Com o objetivo de substituir o plástico em itens que vão de roupas e embalagens a interiores de carros e eletrônicos, a startup australiana Uluu, sediada em Perth, acaba de receber um novo aporte para ampliar sua produção de materiais derivados de algas.
A rodada, de A$16 milhões (cerca de US$ 10,5 milhões), foi liderada pelo fundo Burda Principal Investments, que já havia investido na empresa anteriormente. Também participaram os investidores Main Sequence, Novel Investments, Startmate, além de um grupo de fundos de impacto e famílias, entre eles Fairground e Trinity Ventures.
“Após nosso primeiro investimento em 2023, estamos muito entusiasmados em reforçar essa parceria enquanto a Uluu leva sua tecnologia pioneira para o próximo nível”, afirmou Christian Teichmann, CEO da Burda Principal Investments. “A empresa está redefinindo como é possível produzir materiais sustentáveis em escala industrial.”
Da alga ao bioplástico: como funciona a tecnologia da Uluu
Fundada em 2021 pelos co-CEOs Julia Reisser e Michael Kingsbury, a Uluu desenvolve um processo de fermentação que transforma algas cultivadas em polihidroxialcanoatos (PHAs) — biopolímeros biodegradáveis que se comportam como o plástico tradicional, mas sem origem fóssil, e que podem ser processados com as mesmas máquinas já usadas pela indústria.
Ao contrário dos plásticos convencionais, feitos a partir do petróleo, os PHAs da Uluu são recicláveis, compostáveis em casa e biodegradáveis no ambiente marinho, sem gerar microplásticos. São leves, resistentes, impermeáveis e atóxicos — características que os tornam ideais para diversas aplicações.
O processo, segundo a startup, se assemelha à produção de cerveja. A Uluu utiliza enzimas para quebrar os carboidratos da Gracilaria, uma alga vermelha cultivada na Indonésia, transformando-os em açúcares que alimentam micro-organismos fermentadores. Esses micróbios, que crescem naturalmente em água salgada, produzem os PHAs dentro de suas células em forma de pequenos “pellets” brancos.
Depois da fermentação, os microrganismos são imersos em água doce, o que rompe suas células e libera os PHAs. O material é então seco, transformado em pó e misturado com ingredientes naturais, ajustando suas propriedades conforme a aplicação — de embalagens e eletrônicos a tecidos e componentes automotivos.
Além disso, o resíduo de biomassa de algas, rico em proteínas (cerca de 50%), é aproveitado em parcerias da Uluu como alternativa à ração de peixes na aquicultura, e a empresa planeja expandir seu uso para tratamento de solo, pet food e até proteínas para consumo humano.
Escalando a produção rumo à indústria
Atualmente, a planta-piloto da Uluu produz cerca de 100 kg de material por ano, mas o novo investimento permitirá ampliar a capacidade para 10 toneladas anuais em uma unidade de demonstração no oeste da Austrália.
“Depois de quatro anos desenvolvendo nossa tecnologia — sendo dois deles operando nossa planta piloto — estamos prontos para dar o próximo passo e entregar volumes significativos de material aos nossos clientes”, destacou Kingsbury. “Essa planta de demonstração é fundamental para provar que conseguimos escalar a produção e competir com os plásticos fósseis.”
A meta da Uluu é inaugurar uma fábrica em escala comercial até 2028, o que exigirá uma nova rodada de investimentos (Série B). Essa unidade deverá produzir milhares de toneladas por ano, com potencial para capturar e evitar até 5 kg de CO₂e por kg de material, em contraste com os 3 kg emitidos pelo plástico convencional. A tecnologia da empresa pode reduzir mais de 2 gigatoneladas de CO₂ por ano em emissões globais.
Entre as marcas que já colaboraram com a Uluu estão Quiksilver, Papinelle e Audi, em projetos nos setores de moda, cosméticos e automotivo. A empresa também criou a SeaSae, subsidiária na Indonésia que trabalha com cooperativas locais para expandir o cultivo rastreável de algas e fortalecer o processamento regional.
Um mercado em transformação
O impacto ambiental dos plásticos é cada vez mais alarmante: eles levam de 20 a 500 anos para se decompor e são responsáveis por 3,4% das emissões globais. Com a produção mundial prevista para triplicar até 2060, governos como o do Reino Unido e do estado da Califórnia (EUA) já começaram a restringir plásticos de uso único, que representam mais de 90% da poluição plástica.
Esse cenário impulsiona o crescimento do setor de materiais sustentáveis. Startups como a britânica Notpla, que também utiliza algas em substituição ao plástico, captou £20 milhões em 2023, enquanto a Xampla levantou US$ 14 milhões para desenvolver alternativas vegetais para embalagens descartáveis.
Mas nem todas as iniciativas resistem: a australiana Great Wrap, que produzia filme plástico compostável, entrou em administração judicial com dívidas de A$39 milhões (US$ 25,5 milhões).
A Uluu, no entanto, aposta na abundância e regeneratividade das algas como diferencial competitivo.
“Elas crescem rapidamente, retiram CO₂ da atmosfera e ajudam a limpar poluentes do oceano”, explica Julia Reisser. “Ao aproveitar esse potencial natural, estamos criando materiais que causam um impacto positivo no planeta — e que podem, de fato, encerrar a era da poluição plástica.”
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