Xangai quer assumir a dianteira na diversificação das fontes de proteína na China. Para isso, a cidade apresentou um novo plano estratégico de cinco anos que pretende acelerar o desenvolvimento do seu ecossistema de food tech e posicioná-lo como referência em inovação, sustentabilidade e segurança alimentar.

O Plano de Ação de Xangai para Acelerar a Inovação em Tecnologia de Alimentos e Impulsionar o Desenvolvimento Industrial foi divulgado no fim de dezembro por seis departamentos do governo municipal. A iniciativa tem como objetivos centrais fortalecer a segurança e a qualidade dos alimentos, promover a saúde pública, aumentar a eficiência produtiva e reduzir impactos ambientais.

Válido entre 2026 e 2030, o plano aposta no desenvolvimento de novos processos, produtos e modelos de negócio, tendo tecnologias emergentes como biologia sintética e inteligência artificial como principais motores de transformação.

Metas claras para os próximos cinco anos

Até 2027, Xangai pretende alcançar avanços relevantes no campo dos chamados “novos alimentos”. Isso inclui o desenvolvimento e a aprovação de até cinco novos ingredientes, aditivos ou produtos alimentares, além de um a dois alimentos formulados para fins médicos especiais.

A cidade também quer estimular o surgimento de mais de cinco empresas inovadoras, com tecnologias-chave voltadas à criação de alimentos e à manufatura digital. Outro ponto importante é a criação de um sistema colaborativo que conecte pesquisa científica, testes técnicos e processos regulatórios.

Já olhando para o fim da década, o plano prevê a formação de um cluster de inovação com oito a dez empresas líderes em segmentos estratégicos, a adoção de padrões regulatórios alinhados às normas internacionais, a criação de um polo nacional de nutrição e saúde e a implantação de um parque piloto dedicado a novos alimentos. A expectativa é que, com essas iniciativas, o setor alcance um valor de produção superior a ¥150 bilhões (cerca de US$ 21,3 bilhões).

Entre as ações práticas, destacam-se a digitalização das tecnologias produtivas, o avanço da automação logística e o uso de dados nutricionais individuais para embasar modelos personalizados de saúde e alimentação.

Estrutura, investimento e colaboração

O plano também prevê a criação de uma plataforma pública de P&D voltada a alimentos sustentáveis, além de um espaço piloto para testes e degustação em escala experimental. A proposta inclui ainda o fortalecimento das plataformas de inovação tecnológica, o estímulo à cooperação entre empresas e a ampliação de mecanismos de financiamento multicanal para o setor de food tech.

Foco em novos alimentos, regulação e aceitação do consumidor

Uma parte relevante da estratégia é dedicada ao avanço do segmento de alimentos do futuro. Xangai pretende impulsionar o desenvolvimento de proteínas, carboidratos e lipídios funcionais, além de pesquisar novos componentes que ampliem a biodisponibilidade e preservem a atividade nutricional.

A integração entre biologia sintética e inteligência artificial deverá acelerar inovações como triagem celular em larga escala, modificação pós-traducional de proteínas e o aprimoramento do desempenho de microrganismos usados na produção de alimentos.

O plano também apoia pesquisas em proteínas alternativas, incluindo substitutos de carne e laticínios, alimentos impressos em 3D e ingredientes derivados de algas. Além disso, prevê o desenvolvimento de produtos funcionais, como peptídeos bioativos, probióticos, prebióticos e pós-bióticos, com o objetivo de atender à diversidade de hábitos alimentares, às demandas por nutrição personalizada e às metas de desenvolvimento sustentável.

No campo regulatório, o governo municipal quer modernizar os processos e alinhá-los aos padrões internacionais. Isso inclui aproximar as etapas de pesquisa, testes e aprovação, orientar as empresas a adotar modelos integrados de P&D e produção para obtenção de licenças e acelerar a chegada de novos alimentos ao mercado.

Outro ponto-chave é a aceitação do consumidor. A estratégia aposta em comunicação baseada em ciência para ampliar a confiança do público. Xangai já parte de um cenário favorável: uma pesquisa recente mostrou que 77% dos consumidores em quatro cidades chinesas de primeira linha — incluindo Xangai — estão dispostos a experimentar carne e frutos do mar cultivados.

Movimento alinhado à estratégia nacional

A iniciativa de Xangai faz parte de um movimento mais amplo na China. No mesmo ano, Pequim inaugurou o primeiro centro nacional de inovação em proteínas alternativas, enquanto a província de Guangdong anunciou planos para criar um polo de biomanufatura focado em proteínas vegetais, microbianas e cultivadas.

No âmbito federal, o apoio também cresce. Durante a reunião das Duas Sessões de 2025, autoridades defenderam maior integração das indústrias estratégicas emergentes, incluindo a biomanufatura. O Ministério da Agricultura destacou a segurança e o valor nutricional das proteínas alternativas como prioridade, e o Documento Central nº 1 reforçou a importância da diversificação proteica, com incentivo à exploração de novas fontes alimentares.

Com essa combinação de políticas públicas, inovação tecnológica e visão de longo prazo, Xangai sinaliza que pretende ser um dos principais polos globais de food tech e proteínas sustentáveis nos próximos anos.

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