A startup norte-americana The Every Company acaba de dar mais um passo importante na revolução das proteínas alternativas. A empresa, sediada em São Francisco, captou US$ 55 milhões em uma rodada Série D, enquanto seus ingredientes chegam oficialmente a produtos vendidos em todas as lojas Walmart dos Estados Unidos.

A conquista vem em um momento estratégico: o mercado global de ovos enfrenta instabilidade causada por surtos de gripe aviária e pela escalada de preços, impactando consumidores, indústrias e o setor de food service.

Usando fermentação de precisão, a The Every Co desenvolve proteínas idênticas às do ovo, mas sem qualquer origem animal. Essas proteínas podem substituir ovos convencionais em pães, massas, bebidas proteicas, xaropes e outras aplicações alimentícias — com desempenho funcional equivalente e custo competitivo.

Os produtos da empresa já aparecem em bebidas como smoothies, sucos e matcha, além de alternativas à carne. Eles também foram destaque em um jantar exclusivo no restaurante Eleven Madison Park, do chef Daniel Humm, detentor de três estrelas Michelin.

Um investimento que consolida liderança

A nova rodada foi liderada pelo fundo McWin Capital Partners, por meio do McWin Food Tech Fund, com participação de investidores como Main Sequence, Bloom8, TO.VC, Minerva Foods, Grosvenor Food & Ag, New Agrarian e SOSV. Segundo Martin Davalos, sócio e head de food tech da McWin, a empresa “cruzou a linha entre promessa e prova”, já que vende toneladas métricas de proteína para grandes indústrias globais.

Com o novo aporte, a The Every Co soma US$ 288 milhões captados desde sua fundação — o terceiro maior investimento do setor de proteínas alternativas em 2025. O capital será usado para expandir a capacidade produtiva, ampliar a atuação em novos segmentos e avançar rumo à lucratividade.

Parceria com o Walmart e mudança de estratégia

O lançamento de um produto com a proteína da empresa em todas as lojas Walmart representa uma virada estratégica: a marca deixa de focar em co-branding e passa a atuar como fornecedora de ingredientes. Essa abordagem garante confidencialidade às marcas que utilizam suas proteínas.

“Ter nosso ingrediente presente nos produtos do maior varejista do mundo é uma validação enorme para todo o setor”, afirmou o cofundador e CEO Arturo Elizondo.

Tecnologia que reduz custos e riscos da cadeia de ovos

A fermentação de precisão, base da tecnologia da The Every Co, consiste em inserir sequências de DNA em microrganismos para que eles produzam moléculas específicas durante o processo de fermentação — o mesmo princípio usado na produção de insulina e vitaminas.

Entre os produtos da empresa estão:

  • OvoPro, uma proteína recombinante que reproduz a funcionalidade da clara do ovo;
  • OvoBoost, uma proteína solúvel e neutra em sabor e textura, ideal para cafés, sucos, refrigerantes e produtos de panificação.

Ambos foram aprovados pela FDA e já estão sendo adotados por grandes indústrias. Elizondo explica que o foco atual é o mercado de panificação, um dos mais afetados pela alta do preço dos ovos, que em algumas cidades dos EUA chegou a US$ 1 por unidade.

“Nosso OvoPro é competitivo — e, em muitos casos, mais barato — do que os ovos convencionais produzidos em sistemas de gaiolas”, afirma. “Alguns clientes multinacionais já validaram que estão economizando ao migrar para nossas proteínas.”

Expansão industrial e novos parceiros

A empresa está duplicando sua capacidade de produção, atualmente feita em parceria com um fabricante europeu, e planeja abrir uma unidade industrial de grande escala com o apoio da startup holandesa Vivici e do Abu Dhabi Investment Office, com capacidade prevista de 4 milhões de litros.

Além de reduzir riscos sanitários, o modelo permite produção constante durante todo o ano, sem depender de insumos de origem animal. Os ingredientes em pó da empresa têm validade de 18 meses e dispensam a necessidade de cadeia fria — uma vantagem significativa para padarias e indústrias alimentícias.

“Elimina-se o risco de gripe aviária, salmonela e outras crises de abastecimento”, reforça Elizondo. “Nosso objetivo é oferecer uma proteína de ovo totalmente funcional, sem os riscos e as ineficiências do modelo tradicional.”

Disputa de patentes com a Onego Bio

A The Every Co enfrenta atualmente uma disputa judicial com a finlandesa Onego Bio, que também atua com proteínas de ovo obtidas por fermentação de precisão. A rival entrou com um processo nos EUA buscando invalidar uma patente-chave da Every, alegando fraude.

Elizondo rebateu as acusações, afirmando que a ação é “uma tentativa desesperada de acessar a propriedade intelectual da empresa”. Segundo ele, a Every possui 63 patentes concedidas em diversos países e mais de 100 em processo de aprovação.

Um dos maiores aportes do setor em 2025

Mesmo diante da retração global nos investimentos em proteínas alternativas — que caíram 27% em 2024 —, a The Every Co conseguiu fechar uma das maiores rodadas do ano, superada apenas pelos aportes da Beyond Meat (US$ 100 milhões) e da Nxtfood (US$ 58 milhões).

“Elas apostaram nos fundamentos do negócio”, explica Elizondo. “Não vendemos uma alternativa que chega perto do ovo — vendemos o mesmo desempenho, ou até melhor, por um preço competitivo e com estabilidade de oferta.”

A proposta conquistou investidores e clientes: “Temos uma tecnologia validada, operação em escala comercial e um mercado gigantesco em busca de soluções reais”, conclui o CEO.

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