A Mosa Meat encerra o ano com mais um marco relevante em sua trajetória. A startup holandesa de carne cultivada anunciou a captação de €15 milhões (cerca de US$ 17,6 milhões) em uma nova rodada de financiamento, ao mesmo tempo em que confirma avanços significativos na redução de seus custos de produção — um passo decisivo rumo ao lançamento comercial de seu hambúrguer de carne cultivada.
O aporte veio de investidores que já acompanham a empresa há algum tempo, como a Invest-NL, investidora de impacto estatal apoiada por uma garantia do InvestEU, a agência regional LIOF, o grupo avícola PHW Group — que já tem histórico de investimentos em carne cultivada — e Jitse Groen, fundador e CEO da Just Eat Takeaway.com.
Segundo Tim van de Rijdt, chief business officer da Mosa Meat, os novos recursos garantem fôlego financeiro até 2028 e serão direcionados principalmente para a próxima etapa de aprovações regulatórias e para a preparação da entrada no mercado. “Captamos exatamente o necessário para alcançar o próximo ponto de virada do negócio, que é gerar as primeiras receitas com a comercialização”, afirmou em entrevista ao Green Queen.
Com essa rodada, o volume total levantado pela empresa ultrapassa US$ 156 milhões, somando-se à Série A de €40 milhões realizada em 2024 e à rodada de crowdfunding de €3,7 milhões concluída no início deste ano.
Para Victor Meijer, principal de investimentos da Invest-NL, a carne cultivada é peça-chave na transição proteica global. “Reduzir o impacto da pecuária tradicional passa por alternativas como essa. Como todo setor emergente, trata-se de um investimento desafiador, que exige visão de longo prazo. A Mosa Meat construiu uma base sólida e vem avançando de forma consistente rumo à comercialização”, destacou.
De hambúrguer de US$ 330 mil a um produto viável para restaurantes
A Mosa Meat é uma das pioneiras da carne cultivada. Em 2013, seu cofundador e diretor científico, o professor Mark Post, apresentou ao mundo o primeiro hambúrguer de carne cultivada, em uma coletiva de imprensa em Londres que entrou para a história. Na época, produzir duas unidades custou cerca de US$ 330 mil.
Desde então, a empresa passou por uma transformação profunda. Apenas nos últimos anos, conseguiu reduzir em 80 vezes o custo do meio de crescimento celular e, no ano seguinte, diminuir em 66 vezes o custo do meio usado para produzir gordura. No total, os custos de produção caíram 99,999% em comparação com aquele primeiro experimento.
“Hoje, graças a avanços científicos fundamentais e a ganhos de escala, já conseguimos produzir hambúrgueres a um custo compatível com cardápios de restaurantes”, afirma Maarten Bosch, CEO da Mosa Meat. “Com o apoio de investidores de classe mundial, transformamos um projeto científico em um produto saboroso e acessível, sem abrir mão da nossa visão original.”
Embora a empresa não divulgue o custo exato por unidade, van de Rijdt explica que, atualmente, o valor por hambúrguer é cerca de 100 mil vezes menor do que no início, com expectativa de novas reduções até a aprovação regulatória. Esse avanço é resultado de melhorias contínuas em diversas frentes — desde o entendimento das células utilizadas até a otimização dos bioprocessos e o desenvolvimento do produto final.
Um dos fatores centrais para essa evolução é a estratégia híbrida adotada pela startup. Em vez de cultivar toda a carne, a Mosa Meat foca na produção de gordura bovina cultivada — elemento essencial para sabor e textura — que depois é combinada com ingredientes vegetais. O resultado são hambúrgueres híbridos, que unem o melhor dos dois mundos.
Reino Unido deve ser o primeiro mercado
A Mosa Meat já protocolou pedidos de aprovação regulatória em Singapura, na União Europeia, na Suíça e no Reino Unido. Neste último, participa do chamado “sandbox” governamental de carne cultivada, uma iniciativa que reúne startups, pesquisadores e autoridades para definir padrões e acelerar a regulamentação do setor.
Recentemente, a Agência de Padrões Alimentares do Reino Unido publicou suas primeiras diretrizes para submissões regulatórias desse tipo de produto. “Esperamos que o Reino Unido seja o primeiro país a conceder aprovação”, afirma van de Rijdt. A estratégia inicial de lançamento será focada no foodservice, especialmente restaurantes, que conseguem absorver melhor os volumes iniciais e os custos dessa fase.
O sucesso da Mosa Meat contrasta com o momento delicado vivido pelo setor de carne cultivada como um todo. Nos primeiros nove meses de 2025, startups da área captaram apenas US$ 36 milhões — bem abaixo dos US$ 139 milhões registrados em 2024, que já representavam uma queda de 40% em relação ao ano anterior.
Esse cenário levou várias empresas a encerrarem suas operações ao longo do ano, incluindo nomes como as holandesas Meatable e Upstream Foods, além da Believer Meats, que havia obtido aprovação total nos Estados Unidos e inaugurado a maior fábrica de carne cultivada do mundo poucos meses antes.
“Os mercados de capital para foodtech e proteínas alternativas não têm sido favoráveis nos últimos anos, então captar recursos definitivamente não é simples”, reconhece van de Rijdt. “Somos muito gratos pela confiança contínua dos nossos investidores.”
Ele acrescenta que, em um ambiente financeiro como o atual, é natural que startups pré-receita enfrentem dificuldades. “É triste ver equipes talentosas e apaixonadas encerrando suas atividades, mas os avanços que vimos em 2025 nos deixam confiantes de que a carne cultivada ainda tem um futuro promissor.”
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