Às vésperas da primeira edição da Cellular Agriculture Week no Japão, duas empresas pioneiras do setor anunciaram uma parceria estratégica para inovar no mercado de beleza sustentável.

A japonesa IntegriCulture, referência no país em carne cultivada, assinou um memorando de entendimento com a Umami Bioworks, de Singapura, especializada em frutos do mar cultivados em laboratório. O objetivo é desenvolver produtos de beleza e cuidados com a pele a partir de células de peixe, dentro da nova linha Marine Radiance, apresentada recentemente pela Umami Bioworks.

Segundo Mihir Pershad, fundador e CEO da Umami Bioworks, a parceria é estratégica: “A IntegriCulture já tem um histórico de relacionamento com marcas de cosméticos no Japão e pode acelerar o processo de comercialização de nossos ingredientes. Juntas, vamos também fortalecer a compreensão do mercado sobre cosméticos cultivados e abrir novas oportunidades para as duas empresas.”

Skincare do futuro: células de ovo e de peixe como protagonistas

A colaboração une duas frentes complementares: o ingrediente Cellament, desenvolvido pela IntegriCulture a partir de células de ovo, e a plataforma de inteligência artificial Alkemyst, da Umami Bioworks.

O Cellament, lançado em 2021, é um soro celular rico em proteínas e fatores de crescimento, capaz de revitalizar a pele em nível celular. Estudos indicam que ele ajuda a preservar a elasticidade, acelerar a renovação das células, melhorar a hidratação e reduzir sinais de inflamação e envelhecimento.

Já a Alkemyst combina machine learning, biologia computacional e tecnologia de gêmeos digitais para otimizar pesquisas em agricultura celular. A plataforma reduz tempo e custos ao prever resultados, selecionar linhas celulares mais adequadas e aprimorar processos de cultivo.

Combinando essas tecnologias, as duas startups planejam lançar no futuro uma linha inédita de cosméticos desenvolvidos a partir de células de peixe cultivadas.

Beleza alinhada à sustentabilidade

A linha Marine Radiance foi criada para atender ao mercado de cuidados pessoais e nutracêuticos, oferecendo ingredientes estáveis, rastreáveis e éticos, em substituição aos compostos marinhos tradicionais — muitas vezes associados à exploração ambiental e à variação de qualidade.

O primeiro produto é uma versão animal-free do PDRN (polideoxirribonucleotídeo), normalmente extraído de esperma de salmão e usado por suas propriedades anti-inflamatórias, regenerativas e de síntese de colágeno. Agora, será produzido a partir de células cultivadas, oferecendo uma alternativa mais sustentável sem abrir mão da eficácia.

Segundo Pershad, a decisão de atuar no setor de cosméticos surgiu quando a Umami Bioworks identificou que suas células cultivadas geravam co-produtos com forte atividade cosmética, como propriedades antioxidantes e anti-idade. O interesse imediato de grandes marcas confirmou o potencial de mercado e acelerou os planos da empresa.

Tendência global: beleza ética e eco-friendly

O movimento faz eco a uma demanda crescente. As buscas por “beleza sustentável” cresceram 200% desde 2019, e pesquisas mostram que 80% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos éticos e sustentáveis. Na Ásia-Pacífico, metade dos consumidores já considera critérios de sustentabilidade ao escolher cosméticos — o que torna a região o mercado que mais cresce em beleza cruelty-free.

Além da parceria com a IntegriCulture, outras empresas da região também estão explorando esse caminho. A Avant, por exemplo, desenvolveu o ZelluGen, um complexo de peptídeos cultivados para cosméticos, reforçando o protagonismo da Ásia nesse segmento emergente.

Paralelamente, tanto a IntegriCulture quanto a Umami Bioworks continuam avançando em seus projetos de alimentos cultivados — desde foie gras e pato até enguia japonesa e atum bluefin — mostrando que a biotecnologia pode transformar não apenas a forma como nos alimentamos, mas também a forma como cuidamos da pele.

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