Enquanto cresce o debate em torno dos alimentos ultraprocessados (UPFs) e seus impactos na saúde, uma startup britânica está propondo um olhar diferente — e bastante provocador — sobre o assunto.

Fundada em 2015, em Oxford, por Melissa Sharp e Leo Campbell, a Modern Baker aposta na ideia de que a tecnologia dos UPFs pode, sim, ser usada a favor da saúde pública. O projeto nasceu da vivência pessoal de Melissa, após um tratamento contra o câncer, que a levou a repensar profundamente o papel da alimentação na prevenção e recuperação de doenças.

Seu primeiro produto, o Superloaf, é um pão branco com sementes, lançado no Reino Unido em 2021, que promete benefícios comprovados cientificamente para a saúde intestinal e o controle glicêmico. A proposta não é eliminar o processamento, mas repensá-lo: “Nosso foco é corrigir os ultraprocessados, não combatê-los. O verdadeiro problema não está nos aditivos ou nas técnicas de produção, mas na pobreza nutricional dos alimentos”, explica Sharp.

Essa visão acaba de receber um impulso financeiro importante: a empresa captou £2,5 milhões (cerca de US$ 3,4 milhões) em uma rodada Série A, liderada pela rede de investidores de impacto Adjuvo. Segundo Campbell, além do capital, o apoio traz uma rede estratégica com forte presença nos setores de varejo, alimentação e tecnologia de consumo.

É possível fazer um ultraprocessado saudável?

A proposta pode soar ousada, mas, segundo Campbell, é também necessária. “O conceito de um ‘UPF saudável’ pode parecer provocativo, mas é uma resposta viável ao custo bilionário das doenças ligadas à má alimentação. E já temos evidências práticas disso com o Superloaf, apoiado por dados laboratoriais sólidos.”

Hoje, os UPFs representam 57% da alimentação média no Reino Unido — número que salta para até 80% entre crianças e pessoas de baixa renda. Paralelamente, 64% da população adulta britânica está acima do peso ou obesa, e uma em cada seis pessoas vive com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes.

Embora existam muitos estudos que associem o consumo de UPFs a essas doenças, há críticas crescentes sobre a forma como esses alimentos são classificados — especialmente segundo o sistema Nova. A mesma metodologia que inclui refrigerantes e bolos industrializados como ultraprocessados também coloca nesse grupo cereais integrais e pães com alto teor de fibras vendidos em supermercados. Até mesmo um dos criadores do sistema Nova já admitiu que a classificação atual carece de clareza.

A professora Nerys Astbury, especialista em nutrição e obesidade da Universidade de Oxford, aponta as limitações do modelo: definições arbitrárias, categorias amplas demais e pouca ênfase na forma de processamento em si, além da dificuldade prática em aplicar o sistema corretamente.

Ciência e inovação para um pão funcional

Dentro dessa discussão, o Superloaf é, tecnicamente, um UPF. Mas com uma proposta nutricional radicalmente diferente. A receita combina farinha de trigo e centeio com sementes de linho, chia, papoula e cânhamo, além de fibras solúveis e insolúveis, como goma acácia e goma guar, e proteínas como o glúten do trigo.

Cada fatia oferece 4g de proteína e 3g de fibras — estas, essenciais para a saúde intestinal e o controle da glicose. A fibra solúvel desacelera a absorção de açúcar no intestino, enquanto a insolúvel atua na eliminação de toxinas. O resultado é um alimento que sustenta por mais tempo, melhora a digestão e evita picos glicêmicos.

Além disso, o pão é rico em cálcio, manganês, cobre e ômega-3, sem comprometer sabor ou textura — e compatível com linhas de produção tradicionais.

Um modelo escalável e leve: de Oxford para o mundo

Desde 2023, o Superloaf é produzido pela tradicional panificadora Hovis, por meio de um contrato exclusivo de licenciamento de três anos. Hoje, está disponível em grandes redes britânicas como M&S, Sainsbury’s e Ocado, por £2,35 (cerca de R$ 16) o pacote de 400g.

A estratégia da Modern Baker vai além da produção direta. Com sete subsídios governamentais somando £4 milhões e parcerias com universidades britânicas, a empresa desenvolveu uma plataforma proprietária de densidade nutricional e um modelo leve de negócios baseado em software-as-a-service (SaaS), que permite escalar inovações alimentares com agilidade, sem precisar internalizar fábricas ou operações industriais.

“Queremos transformar categorias alimentares criticadas — como bolachas, cereais matinais, pães, refeições prontas e bebidas — usando a ciência para torná-las mais nutritivas. Não estamos enfrentando a indústria, estamos colaborando com ela para propor um novo padrão”, afirma Campbell.

Segundo Mark Foster-Brown, CEO da Adjuvo, “a Modern Baker representa exatamente o tipo de inovação com propósito que buscamos apoiar: disruptiva, fundamentada em ciência e com alto potencial de impacto”.

Com negociações em andamento com grandes empresas globais e órgãos de saúde pública, o novo investimento deve acelerar a expansão comercial da startup e aprofundar a base científica de seus produtos.

“Esse movimento vai muito além do Superloaf ou da Modern Baker. O Reino Unido quer soluções progressistas para melhorar a saúde da população e fomentar o crescimento econômico por meio da inovação. E a densidade nutricional é uma solução escalável para os dois desafios”, conclui Campbell.

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