dezembro de 2020, a empresa Eat Just, que aplica ciência e tecnologia para criação de alimentação sustentável, e mais conhecida por vender alternativas de ovos feitas à base de plantas para a maionese vegana Just Mayo, tornou-se pioneira em comercializar carne cultivada em laboratório.

Na Cingapura, em parceria com o restaurante 1880, a companhia vendeu nuggets de frango feitos a partir de cultivo artificial e clonagem de células animais. Ou seja, nenhum animal foi morto para gerar o alimento. Intitulada GOOD Meat Cultured Chicken, a peça havia sido aprovada em novembro pela Singapure Food Agency (SFA) e pelas autoridades dos Estados Unidos. Também foi bem recebida em sua estreia no mês seguinte, de acordo com o Business Wire.

A GOOD Meat estará disponível para compra com três pequenos pratos: BAO (pão chinês) com frango crocante de gergelim e cebolinha; um folhado com purê de frango e feijão preto; e um waffle de borda crocante com frango, especiarias e molho picante. Este trio custará cerca de US$ 23.

Eat Just foi fundada em 2011 e desde 2016 produz carne cultivada, arrecadando mais de US$ 300 milhões e com um valor no mercado de US$ 1,2 bilhões. Esta carne foi confirmada como opção segura e nutritiva para consumo humano, sendo chamada de “clean meat” ou “carne limpa”.

Em 2016, a startup Memphis Meats de São Francisco lançou um vídeo da primeira almôndega feita por células. Já em 2018, a New Age Meats de Berkeley permitiu que jornalistas provassem a primeira linguiça de porco cultivada em um laboratório. E no final do ano passado, vieram os nuggets da Just. “Esta é uma tecnologia projetada para nos reumanizar, colocando o brilho e a engenhosidade da humanidade a serviço do nosso lado mais gentil”, comenta Matthew Scully, autor de “Dominion: The Power of Man, the Suffering of Animals, and the Call to Mercy in National Review”. “Já se foi, à medida que essa inovação remodelou o mercado, qualquer outra reivindicação de necessidade para a pecuária industrial, uma empresa que há muito ultrapassou os limites da prática razoável e consciente”, termina.

Agora, empresas como a Eat Just batalham, ao lado das veganas como Beyond Meat e Impossible Foods, contra as grandes indústrias da pecuária norte-americana. Mas será que a carne laboratorial é a solução para salvar os animais e o meio-ambiente?

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), estima-se 214,7 milhões de bovinos, enquanto há 211,8 milhões de pessoas no país. Já nos EUA, segundo o The Guardian, são nove bilhões de animais terrestres criados anualmente em condições cruéis. Há mais gado que seres humanos no Brasil, apesar do debate sobre consumo consciente e veganismo ter aumentado nos últimos anos. E devido à sociedade desigual que gera pobreza e, consequentemente, a fome, é falado como se uma carne cultivada pudesse melhorar esse quadro alimentar, ao passo que é mais sustentável e saudável, uma vez que não haveria os hormônios e antibióticos injetados como são encontrados em animais que vivem em cativeiro e viram “comida”. Além do mais, há estudos que revelam como o estresse dos animais influencia na qualidade da carne.

Viabilidade da carne cultivada

Ainda não há perspectivas de que esse produto seja viável. Como é de se imaginar, é necessária uma boa quantia de dinheiro para investir no ramo. De acordo com a Bloomberg, a produção de carne cultivada custa entre US$ 400 e US$ 2.000 o quilo e demora mais de dois anos para ser produzida. Apesar disso, o custo de um hambúrguer de laboratório individual está previsto para chegar a US$ 10 este ano, como sugere a EU Startups.

O público parece que ainda está digerindo a possibilidade de se alimentar com algo “artificial”. Em uma pesquisa do Frontiers in Nutrition, de 2018, apenas 49,1% dos estadunidenses entrevistados falaram que comprariam carne cultivada, enquanto 48,5% definitivamente ou provavelmente substituiriam carne convencional pela cultivada, já 26,6% não substituiriam e 24,9% não tomaram uma decisão.

Outra barreira é conseguir aprovação para vender esses produtos. Andrew Noyes, chefe da área de Comunicação Global da Eat Just, disse ao portal Grist:  “Atualmente, o FDA (Food and Drugs Administration, como uma ANVISA dos EUA) e o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) estão construindo uma estrutura e um processo para a aprovação regulamentar de carne cultivada. Também nos envolvemos com reguladores em outros países e esperamos que Cingapura sirva como um modelo de como outros países podem trazer carne cultivada para o mercado.”

O frango da Eat Just é apenas o primeiro passo. Empresas como a Mosa Meat (que investe nesse tipo de carne e já arrecadou 61.8 milhões de libras, por exemplo) agora estão trabalhando para criar um bife. Criada por Mark Post em 2013, a Mosa faz parte de mais 30 companhias desenvolvendo o produto final. E há centenas de outras atuando em etapas intermediárias do processo.

Em 2030, a estimativa é que o mercado de carne à base de células chegue a US$ 140 bilhões, segundo a Blue Horizon Corp.

