O Reino Unido deu um passo importante para destravar o avanço das proteínas cultivadas no país. Depois de anos preso às regras europeias para “novos alimentos”, o governo britânico publicou as primeiras orientações oficiais voltadas especificamente para a análise de segurança das carnes produzidas a partir de células.
Esse material é fruto de um trabalho conjunto da Food Standards Agency (FSA) e da Food Standards Scotland (FSS), que desde fevereiro vêm dialogando com empresas do setor dentro de um programa de sandbox regulatório — uma estrutura pensada justamente para atualizar e simplificar o caminho de aprovação dessas tecnologias.
Agora, começam a aparecer os primeiros resultados dessa cooperação: dois documentos que detalham como deve ser feita a classificação desses produtos, quais riscos precisam ser avaliados e quais requisitos serão considerados em relação à segurança, alergenicidade e valor nutricional.
A publicação marca um afastamento dos critérios herdados da União Europeia, ainda vigentes mesmo após o Brexit. “A legislação europeia de aplicação direta não se aplica mais à Grã-Bretanha”, destaca o guia, observando que a regra permanece válida na Irlanda do Norte.
Para Thomas Vincent, diretor-adjunto de inovação da FSA, o objetivo é dar transparência às empresas. “As novas orientações ajudam os negócios a demonstrar claramente aos reguladores que seus produtos são seguros”, afirmou. Ele reforça que o material exige que potenciais riscos alergênicos sejam mapeados e que o alimento seja nutricionalmente adequado antes de chegar ao mercado.
O que dizem as novas orientações sobre carnes cultivadas?
A primeira parte do guia explica como as empresas devem aplicar corretamente as normas de higiene ao produzir carne cultivada. Um ponto central é que esses produtos, por serem derivados de células animais, continuam sendo enquadrados como “produtos de origem animal” para fins de segurança alimentar. Isso implica seguir regulações já existentes durante toda a produção.
Por outro lado, o documento esclarece que a carne cultivada não se encaixa na definição legal tradicional de “carne” — que exige partes comestíveis de animais. Assim, diversas normas criadas para o setor convencional, incluindo aquelas voltadas ao bem-estar animal ou a critérios microbiológicos específicos, não podem ser aplicadas automaticamente. Os reguladores afirmam que esse ponto ainda será aprofundado ao longo do sandbox.
O material também orienta startups sobre como elaborar e manter um plano HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Point), procedimento obrigatório que garante identificação e controle de riscos durante a produção.
O segundo documento aborda os requisitos científicos usados para avaliar riscos de alergia e o perfil nutricional da carne cultivada em processos de aprovação. Segundo as agências, os pedidos de autorização devem demonstrar que o alimento não traz desvantagens nutricionais em comparação com o produto que pretende substituir.
As empresas precisam apresentar dados completos sobre macro e micronutrientes, composição de aminoácidos e de ácidos graxos, além dos usos propostos. Os reguladores ressaltam que é fundamental entender como o consumidor incorporará esse novo ingrediente ao prato — se substituirá a carne totalmente, se será usado em pequenas porcentagens em produtos híbridos etc. — para avaliar seu impacto nutricional.
As agências também chamam atenção para um ponto sensível: como esses produtos devem ser consumidos por públicos diversos, existe a possibilidade de exposição a proteínas desconhecidas. Por isso, análises detalhadas sobre potenciais reações alérgicas são obrigatórias.
Sandbox regulatório deve acelerar inovação, diz FSA
O sandbox, financiado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia, vai até fevereiro de 2027. A ideia é permitir que o governo desenvolva um modelo regulatório mais ágil sem abrir mão da segurança alimentar, oferecendo orientação antecipada às empresas.
O programa começou com oito participantes: Hoxton Farms, Roslin Technologies, Uncommon Bio (todas do Reino Unido), BlueNalu (EUA), Vow (Austrália), Mosa Meat (Holanda), Gourmey e Vital Meat (ambas da França). Desde então, houve movimentações no setor: a Uncommon Bio vendeu sua unidade de carne cultivada para a Vow e para a holandesa Meatable, enquanto a Gourmey incorporou a Vital Meat e formou a nova empresa Parima — que continua no sandbox, embora a configuração final ainda não esteja totalmente clara.
No mercado britânico, apenas um produto cultivado já chegou às prateleiras até agora — e foi destinado a pets. Para consumo humano, pedidos de aprovação foram enviados por Aleph Farms, Ivy Farm Technologies e Parima, com esta última aparentemente mais adiantada na avaliação.
A FSA afirma que o sandbox tem aumentado a confiança das empresas e aprimorado sua própria capacidade de análise. As duas novas publicações se baseiam nos aprendizados do programa, somados a consultas a especialistas e revisão científica, e outras orientações devem ser divulgadas ao longo de 2026.
“O sandbox está nos permitindo acelerar o aprendizado regulatório e reduzir obstáculos para tecnologias alimentares emergentes, sem relaxar os padrões de segurança”, destacou Vincent. “O consumidor pode ter certeza de que esses alimentos inovadores serão avaliados com o mesmo rigor aplicado aos produtos convencionais.”
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