O Bezos Earth Fund está reforçando sua aposta no futuro dos alimentos sustentáveis. A fundação anunciou um investimento de US$ 2 milhões na Food System Innovations (FSI), uma plataforma filantrópica que apoia a transição para sistemas agroalimentares mais sustentáveis. O aporte faz parte do programa AI for Climate and Nature Grand Challenge, iniciativa de US$ 30 milhões voltada ao uso da inteligência artificial (IA) para enfrentar desafios ambientais globais.
O financiamento impulsionará uma parceria entre o programa Nectar, da FSI, e cientistas da Universidade de Stanford. Juntos, eles irão desenvolver um modelo de IA de código aberto voltado à criação de proteínas alternativas com melhor sabor, textura e aceitação pelo público.
A proposta surge em um momento em que cresce o consenso científico sobre a necessidade de reduzir a dependência da pecuária intensiva e ampliar o consumo de proteínas de baixo impacto ambiental — que utilizam menos terra, água e emitem menos gases de efeito estufa.
IA para prever sabor e otimizar formulações
A FSI tem como missão acelerar a transformação dos sistemas alimentares, unindo ciência, mercado e sociedade em prol de escolhas alimentares mais responsáveis. Um de seus projetos mais relevantes é o Nectar, que reúne o maior banco de dados público sobre desempenho sensorial de produtos plant-based e híbridos (à base de plantas e carne animal).
A base foi construída a partir de testes com milhares de consumidores nos Estados Unidos e revelou que diversas proteínas alternativas já superam produtos 100% de origem animal em critérios como sabor, textura e experiência sensorial.
Com o novo aporte, a FSI e Stanford vão criar algoritmos capazes de prever atributos sensoriais e otimizar formulações de ingredientes para proteínas sustentáveis. A tecnologia combinará os dados do Nectar com bancos de informações moleculares de aromas e sabores, buscando correlacionar estrutura química, gosto, textura e preferências do consumidor.
Segundo os pesquisadores, essa abordagem pode acelerar o desenvolvimento de novos produtos e ampliar sua penetração de mercado.
“O sabor é a porta de entrada para a adoção do consumidor”, afirma Caroline Cotto, diretora do Nectar e co-líder do projeto. “Os dados que reunimos ajudam a indústria de proteínas sustentáveis a aprimorar formulações e realçar o sabor, tornando alimentos climáticamente responsáveis ainda mais irresistíveis.”
Cotto acrescenta que a parceria com o Bezos Earth Fund “traduz a inovação em IA em impacto real para o clima e a conservação — uma mordida de cada vez”.
Tornando a IA uma aliada do meio ambiente
A pesquisadora Anna Thomas, doutoranda em Stanford e líder técnica do projeto, destaca que criar ferramentas de IA para o design de proteínas sustentáveis é “um passo essencial para a saúde humana e do planeta”.
Ela explica que os primeiros estudos mostram que modelos de linguagem avançados podem ajustar formulações com base em feedback sensorial, entregando insights práticos que melhoram o sabor e aceleram a transição proteica. Em testes conduzidos por Thomas, o uso de IA reduziu o tempo de desenvolvimento em 45%, comparado a 22% quando a colaboração era feita apenas entre cientistas humanos. Além disso, o método projetado reduziu em até 79% as emissões em restaurantes, sem comprometer a satisfação dos clientes.
Embora o crescimento da IA levante preocupações sobre consumo energético e uso de recursos hídricos em data centers, o Bezos Earth Fund acredita que seu potencial para fortalecer soluções ambientais é imenso.
“Nosso foco é fazer com que a inteligência artificial trabalhe a favor do meio ambiente — e não o contrário”, afirma Amen Ra Mashariki, diretor de IA do fundo.
A FSI está entre as 15 iniciativas selecionadas na segunda fase do AI for Climate and Nature Grand Challenge, um programa de US$ 100 milhões criado para fomentar soluções de IA voltadas à mitigação das mudanças climáticas e à preservação da biodiversidade.
Mashariki resume o propósito do programa: “Esses projetos mostram que, quando desenvolvida com responsabilidade e guiada pela ciência, a IA pode fortalecer a ação ambiental, apoiar comunidades e garantir um impacto positivo para o planeta.”
Além das iniciativas com IA, o Bezos Earth Fund também destinou US$ 100 milhões para criar três Centros de Proteína Sustentável em universidades na Carolina do Norte, em Londres e em Cingapura — parte de um compromisso de US$ 1 bilhão voltado à transformação dos sistemas alimentares globais.
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