Carne-cultivada-e-a-libertacao-animal

Veganismo X Carne cultivada

Em um mundo que ainda enfrenta a pandemia da Covid-19, aprendemos que esse vírus não foi um desastre natural, como muitos fenômenos climáticos, mas sim causado por atividades humanas. Invadir ecossistemas florestais, destruir habitats de outras espécies, e comer animais resultaram no vírus. De acordo com Vandana Shiva, física, ecofeminista, ativista pela soberania alimentar e criadora do Movimento Navdanya, nos últimos 50 anos surgiram 300 novos patógenos e 70% destes que afetam os humanos, como o HIV, o ebola, a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) e a síndrome respiratória aguda grave (SARS), surgem desse desequilíbrio florestal. Então os vírus se transferem de animais a pessoas facilmente, ainda mais quando estes animais estão aglomerados para virarem alimento.

Continuar comendo carne animal, mesmo que feita em laboratório, seria a solução? Será que há a possibilidade de existir uma tecnologia que faz com que nossos hábitos alimentares sejam “éticos”? Ao que parece, o humano está usando da tecnologia para consertar o que ele mesmo destruiu. Bruce Friedrich, um ex-voluntário do PETA, disse à Fast Company: “tentamos convencer o mundo a se tornar vegano, e não funcionou”.  Ele co-fundou o The Good Food Institute, onde agora investe em “cultured meat”.

“Nossa teoria é que, dado que os seres humanos têm comido carne por milhões de anos, é difícil convencê-los a parar de comer carne agora, especialmente agora que a maior parte da humanidade está saindo da pobreza”, diz Josh Tetrick, o CEO da Eat Just. “A melhor maneira de lidar com o desafio da carne é apenas fazer uma carne melhor, sem todos os problemas associados à matança de animais hoje”, ressaltando que a indústria da carne também é um dos maiores contribuintes mundiais para as mudanças climáticas. A concentração destes animais libera muito metano, um gás de efeito estufa que é cerca de 85 vezes mais potente do que o dióxido de carbono.

A Organização para Alimentos e Agricultura das Nações Unidas estima que animais que pastam, como vacas, contribuem com 40% das emissões de metano em todo o mundo. Concentrações de aves e suínos também liberam metano e outros poluentes – resíduos que têm sido associados a doenças respiratórias nas comunidades em torno dessas fazendas.

Isso é mesmo necessário?

Mas, agora a pergunta é: precisamos de carne? Nosso consumo exacerbado é extremamente recente na história, pois com a revolução e pecuária industrial nossa alimentação se baseia quase totalmente nisso. Os gladiadores de Roma, por exemplo, tinham uma dieta voltada para a vegetariana, e só comiam carne em pequenas quantidades.

A dieta sem animais existe há milênios, da Grécia à Índia Antiga; já o termo “vegano”, no entanto, é recente, aparecendo na década de 1940. Hoje, com a preocupação pelo meio ambiente e direitos dos animais, o veganismo pode apoiar a criação de carnes cultivadas, liderada por empresas como Mosa Meat, Memphis Meats e Eat Just?

A mudança de pensamento é demorada e árdua, mas o movimento dos direitos dos animais e o de soberania alimentar ajudam a desconstruir ideias pré-estabelecidas, como a de que precisamos de carne para viver. Claro que se as pessoas forem consumir carne animal, será melhor que seja uma carne que não resultou de matadouros.

Vandana Shiva fala que a tecnologia não é uma religião que não pode ser questionada. Podemos apoiar a iniciativa deste novo mercado, mas é importante ressaltar que a ideia de que é necessário viver com carne, qualquer que seja, precisa ser desmistificada.

E não tem como negar a mudança social que isso traz. “Este lançamento e os desenvolvimentos futuros no campo impactarão para sempre nossa relação com os alimentos que comemos e o planeta que habitamos”, disse Andrew Noyes, da Eat Just, em um comunicado à imprensa. “Isso marca o começo de fazermos as coisas melhor do que fazíamos há milhares de anos.”

De acordo com a Fast Company, 2020 foi um ano com alto consumo de carne e dados do instituto de pesquisas Sentience mostram que muita gente sabe que a grande maioria dos animais de criação não é bem tratada. Porém, com exceção de alguns veganos, vegetarianos e “flexitarianos”, os muitos entre eles que poderiam mudar seus hábitos alimentares simplesmente não se importam o suficiente para realmente fazer isso.

Tecnologia a serviço do status quo

A ideia da carne cultivada, portanto, parece mais uma saída da indústria para que os hábitos continuem os mesmos com métodos diferentes.

A tecnologia já salvou e salva animais de maus tratos diariamente: como o caso dos cavalos que, em vez de usá-los como transporte, pode ser possível utilizar veículos, ou em vez de usar penas de animais para escrever, hoje temos canetas. E agora pode ajudar os animais mais uma vez. Ressaltando que irá salvar do próprio sistema especista feito pelo homem.

Portanto, será que o investimento da indústria em carnes laboratoriais é um avanço tão revolucionário quanto o veganismo?

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por Ana Reis em 16 de fevereiro