À frente da presidência rotativa do Conselho da União Europeia, a Dinamarca está aproveitando a oportunidade para colocar os sistemas alimentares sustentáveis no centro das discussões do bloco. Entre as ações, destaca-se o lançamento da “Diplomacia Plant-Based”, uma iniciativa que busca articular esforços políticos e institucionais em favor da alimentação baseada em plantas — mesmo diante da resistência de alguns países-membros.
A iniciativa surge como uma colaboração formal entre diversas entidades, incluindo o Conselho Dinamarquês de Agricultura e Alimentação, a Federação de Alimentos e Bebidas da Dinamarca, e a Câmara de Comércio Dinamarquesa. A liderança do projeto está nas mãos da Sociedade Vegetariana da Dinamarca, que há anos atua na promoção de alternativas alimentares mais sustentáveis.
O objetivo é ambicioso: estimular o investimento direcionado e ações concretas em prol do plant-based, tanto dentro da própria Dinamarca quanto no restante da União Europeia. Essa pauta integra o programa da presidência dinamarquesa no Conselho da UE, que inclui ainda o desenvolvimento de uma estratégia europeia de proteínas e a construção de um plano de ação voltado à transição alimentar. Para dar visibilidade ao tema, o país organizará uma conferência sobre alimentação plant-based em setembro e o Plant Food Inspiration Summit em outubro.
Liderança global e investimentos concretos
Vale lembrar que, em 2023, a Dinamarca foi o primeiro país do mundo a apresentar um plano nacional detalhado para a transição de seu sistema alimentar rumo a um modelo mais sustentável e baseado em vegetais. A medida foi acompanhada de um investimento robusto: €170 milhões alocados em um fundo para fomentar a inovação, subsidiar práticas agrícolas mais alinhadas à transição e impulsionar o desenvolvimento de novos produtos — como alternativas de frango à base de fungos e tempeh produzido com fava.
Essa movimentação dinamarquesa ocorre em um cenário europeu bastante diverso: enquanto países como Suíça avançam com rotulagens que denunciam práticas cruéis na produção animal, outros — como Espanha, França e Itália — ainda travam batalhas legais sobre o uso de termos como “hambúrguer” e “filé” em produtos plant-based, revelando o quanto o setor ainda enfrenta resistência política e cultural em várias frentes.
Colaboração entre agricultores, indústria e governo
Apesar de ser um dos países com maior consumo de carne da Europa e de ter a produção animal per capita mais alta do mundo, a Dinamarca conseguiu avançar em sua agenda plant-based sem romper com o setor agropecuário. Pelo contrário, agricultores e representantes da indústria alimentícia participam ativamente do processo — uma construção que tem apoio multipartidário e que transformou a pauta numa espécie de “case político” de sucesso.
“A Dinamarca provou que a transição para uma alimentação baseada em plantas não só é possível, como pode ser uma vitória política, com o respaldo da agricultura e da indústria. Com a Diplomacia Plant-Based, queremos compartilhar essa experiência para que outros países da União Europeia também avancem, promovendo ações que favoreçam o clima, a biodiversidade e a saúde pública”, afirma Rune-Christoffer Dragsdahl, secretário-geral da Sociedade Vegetariana da Dinamarca e presidente da União Vegetariana Internacional.
Segundo estimativas publicadas pelo Financial Times, o mercado plant-based dinamarquês pode movimentar até US$ 2 bilhões e gerar 27 mil empregos até 2030 — sinal claro de que essa transição, além de sustentável, pode ser altamente estratégica para o desenvolvimento econômico do país e da região.
Leia também:
Win-Win capta US$ 4 milhões e fecha parceria com gigante alemã para chocolate sem cacau
Äio recebe €1 milhão para escalar alternativa ao óleo de palma em cosméticos
Barry Callebaut investe em cacau cultivado em laboratório diante da crise climática
Compartilhe:

