A startup norte-americana The Better Meat Co acaba de captar US$ 31 milhões em uma rodada Série A, com a meta ousada de produzir sua micoproteína a um custo mais baixo que o da carne bovina até o próximo ano. Com isso, o total captado pela empresa desde a sua fundação, em 2018, chega a US$ 43 milhões.

O aporte foi liderado pela Future Ventures e pela Resilience Reserve, com participação de investidores como Glenn Hickman (CEO da Hickman’s Family Farms), Epic Ventures, Sigma Ventures e outros parceiros já existentes e novos.

Segundo o fundador e CEO Paul Shapiro, os recursos serão aplicados principalmente na expansão da produção em escala comercial da Rhiza, a micoproteína desenvolvida pela empresa, além de novas aplicações para o ingrediente, que já é utilizado em misturas com carne e alternativas plant-based.

“Rhiza é um alimento completo, limpo e versátil, que se destaca tanto no aprimoramento da carne convencional quanto na formulação de proteínas alternativas”, explica Shapiro.

Por que a Rhiza chama atenção

A Rhiza é uma micoproteína de biomassa integral obtida por fermentação da cepa fúngica Neurospora crassa. Rica em aminoácidos essenciais, ela contém 50% de proteína em peso seco — mais do que os ovos —, além de apresentar alta digestibilidade, fibras em quantidade superior à aveia e potássio acima do da banana. Tudo isso sem colesterol e com baixíssimo teor de gordura saturada.

Quando hidratada, a micoproteína pode receber gorduras e aromas, sendo usada tanto em aplicações 100% vegetais quanto como componente em carnes híbridas. Ao ser misturada à proteína animal, melhora a textura e o rendimento após o cozimento, além de reduzir a gordura saturada e aumentar o teor de fibras.

Hoje, a startup já trabalha com grandes players como Hormel Foods, Maple Leaf Foods e a fornecedora de refeições escolares SFE. No total, são cinco acordos com produtores de carne na América do Norte, América do Sul e Ásia, que devem gerar US$ 13 milhões em receita anual.

Desde 2019, a empresa também fornece proteínas vegetais para a Perdue Farms, usadas na linha Chicken Plus, que continua apresentando boas vendas.

Novos horizontes além da carne

Embora a ênfase inicial esteja em carnes híbridas, a The Better Meat Co já testou a Rhiza em alternativas lácteas como leite, queijos, iogurte e sorvetes — e agora vê potencial também em panificados e confeitaria. A micoproteína pode substituir o ovo em receitas, melhorar a retenção de umidade e enriquecer produtos como pães, tortilhas, brownies e barrinhas de proteína.

No campo regulatório, a empresa conquistou seis patentes nos EUA e já obteve aprovação tanto da FDA quanto do USDA. Inclusive, a Rhiza é a única micoproteína considerada “segura e adequada” pelo USDA para uso em carnes convencionais. O ingrediente também já foi liberado em Singapura.

Caminho para escalar a produção

Atualmente, a startup opera com um biorreator de 9 mil litros em Sacramento, mas o plano é migrar para tanques de 150 mil litros com o apoio de um co-manufatureiro, o que poderá gerar receita de oito dígitos já no primeiro ano. Esse projeto conta ainda com um aporte de US$ 1,5 milhão do Departamento de Defesa dos EUA, via o programa federal Distributed Bioindustrial Manufacturing.

Com a adoção de um sistema de fermentação contínua, que permite colher o produto enquanto a produção ainda acontece, a empresa conseguiu aumentar o rendimento e reduzir os custos em mais de 30%. O objetivo agora é claro: bater de frente com o preço da carne moída até 2026.

Um feito em tempos de baixa nos investimentos

A rodada Série A da The Better Meat Co acontece em um momento desafiador para o setor de proteínas alternativas. Em 2023, os aportes caíram 44%, seguidos de uma queda adicional de 27% em 2024. No primeiro semestre de 2025, o volume captado foi 49% menor do que no mesmo período do ano anterior.

Nesse cenário, garantir US$ 31 milhões é considerado um grande feito, especialmente porque startups de fermentação receberam apenas US$ 2,6 milhões no segundo trimestre deste ano.

“Construir uma foodtech hoje pode parecer um jogo de sobrevivência — como no Round 6 (Squid Game). Mas mesmo num ambiente hostil, ainda há espaço para boas ideias e bons negócios, como esta rodada comprova”, afirma Shapiro.

Leia também:

EdiMembre aposta em membranas comestíveis para escalar carne cultivada

A Tal da Castanha consolida liderança no mercado de bebidas vegetais no Brasil

Century Pacific adquire marcas Loma Linda e Tuno por menos de US$ 10 milhões

Compartilhe: