A produção de alimentos é hoje um dos principais motores da crise ambiental. Segundo um novo relatório da Food Foundation, as populações globais de vida selvagem encolheram 73% nos últimos 50 anos, em grande parte devido às atividades humanas. O estudo alerta: sem mudanças urgentes na forma como produzimos e consumimos alimentos, o planeta pode acelerar o caminho rumo a uma sexta extinção em massa.
A agricultura intensiva, especialmente a voltada para produtos de origem animal, está no centro do problema. O modelo atual contribui fortemente para a emissão de gases de efeito estufa, a perda de biodiversidade e a pressão crescente sobre os ecossistemas. Ao mesmo tempo, a própria perda de biodiversidade ameaça a continuidade da produção de alimentos.
Para a organização, repensar tanto o que colocamos no prato quanto os métodos de produção é uma estratégia essencial para garantir segurança alimentar, proteger a natureza e gerar benefícios para a saúde pública e a economia.
Carne e biodiversidade: um elo preocupante
O relatório aponta que, se o governo britânico não agir agora, os custos econômicos futuros serão muito maiores. Até a década de 2030, a perda de biodiversidade pode reduzir o crescimento econômico do Reino Unido entre 6% e 12%, um impacto mais profundo que a crise financeira de 2008 ou a pandemia de Covid-19.
Globalmente, proteger a natureza pode gerar até US$ 10 trilhões em valor econômico e criar 400 milhões de empregos até o fim da década. Porém, adiar essa transição em apenas 10 anos pode dobrar os custos necessários de intervenção.
Hoje, a agricultura responde pela maior parte da destruição de habitats. Subsídios que favorecem práticas insustentáveis custam ao mundo de US$ 4 a 6 trilhões por ano em danos climáticos. Entre as soluções mais eficazes, o relatório destaca a adoção de dietas baseadas em plantas, capazes de reduzir significativamente as pressões sobre o meio ambiente.
No Reino Unido, o consumo médio de carne é o dobro da média mundial, com destaque para a alta ingestão de carne vermelha. Essa prática está diretamente ligada ao aumento do risco de extinção de várias espécies. A Food Foundation calcula que, ao migrar para uma alimentação mais plant-based, seria possível reduzir em até 58% as extinções projetadas para os próximos 100 anos.
Por que reduzir o consumo é essencial
Embora algumas práticas de pecuária regenerativa tragam benefícios ambientais, o estudo ressalta que, nos níveis atuais de produção e consumo, simplesmente não há terras suficientes no mundo para sustentar o rebanho global dessa forma. A mensagem é clara: será impossível atingir as metas climáticas e de biodiversidade sem reduzir a produção e o consumo de carne.
No Reino Unido, diferentes instituições já vêm reforçando a necessidade dessa transição. A Estratégia Nacional de Alimentação, em 2021, sugeriu uma redução de 30% no consumo de carne até 2032. Mais recentemente, o Comitê de Mudanças Climáticas recomendou cortes de 25% até 2040 e 35% até 2050.
O papel das empresas e oportunidades para o futuro
A Food Foundation defende que empresas e investidores assumam um papel de liderança, apoiando práticas agrícolas sustentáveis e incentivando dietas mais ricas em vegetais. Hoje, apenas 5% das companhias avaliam seus impactos sobre a natureza e menos de 1% compreendem sua real dependência dela.
Uma oportunidade já mapeada está no aumento do consumo de proteínas tradicionais de origem vegetal, como os feijões. O estudo anterior da fundação mostrou que feijões e grãos são alguns dos alimentos mais fortes quando se combinam critérios de sustentabilidade, nutrição e acessibilidade.
A entidade ainda pede que o governo britânico desenvolva um plano ambicioso para fortalecer a horticultura local, incentivando agricultores de todas as regiões a ampliar a produção de frutas, legumes e grãos, reduzindo a dependência de importações e aumentando a oferta de alimentos mais saudáveis.
Para a baronesa Joan Walmsley, a mensagem é inequívoca: “Se queremos uma população saudável, capaz de impulsionar a economia, precisamos garantir acesso a alimentos nutritivos e sustentáveis, especialmente frutas, vegetais, leguminosas e outras fontes vegetais”.
A conclusão do relatório ecoa esse chamado: reformular a produção de alimentos e adotar dietas mais vegetais não é apenas uma questão ambiental, mas também uma estratégia para promover saúde, reduzir custos futuros e construir um sistema alimentar resiliente e justo.
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