Às vésperas de entrar no mercado e se preparar para uma rodada Série A, a foodtech Äio acaba de garantir um aporte de €1,2 milhão (US$ 1,4 milhão) do governo da Estônia. O recurso será usado para ampliar a produção de sua gordura microbiana destinada à indústria de alimentos, desenvolvida a partir de resíduos industriais.
O investimento foi concedido pela Enterprise Estonia, agência nacional de inovação, e dará início ao projeto Ferm-Oil, com duração prevista de três anos. O objetivo é levar a Flavoured Fat — gordura obtida por fermentação — da escala laboratorial e piloto para uma produção industrial validada. O orçamento total da iniciativa chega a €2,3 milhões (US$ 2,7 milhões).
O novo aporte se soma a um subsídio de €1 milhão recebido há poucos meses por meio do Programa de Pesquisa Aplicada, apoiado pelo Estado. Fundada há três anos, a Äio já captou €6,8 milhões em investimentos seed e €3 milhões em grants de diferentes origens.
“Esse financiamento mostra que a Estônia está comprometida com a construção de um sistema alimentar mais resiliente e circular. Ele nos permite provar que nosso processo funciona em escala industrial, não apenas em laboratório, e que novos lipídios podem se tornar um pilar real da segurança alimentar no futuro”, afirma Nemailla Bonturi, cofundadora e CEO da empresa.
Da inovação científica à produção comercial
Spin-off da Universidade de Tecnologia de Tallinn, a Äio nasceu a partir das pesquisas conduzidas por Bonturi e pelo cofundador Petri-Jaan Lahtvee. A startup utiliza biomassa e fermentação de precisão para transformar subprodutos das indústrias madeireira, láctea e alimentícia em alternativas nutritivas às gorduras de origem animal e vegetal.
Esses resíduos alimentam uma levedura proprietária conhecida como “levedura vermelha”, responsável pela produção das gorduras. Segundo a empresa, o processo consome 97% menos terra e 90% menos água do que a produção de óleo de palma, além de ser até dez vezes mais rápido.
Entre os produtos desenvolvidos está a Flavoured Fat, descrita como uma biomassa de levedura rica em lipídios, com sabor umami e propriedades funcionais de textura.
“O Ferm-Oil enfrenta um dos maiores desafios da inovação em alimentos: a transição do laboratório para a fábrica”, explica Mary-Liis Kütt, diretora de inovação da Äio e líder do projeto. “Já sabemos que a Flavoured Fat tem excelente desempenho em protótipos, substituindo ingredientes como cacau e açúcar mascavo, além de conferir textura a caldos e molhos.”
O projeto prevê a otimização do processo fermentativo em escala laboratorial e piloto, a validação de matérias-primas de segunda geração e a transferência da produção para uma unidade industrial terceirizada. Os lotes de teste servirão para ajustes de processamento, análises de qualidade, estudos de shelf life e avaliações de segurança alimentar, com a meta de alcançar o Nível de Prontidão Tecnológica 6 (TRL 6), marco que indica maturidade industrial.
Durante o desenvolvimento, a Äio testará a Flavoured Fat em aplicações salgadas, de panificação e bebidas, trabalhando em conjunto com potenciais clientes para avaliar sabor, textura e aceitação do consumidor.
Próximos passos: cosméticos, aprovação regulatória e Série A
Além da Flavoured Fat, o portfólio da Äio inclui o Encapsulated Oil — substituto de gordura rico em proteínas e fibras para alimentos e cosméticos —, o RedOil, com coloração vermelha intensa e potencial para substituir óleo de peixe e óleos de sementes, e o ZymaLipid Complex, alternativa funcional aos óleos de palma, coco e soja.
Este último será o primeiro a chegar ao mercado, com lançamento previsto para o próximo ano no setor de cosméticos, que possui um caminho regulatório mais curto do que o alimentar. A empresa já alinha seu desenvolvimento às exigências da União Europeia, garantindo caracterização completa de segurança e composição.
Paralelamente, o projeto Ferm-Oil permitirá concluir os estudos necessários para a submissão do dossiê de novel food na UE. “Vamos validar o processo em linhas industriais reais, gerar dados sólidos de segurança e entender como o consumidor reage a esses novos ingredientes lipídicos”, destaca Kütt.
Recentemente, a Äio realizou uma produção de uma tonelada do Encapsulated Oil, um aumento de 300 vezes em relação à capacidade de laboratório. O novo projeto deve abrir caminho para investimentos futuros em uma planta com capacidade anual de até 4 mil toneladas.
A rodada Série A está prevista para começar no terceiro trimestre de 2026 e deve viabilizar acordos de licenciamento tecnológico em larga escala. Hoje, a startup já mantém conversas com mais de 120 parceiros globais, incluindo grandes fabricantes de alimentos.
“A Estônia e a região têm uma oportunidade única de liderar a bioeconomia circular”, afirma Lahtvee. “Com o Ferm-Oil, mostramos que resíduos de segunda geração podem se transformar em ingredientes de alto valor e escala. É a circularidade aplicada de forma concreta à produção de alimentos do futuro.”
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