Em Massachusetts, a EdiMembre surge como uma nova foodtech com uma proposta ousada: viabilizar a produção em escala de carne cultivada por meio de uma tecnologia de membranas ocas e comestíveis.
A startup nasceu como um spin-off da MilliporeSigma, braço norte-americano da gigante alemã Merck Group, e recebeu licença exclusiva para comercializar sua plataforma de membranas comestíveis.
Inspirada em técnicas tradicionais de formação de membranas, a EdiMembre utiliza um processo patenteado de inversão de fases para criar membranas micro e nanoporosas a partir de isolados proteicos de leguminosas. Essas membranas permitem a passagem de grandes moléculas e, ao mesmo tempo, favorecem a fixação celular — etapa crucial para a criação de estruturas que dão origem a cortes inteiros de carne cultivada.
Além disso, a tecnologia já foi aplicada em biorreatores de bancada capazes de produzir cortes estruturados de carne cultivada e até massas com alto teor proteico. Segundo o cofundador e CSO Ryan Sylvia, é possível ajustar as propriedades físicas das membranas, abrindo espaço para múltiplas aplicações culinárias.
A empresa já captou US$ 400 mil em pré-seed com investidores como Siddhi Capital, Replicator VC e Cellular Agriculture Ltd. A próxima meta é expandir a produção piloto em sua nova sede em Woburn, Massachusetts.
CraftRidge: o coração da tecnologia
A grande aposta da EdiMembre é o CraftRidge, um biorreator de fibras ocas comestíveis patenteado, projetado para cultivar carne estruturada em larga escala. A tecnologia já foi testada com diferentes tipos de células e espécies, em modalidades de cultivo variadas, e hoje permite produzir alguns gramas em laboratório. O próximo passo é atingir escala de quilos — etapa essencial para viabilizar comercialmente os cortes inteiros cultivados.
Outro ponto de destaque é a versatilidade da matéria-prima: as membranas podem ser feitas com isolados de proteína de soja, lentilha ou feijão-mungo. Do ponto de vista de rotulagem, isso é atrativo, já que o ingrediente base é um único material vegetal. Com ele, é possível produzir massas com mais de 80% de proteína, muito acima da média do mercado (15% a 40%), ou formar cortes de carne cultivada com distribuição homogênea de gordura.
“Nosso processo elimina parte dos altos custos de capital normalmente exigidos para escalar proteínas cultivadas e resolve o desafio de formar cortes inteiros”, explica Sylvia.
Modelo de negócios e mercado-alvo
A EdiMembre pretende operar em modelo B2B, fornecendo os consumíveis do CraftRidge — membranas comestíveis descartáveis — para startups de carne cultivada e, futuramente, também para grandes frigoríficos interessados em integrar proteína celular em suas linhas de produção.
“Já temos parcerias com as principais startups de carne cultivada, que testam nossos protótipos em seus próprios bioprocessos e nos ajudam a refinar a tecnologia”, diz Timothy Ryan Olsen, CEO e cofundador.
O plano é lançar ainda em 2025 um dispositivo capaz de produzir 1 kg de carne cultivada estruturada, e, no futuro, desenvolver versões industriais de 30 kg para atender grandes players do setor.
Próximos passos: rodada seed e expansão
Após a captação inicial, a startup já iniciou sua rodada seed de US$ 5 milhões, que será destinada à construção de uma máquina piloto para a produção de dispositivos CraftRidge em escala, avanço das patentes e contratação de novos talentos.
Embora a aplicação principal seja a carne cultivada, a tecnologia também pode ser explorada em áreas como couro cultivado e encapsulamento de bioativos. No entanto, Olsen destaca que o foco agora é total na proteína celular.
Desafios do setor e otimismo
O momento para a carne cultivada é desafiador: o volume de investimentos caiu drasticamente desde 2021, e alguns estados dos EUA chegaram a banir esses produtos. Ainda assim, avanços regulatórios recentes em países como EUA, Austrália e Singapura mostram que o setor segue em movimento.
“O mercado passou por uma correção em relação ao hype de alguns anos atrás, mas a oportunidade continua enorme”, avalia Olsen. “Nosso papel é ser um parceiro estratégico de tecnologia, acelerando o caminho das empresas para colocar no mercado produtos cultivados saborosos, acessíveis e sustentáveis.”
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