A Matr Foods, startup dinamarquesa que vem se destacando na nova geração de proteínas vegetais, acaba de garantir um aporte de €20 milhões (cerca de R$ 115 milhões) em uma rodada Série A. A captação foi liderada pela Novo Holdings – braço de investimentos da gigante farmacêutica Novo Nordisk – em conjunto com o Fundo de Investimentos e Exportações da Dinamarca (EIFO).
O montante se soma a um financiamento anterior de outros €20 milhões obtido junto ao Banco Europeu de Investimentos, totalizando €40 milhões – a maior quantia já arrecadada por uma foodtech dinamarquesa até hoje.
Foco na expansão industrial
O investimento será direcionado à construção de uma fábrica de grande escala na cidade de Ansager, com inauguração prevista para 2027. A nova planta permitirá à empresa ampliar drasticamente sua capacidade de produção: de 30 para 4.000 toneladas por ano. A expansão também deve gerar cerca de 60 novos empregos.
A unidade-piloto atual, localizada em Nordhavn, Copenhagen, continuará operando até a nova fábrica entrar em funcionamento. No entanto, as áreas de P&D e escritório seguirão na capital dinamarquesa. Segundo a CEO Randi Wahlsten, a empresa também está estruturando times comerciais na Alemanha e Suíça, como parte da estratégia de internacionalização.
“Nos próximos 12 meses, nosso foco será o crescimento estruturado: preparar a marca, a equipe e a operação para dar esse salto industrial e global,” afirma Wahlsten.
Ingredientes reais, processos limpos e muito sabor
Fundada em 2021 por Wahlsten (ex-Arla), em parceria com Claus Meyer (cofundador do Noma), Morten Sommera e Rasmus Toft-Kehler, a Matr aposta em uma tecnologia de fermentação em estado sólido que transforma ingredientes vegetais e orgânicos – como beterraba, batata, ervilha, aveia e tremoço – em produtos com textura e sabor semelhantes à carne.
A mágica acontece com o micélio, parte subterrânea dos fungos composta por hifas que quebram os nutrientes do substrato, liberando aminoácidos e açúcares naturais que realçam o sabor e promovem caramelização durante o cozimento. O próprio micélio atua como agente de ligação entre os ingredientes, criando um produto suculento e com textura de carne desfiada ou moída.
O portfólio atual inclui burgers e “mince” com:
- 8,5g de proteína por 100g
- 10g de fibras
- 0,5g de gordura saturada
E uma pegada de carbono de apenas 1,6kg de CO₂e/kg, 94% menor que a da carne bovina.
Além disso, os produtos levam apenas beterraba, sal, tomilho e alho em pó como ingredientes adicionais – nada de aditivos ou ultra processados.
“Oferecemos uma nova geração de alimentos: comida de verdade, feita com vegetais integrais e orgânicos, mínima intervenção industrial e muito sabor. Isso toca o consumidor de uma forma diferente”, explica Wahlsten.
Crescimento consistente, mesmo em um mercado desafiador
Enquanto muitas marcas do setor de carnes vegetais enfrentam retração em mercados como EUA e Reino Unido, a Matr está vendendo tudo o que produz. A limitação atual, segundo a CEO, é capacidade produtiva, não falta de demanda.
“Estamos com produção 100% vendida mês após mês. O interesse só cresce, tanto de clientes atuais quanto novos. Por isso, estamos muito animados com a possibilidade de finalmente escalar e atender essa demanda reprimida”, afirma.
Os produtos da Matr já estão disponíveis em redes renomadas da Dinamarca, como Gasoline Grill, Rørt e Gao Dumpling, além de todos os restaurantes Sticks’n’Sushi em território dinamarquês, alemão e britânico. E vem mais por aí: a empresa tem um “pipeline promissor” de novos lançamentos para os próximos meses.
Confiança renovada no setor de proteínas alternativas
O aporte recebido pela Matr contrasta com o cenário atual de cautela em investimentos no setor de proteínas alternativas. Wahlsten reconhece que o foco global se desviou, momentaneamente, das questões climáticas e de saúde para temas como geopolítica e segurança, mas acredita que o interesse de longo prazo permanece.
“Nossa tecnologia é claramente diferente do que já existe. E mais importante: responde diretamente ao que os consumidores estão buscando hoje – menos ingredientes, menos processamento, mais sabor e propósito,” destaca.
Segundo Thomas Grotkjær, sócio da Novo Holdings, três pilares tornaram a Matr uma escolha estratégica: biotecnologia robusta, experiência gastronômica marcante e capacidade de escalar.
“No fim das contas, o que move a adoção de um novo alimento é o sabor. Se não for bom, não vende. E se não vende, não é um investimento viável,” aponta.
O investimento na Matr acompanha uma leve retomada no setor, com rodadas expressivas como as da The Better Meat Co ($31M), Nxtfood ($58M), The Protein Brewery ($35M) e Revyve ($28M) no terceiro trimestre.
“Os problemas que estamos tentando resolver – clima, saúde, segurança alimentar – não vão desaparecer. Por isso, acredito que estamos apenas atravessando uma fase de maturação. As melhores empresas vão emergir mais fortes,” conclui Wahlsten.
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