Mesmo em um cenário desafiador para investimentos em foodtech, a BlueNalu segue conseguindo atrair capital. Enquanto aguarda a aprovação regulatória nos Estados Unidos, a startup especializada em frutos do mar cultivados anunciou a captação de cerca de US$ 11 milhões em novos aportes, entre notas conversíveis e ações preferenciais. Com isso, o volume total investido na empresa chega a US$ 129 milhões.
A rodada foi liderada pelos fundos Agronomics, Siddhi Capital e Lewis & Clark AgriFood, e contou ainda com a participação de aproximadamente 40 investidores já existentes. Entre eles estão parceiros estratégicos como Griffith Foods, Pulmuone e Rich Products Corporation. Os recursos serão destinados à ampliação da produção do toro de atum bluefin cultivado, produto que a empresa pretende oferecer a restaurantes premium de sushi e alta gastronomia nos EUA.
Em uma publicação nas redes sociais, o fundador e CEO da BlueNalu, Lou Cooperhouse, destacou que o apoio contínuo dos investidores demonstra confiança na equipe, na estratégia de negócios e na capacidade de execução da companhia. Segundo ele, esse respaldo ganha ainda mais peso em um ano marcado por restrições de capital e maior rigor na avaliação de empresas em estágio inicial dentro dos setores de foodtech e agtech.
Preparação industrial para escalar a produção
Fundada em 2018, a BlueNalu decidiu focar em um dos cortes mais valorizados do mundo dos pescados. O atum bluefin é conhecido por sua textura macia, sabor marcante e alto valor nutricional. O toro, especificamente, é a parte mais gordurosa do ventre do peixe, muito apreciada em sushis e sashimis de alto padrão.
Além do prestígio gastronômico, trata-se de uma espécie difícil de criar em cativeiro. O bluefin está entre os peixes mais rápidos e migratórios dos oceanos, o que encarece sua produção e limita a oferta. Soma-se a isso a queda dos estoques naturais, causada pela sobrepesca e pela pesca ilegal, não regulamentada ou não reportada. A demanda constante levou governos a estabelecer cotas rigorosas de captura, e ainda há a preocupação com a contaminação: o atum figura entre os peixes com maiores níveis de metais pesados, como o mercúrio, além da presença de microplásticos.
Atualmente, a BlueNalu opera duas instalações em San Diego. Uma delas é voltada à pesquisa e desenvolvimento e ao aprimoramento de bioprocessos. A outra, com cerca de 3.500 metros quadrados, funciona como planta piloto para transferência de tecnologia, comercialização e produção em pequena escala. Essa estrutura serve como etapa intermediária até a produção comercial plena e dará suporte à entrada inicial no mercado.
A empresa também já apresentou planos para uma fábrica maior, com aproximadamente 13 mil metros quadrados, capaz de produzir até 2,7 mil toneladas por ano quando estiver em operação. O novo investimento permitirá avançar na otimização dos processos e na preparação industrial necessária para essa planta de grande escala.
Ao escolher trabalhar com um dos peixes mais caros do mercado, a BlueNalu evita um dos principais obstáculos enfrentados por carnes cultivadas como bovina ou de frango: a diferença de preço em relação aos produtos convencionais. Em entrevista ao Green Queen, Cooperhouse afirmou que a empresa espera comercializar seus produtos desde o início com preços próximos aos praticados pelo mercado tradicional.
Para Steven Finn, sócio da Siddhi Capital, a BlueNalu se diferencia no setor de proteínas cultivadas por sua abordagem disciplinada e foco claro no foodservice premium. Segundo ele, a companhia construiu uma base sólida em qualidade culinária e relevância de mercado enquanto se prepara para a primeira fase de comercialização.
Olhar global antes mesmo da aprovação nos EUA
A BlueNalu já submeteu seu dossiê à Food and Drug Administration (FDA) e poderá iniciar as vendas do toro assim que receber a chamada carta de “no questions” da agência. Até o momento, apenas a Wildtype conseguiu comercializar frutos do mar cultivados nos Estados Unidos, com seu salmão de grau sushi já presente em restaurantes de alguns estados.
Enquanto aguarda o sinal verde dos reguladores, a BlueNalu vem trabalhando de perto com chefs, distribuidores e parceiros estratégicos para garantir um produto consistente, de alta qualidade e disponível ao longo de todo o ano.
De acordo com Cooperhouse, o novo financiamento permitirá avançar com o lançamento planejado do atum bluefin cultivado e, em seguida, expandir a produção e a distribuição para operadores de foodservice premium, inicialmente nos EUA e, no futuro, em outros mercados globais.
Fora dos Estados Unidos, a empresa já submeteu documentação em Singapura, participa do sandbox regulatório do Reino Unido e intensificou o diálogo regulatório em países como Arábia Saudita, Japão, Coreia do Sul e também na União Europeia.
A BlueNalu também anunciou, ao longo dos últimos anos, parcerias com grandes grupos alimentícios na Ásia, como Pulmuone, Mitsubishi, Sumitomo e Thai Union, além de colaborações com Rich Products e Nomad Foods no Reino Unido, Griffith Foods nos EUA e a Neom, projeto de cidade futurista da Arábia Saudita. Agora, o foco é ampliar as alianças culinárias e de distribuição para sustentar uma expansão internacional nos próximos anos.
Um ponto fora da curva em um cenário difícil para proteínas cultivadas
O novo aporte chama atenção em um momento de retração acentuada nos investimentos em carne cultivada. Nos primeiros nove meses de 2025, startups do setor levantaram apenas US$ 36 milhões, bem abaixo dos US$ 139 milhões captados em 2024 — número que já representava uma queda de 40% em relação ao ano anterior.
A falta de interesse dos investidores acabou levando ao encerramento das atividades de diversas empresas do segmento, incluindo as holandesas Meatable e Upstream Foods, além da Believer Meats, que havia obtido aprovação completa nos EUA e inaugurado a maior fábrica de carne cultivada do mundo poucos meses antes.
Para Dave Taiclet, sócio da Lewis & Clark Partners, o setor de proteínas cultivadas ainda busca seu espaço, mas a BlueNalu conseguiu se destacar claramente. Segundo ele, a empresa mantém o foco em avanços tecnológicos consistentes e na redução significativa de custos, passos essenciais para alcançar uma plataforma comercialmente viável.
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