Na Europa Ocidental, quem nasceu em 2024 deve viver, em média, 17 anos a mais do que quem veio ao mundo em 1950. O paradoxo é que, ao chegar aos 65 anos, mais da metade dessas duas décadas extras tende a ser vivida com algum grau de comprometimento da saúde.

É justamente essa contradição que impulsiona o debate sobre longevidade na região. Vivemos mais, mas nem sempre melhor. E isso tem levado empresas e consumidores a repensarem a forma como encaram alimentação, saúde e bem-estar, buscando soluções mais amplas, integradas e centradas nas pessoas.

Essa é a visão da The Protein Brewery, foodtech holandesa que se prepara para lançar no mercado um ingrediente fúngico rico em proteína e fibra, voltado à indústria de alimentos. Para a empresa, longevidade não significa apenas estender o tempo de vida, mas preservar a saúde ao longo dos diferentes estágios da vida. “Falamos de controle de peso, saúde intestinal, capacidade cognitiva, vitalidade física”, explica o CEO Thijs Bosch. “São esses os resultados que importam para os consumidores dos nossos clientes — e é aí que a nutrição, por meio do Fermotein, pode fazer diferença.”

A relação entre alimentação e longevidade é bem documentada. Dietas predominantemente vegetais, ricas em alimentos integrais e com consumo reduzido de proteína animal, estão associadas a melhores desfechos de saúde — um dos pilares das recomendações da Comissão EAT-Lancet para um sistema alimentar saudável e sustentável.

Nos últimos anos, o interesse crescente por viver mais e melhor, impulsionado por figuras como Bryan Johnson e por produções como Live to 100, deslocou parte da conversa do clima para a saúde. Isso também tem provocado uma mudança de rota no setor de food tech.

“Longevidade não depende de um único nutriente ou intervenção isolada. Ela está na intersecção entre qualidade da dieta, atividade física e estilo de vida”, observa Bosch, citando especialistas como Eric Topol e Peter Attia. “Como empresa de ingredientes, nosso papel é contribuir oferecendo um alimento denso em nutrientes, que ajude a suprir as necessidades diárias — especialmente na meia-idade e na terceira idade, quando a demanda por proteína aumenta e a qualidade da dieta tende a cair.”

O que é o Fermotein e qual sua relação com a longevidade?

Criada em 2020 a partir de um desmembramento da empresa de biotecnologia industrial BioscienZ BV, a The Protein Brewery desenvolve ingredientes de baixo impacto ambiental a partir de culturas de baixo valor nutricional. O Fermotein é seu primeiro grande lançamento.

Trata-se de um bioproduto de célula inteira derivado do fungo Rhizomucor pusillus, uma cepa extremófila capaz de resistir a ambientes com pH baixo e altas temperaturas. O fungo é cultivado em tanques de fermentação com glicose como substrato, depois pasteurizado, seco e moído até virar pó.

O resultado é uma micoproteína com rendimento proteico expressivo: 26 vezes mais proteína por área do que a carne, cinco vezes mais que a soja e quatro vezes mais que a ervilha. Em comparação à carne bovina, o Fermotein utiliza apenas 1% da terra, consome 5% da água e gera cerca de 3% das emissões.

“É um ingrediente minimamente processado, de alimento integral”, explica Bosch. “Seu valor nutricional vem da combinação natural de macronutrientes, micronutrientes e compostos bioativos — não de um componente isolado.”

Cerca de metade da composição do Fermotein é proteína completa, com PDCAAS de 1, o que contribui para a manutenção da massa muscular. “A ingestão adequada de proteína é especialmente relevante para pessoas mais velhas, já que a perda muscular associada à idade — a sarcopenia — está diretamente ligada à redução da mobilidade e da autonomia”, afirma.

Além disso, aproximadamente 30% do ingrediente é fibra alimentar. Essa fibra serve de substrato para a microbiota intestinal, e estudos preliminares indicam efeitos prebióticos promissores, como o estímulo à produção de ácidos graxos de cadeia curta e mudanças positivas no microbioma.

Espermidina: um bioativo natural ligado ao envelhecimento saudável

Um dos principais compostos bioativos presentes no Fermotein é a espermidina, uma poliamina essencial para processos como crescimento e regeneração celular, regulação do sistema imune e estabilidade do DNA. Ela vem ganhando espaço no mercado de suplementos voltados ao envelhecimento saudável, com estudos associando seu consumo à ativação de vias celulares como a autofagia.

“A autofagia é um mecanismo fundamental de manutenção celular, reconhecido inclusive pelo Prêmio Nobel de 2016 concedido a Yoshinori Ohsumi”, lembra Bosch. “Ela permite que as células reciclem componentes danificados, reforçando sua resiliência e funcionamento ao longo do tempo.”

Segundo ele, a espermidina induz esse processo. Ao favorecer essa ‘limpeza celular’, a autofagia pode reduzir indiretamente o estresse oxidativo, um dos fatores envolvidos nos danos ao DNA ao longo da vida.

