Em meio à corrida global por substitutos sustentáveis do cacau, uma startup francesa aposta na fermentação e na economia circular para enfrentar, de uma só vez, o desperdício alimentar e os impactos ambientais da produção tradicional de chocolate.

Sediada em Toulouse, a Green Spot Technologies transforma resíduos orgânicos da indústria alimentícia — como bagaço de cervejaria, cascas de tomate e resíduos de uva vindos da produção de vinho — em pós nutritivos e ricos em fibras, por meio de um processo de fermentação natural.

Agora, a empresa acaba de captar €5 milhões (cerca de US$5,8 milhões) em uma rodada que combina aportes de capital e empréstimos bancários. A operação foi liderada pela Team for the Planet, com participação do European Innovation Council, EIT Food e novos investidores-anjo.

Com o novo investimento, a Green Spot pretende aumentar sua capacidade produtiva de 100 para 1.000 toneladas por ano e lançar uma nova marca de ingredientes, batizada de Milatea.

Milatea: chocolates sem cacau e com propósito

Fundada por Ninna Granucci e Silas Boas, a Green Spot coleta subprodutos da indústria alimentícia e os fermenta com culturas livres de organismos geneticamente modificados (OGM) em sua unidade em Carpentras. Durante o processo, microrganismos “pré-digerem” as fibras, melhoram o perfil proteico, reduzem açúcares e compostos antinutricionais, além de intensificar o sabor natural dos ingredientes.

Após a fermentação, o produto é desidratado e moído até se transformar em um pó fino. Sob a linha Ferment’Up, a empresa já desenvolveu três aplicações principais:

  • um molho feito a partir de subprodutos do tomate;
  • um ingrediente rico em fibras para panificação derivado do bagaço de maçã;
  • e substitutos de cacau obtidos de favas e resíduos da indústria vinícola.

Essas formulações deram origem à nova marca Milatea, voltada aos segmentos de panificação, confeitaria e pâtisserie, com recheios, gotas e pós fermentados — todos livres de cacau.

A linha Color Plus apresenta substitutos em pó que mantêm estabilidade em processos de forno e congelamento. A Milatea também oferece gotas de “chocolate” escuro e ao leite (com opção vegana), ideais para cookies, bolos, brioches e viennoiseries.

Já os recheios vêm em versões “chocolate” e “chocolate com avelã”, totalmente livres de cacau, leite e ingredientes tropicais como o óleo de palma. Esses produtos permanecem estáveis mesmo após congelamento e descongelamento, podendo ser usados em recheios ou coberturas de doces e massas finas.

“A Milatea está construindo pontes entre chefs, pesquisadores e a indústria para tornar o prazer sustentável acessível e escalável”, destacou a Green Spot Technologies em seu perfil no LinkedIn.

Para Granucci, a nova rodada de investimentos reforça a confiança dos parceiros: “Temos orgulho de ver nossos atuais investidores renovarem seu apoio e de receber novos aliados que compartilham da nossa visão: fermentar o futuro da alimentação.”

Por que o mercado e os investidores estão de olho nas alternativas ao cacau

A Green Spot Technologies integra um grupo crescente de startups que desenvolvem chocolates sem cacau, como Prefer e Win-Win, e outras que apostam no cacau cultivado em laboratório, como Food Brewer e Pluri.

O interesse do setor é cada vez maior. A produção de cacau enfrenta sérios desafios climáticos: em mais de 70% das regiões produtoras da África, o aumento das temperaturas extremas reduziu drasticamente as colheitas, afetando especialmente Costa do Marfim e Gana — países responsáveis pela maior parte da produção mundial e que já perderam mais de 85% de sua cobertura florestal desde 1960. Cientistas alertam que um terço das plantações de cacau pode desaparecer até 2050.

Além disso, o chocolate é um dos alimentos com maior pegada de carbono, perdendo apenas para a carne bovina, e requer cerca de 1.700 litros de água para produzir uma única barra. O setor também está associado a altos índices de desmatamento e desperdício.

O próprio desperdício alimentar, vale lembrar, representa até 10% das emissões globais e gera perdas econômicas estimadas em US$1 trilhão por ano, agravando a insegurança alimentar no mundo.

Vencedora do Kraft Heinz Co Innovation Challenge e finalista do Earthshot Prize 2024, a Green Spot propõe uma solução de impacto: reduzir resíduos da indústria, diminuir a pegada climática da produção de chocolate e proteger o setor contra os efeitos das mudanças climáticas.

Seu processo de fermentação a seco utiliza 60% menos água do que os métodos convencionais e, mesmo antes de ampliar a operação, já evitou a emissão de 235 toneladas de resíduos alimentares. Em plena capacidade, a tecnologia pode gerar até 100 mil quilos de produto por ano.

O olhar da indústria sobre o “chocolate do futuro”

Os grandes players também estão atentos a esse movimento. Lindt, Puratos, Mondelēz International e a gigante Barry Callebaut — maior fornecedora B2B de chocolate do mundo — já iniciaram investimentos e parcerias com empresas que desenvolvem alternativas sem cacau ou cacau cultivado em laboratório.

Com a expansão da Milatea e o avanço de novas tecnologias fermentativas, o “chocolate sem cacau” deixa de ser uma curiosidade de laboratório para se tornar uma aposta concreta no futuro da indulgência sustentável.

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