Nesta semana, o secretário-geral da ONU declarou que o planeta já ultrapassou o limite de 1,5°C de aquecimento, alertando para “consequências devastadoras”, mas reforçando a urgência de reduzir emissões. Um dia depois, um relatório global revelou que o aumento das temperaturas já provoca a morte de uma pessoa por minuto no mundo.

Mesmo assim, Bill Gates — conhecido por investir parte de sua fortuna em causas climáticas — surpreendeu ao pedir moderação no discurso sobre o tema. Em um texto publicado em seu site, Gates Notes, a menos de duas semanas da COP30, que será realizada no Brasil, o cofundador da Microsoft sugeriu que a estratégia global deve mudar o foco: menos obsessão com metas de temperatura e mais atenção à erradicação da pobreza e das doenças.

Segundo ele, o pessimismo extremo em torno da crise climática tem desviado recursos e atenção de ações concretas capazes de melhorar vidas. “Embora as mudanças climáticas tragam sérias consequências — especialmente para os países mais pobres —, elas não levarão ao fim da humanidade. As pessoas continuarão a viver e prosperar na maior parte do planeta”, escreveu.

Gates argumenta que sua intenção não é minimizar o problema, mas propor uma abordagem mais pragmática. Ele reconhece que sua visão pode gerar críticas, inclusive de ativistas ambientais, que o acusam de hipocrisia por sua pegada de carbono — algo que ele diz compensar integralmente com créditos de carbono certificados.

“Gastar bem o dinheiro” será o desafio da COP30

Mesmo sem planos de participar da conferência climática no Brasil, Gates afirmou que a COP30 é “um bom ponto de partida” para repensar estratégias. O bilionário alertou que o encontro reúne milhares de lobistas de combustíveis fósseis e da pecuária — dois dos setores mais poluentes —, o que tem dificultado avanços concretos.

Para ele, embora as mudanças climáticas afetem de forma desproporcional os mais pobres, as maiores ameaças a essas populações continuam sendo a pobreza e as doenças. “Os principais problemas da humanidade continuam sendo os mesmos. Compreender isso é fundamental para usar melhor nossos recursos limitados”, disse.

Gates também lembrou que os orçamentos de ajuda internacional estão encolhendo, e que os países ricos destinam menos de 1% de seus recursos para apoiar nações em desenvolvimento. “É essencial que a COP30 discuta se o dinheiro destinado ao clima está sendo gasto da melhor maneira possível. Na minha visão, ainda não está.”

As “três verdades difíceis” sobre o clima, segundo Gates

O filantropo apresentou o que chama de três verdades para lidar de forma mais eficaz com os grandes desafios globais — clima, saúde e pobreza.

A primeira: as mudanças climáticas são graves, mas não significam o colapso da civilização. Gates admite que o mundo dificilmente cumprirá as metas do Acordo de Paris, e que provavelmente ultrapassará os 2°C até 2100. Ainda assim, vê avanços — como a queda de 40% nas emissões projetadas graças à expansão da energia limpa e dos veículos elétricos.

A segunda: temperatura não deve ser o único parâmetro de progresso climático. Para ele, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas é uma métrica mais justa. Os 30 países com menor IDH concentram um oitavo da população mundial, mas geram apenas um terço de 1% do PIB global. “Essa desigualdade mostra que a prioridade deve ser o bem-estar humano, não apenas a temperatura média da Terra”, afirmou.

A terceira: prosperidade e saúde são as melhores defesas contra o aquecimento global. Gates citou estudos mostrando que o número de mortes projetadas por mudanças climáticas cai pela metade quando há crescimento econômico nos países pobres. “Quanto mais rápido as pessoas se tornarem saudáveis e prósperas, mais vidas serão salvas”, reforçou.

Agricultura e inovação no centro da estratégia

Para Gates, o campo deve ser prioridade. Mas em vez de focar apenas na redução de emissões, ele propõe investir em produtividade, em cultivos mais resistentes ao clima e em tecnologias — como o uso de inteligência artificial para prever condições meteorológicas e ajustar o plantio.

“Reduzir emissões trará benefícios a longo prazo, mas os agricultores precisam sobreviver hoje. Eles precisam aumentar suas rendas e alimentar suas famílias agora”, afirmou.

Redefinindo o papel da tecnologia e do investimento

Às vésperas da COP30, Gates defendeu que governos e empresas apresentem planos concretos de inovação em todos os setores: energia, transporte, indústria, agricultura e construção civil. Ele destaca o conceito de Green Premium — a diferença de custo entre soluções limpas e poluentes — como métrica de avanço, defendendo que essa diferença deve cair a zero.

Segundo ele, cada dólar gasto precisa ser avaliado por seu impacto real na vida das pessoas. Gates cita as vacinas como exemplo máximo de custo-benefício: “Elas salvam vidas por apenas mil dólares cada. Deveríamos aplicar essa mesma lógica à agenda climática.”

Nos bastidores, porém, o próprio Gates tem feito mudanças em sua atuação. Sua empresa de investimentos em clima, a Breakthrough Energy, reduziu sua equipe de políticas públicas neste ano, e a Fundação Gates antecipou seu encerramento, após investir bilhões em ações de mitigação climática, incluindo US$ 1,4 bilhão para agricultores em países de baixa renda.

Apesar de já ter prometido se desfazer de ações em combustíveis fósseis, sua participação no setor aumentou 30% entre 2019 e 2030. Especialistas apontam que sua nova postura pode refletir uma tentativa de se afastar de posições polarizadas e manter influência em um cenário político cada vez mais tenso.

A fala de Gates contrasta com a de António Guterres, secretário-geral da ONU, que reiterou nesta semana: “Precisamos mudar de rumo urgentemente. O risco de pontos de não retorno, como a savanização da Amazônia, é real se não reduzirmos as emissões de forma drástica e imediata.”

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