Há também hipóteses de que a espermidina ajude a preservar o comprimento dos telômeros — estruturas que protegem os cromossomos —, embora Bosch ressalte que essa relação é indireta e ainda baseada em mecanismos observados em estudos.

Por ser um metabólito natural de fungos, a espermidina já está presente no Fermotein. “Ela não é adicionada nem fortificada. Faz parte da biomassa micelial produzida no processo de fermentação”, explica.

Durante o desenvolvimento do ingrediente, a empresa analisou mais de 100 mil cepas fúngicas de grau alimentício, avaliando critérios como valor nutricional, escalabilidade e sustentabilidade. “A nutrição foi um fator decisivo, e isso incluiu análises detalhadas de compostos como as poliaminas”, conta Bosch.

No conjunto, o Fermotein contribui para o envelhecimento saudável ao apoiar a ingestão adequada de proteína e fibra e aumentar a densidade nutricional da dieta, em vez de focar em um único mecanismo de longevidade.

GLP-1, saciedade e o papel dos alimentos integrais

Há anos, estudos e documentários sobre longevidade reforçam a importância de alimentos integrais como frutas, verduras, leguminosas e oleaginosas — base também do conceito das Blue Zones. Onde entra um ingrediente derivado de fungos nessa conversa?

“O termo ‘alimento integral’ não é regulamentado e pode significar coisas diferentes”, pondera Bosch. Um dos referenciais mais usados é a classificação Nova, que avalia o grau de processamento, e não a origem do alimento.

“Dentro desse conceito, alimentos produzidos por fermentação, sem fracionamento ou recombinação, se enquadram como minimamente processados. O Fermotein é uma biomassa inteira. Mesmo após ser seco e moído, seus nutrientes permanecem na mesma matriz celular”, argumenta. “Por isso, acreditamos que ele pode coexistir com outros alimentos integrais na dieta.”

O interesse crescente por alimentos ricos em fibra e proteína também está ligado ao avanço dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, que vêm transformando hábitos alimentares. No cenário pós-Ozempic, empresas de alimentos precisam oferecer produtos que promovam saciedade, com alto teor proteico e boa densidade nutricional.

A The Protein Brewery vem explorando o potencial do Fermotein como um aliado natural nesse contexto e tem entre seus investidores a Novo Holdings, controladora da Novo Nordisk. “A densidade nutricional do Fermotein pode ajudar pessoas em terapias com GLP-1 a manter uma ingestão adequada de proteína e micronutrientes mesmo com menor consumo calórico”, diz Bosch. “O mesmo vale para idosos que precisam preservar a massa muscular.”

Aprovação regulatória e planos de expansão

Em setembro, a empresa levantou €30 milhões em uma rodada Série B para acelerar a entrada do Fermotein no mercado. O ingrediente já foi aprovado em Singapura e nos Estados Unidos. Além disso, a startup recebeu dois financiamentos de iniciativas apoiadas pela União Europeia, incluindo um aporte de US$ 2,7 milhões do programa LIFE, voltado à aplicação do ingrediente em alternativas aos laticínios.

“O LIFE complementa nossa estratégia em nutrição ativa”, explica Bosch. “O foco é melhorar o perfil nutricional e ambiental de produtos plant-based, além de estudar os benefícios do Fermotein relacionados ao envelhecimento.”

Ele cita o exemplo das bebidas vegetais, que muitas vezes têm baixo teor de proteína e alto nível de açúcares. “O Fermotein pode aumentar a densidade proteica mantendo os carboidratos disponíveis em níveis mais baixos, melhorando o perfil nutricional como um todo.”

Atualmente, a empresa trabalha com parceiros nos EUA e em Singapura para lançar o ingrediente em formatos como pós para preparo, bebidas prontas, barras e suplementos funcionais. Entre os parceiros estão empresas como Nepra Foods e CK Ingredients.

“O interesse maior vem de marcas focadas em saúde, nutrição ativa e longevidade”, afirma Bosch.

No fim de 2025, a The Protein Brewery recebeu parecer positivo da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), penúltima etapa antes da aprovação final. “Estamos avançando com a Comissão Europeia e esperamos a autorização entre o segundo e o terceiro trimestre de 2026”, revela.

Para o próximo ano, o foco é execução. “Estamos ampliando nossa capacidade de fermentação para chegar a centenas de toneladas de Fermotein”, conclui o CEO. “Isso cria a base para uma adoção mais ampla do ingrediente e para um novo capítulo da nutrição plant-based voltada à longevidade.”

Leia também:

Innocent Meat capta €6 milhões e avança rumo ao lançamento de proteínas cultivadas

Startup dinamarquesa capta €5 milhões para lançar pigmentos bio-based sem uso de fósseis

Mondelēz anuncia fim dos testes em animais

Compartilhe: