Desde que a Danone adquiriu a Alpro em 2016 — num negócio de US$ 12,5 bilhões envolvendo a WhiteWave, gigante dos alimentos orgânicos — muita coisa mudou. Hoje, a Alpro é não apenas a principal marca plant-based da Danone, mas também lidera o segmento de laticínios plant-based em toda a Europa.
Para Guillaume Millet, vice-presidente da divisão plant-based da Danone na Europa, ter presença tanto no mercado tradicional quanto no alternativo é uma grande vantagem estratégica. E a Alpro ocupa um papel central nessa equação.
“O suporte que recebemos é total — em P&D, investimentos, marketing… Temos os principais cientistas da Danone focados na categoria plant-based, especialmente na área de fermentação. Avançar em iogurtes à base de plantas é uma prioridade clara, porque essa é uma área em que a Danone sempre teve expertise”, explica Millet, em entrevista ao Green Queen.
Um ano financeiro “excelente”
2025 tem sido um ano especialmente positivo para a Alpro. Segundo Millet, as vendas vêm crescendo a taxas altas de um dígito, e a marca segue ganhando espaço em duas categorias: bebidas e iogurtes plant-based.
Em bebidas, a Alpro mantém a liderança na Europa, com avanço expressivo tanto no varejo quanto em cafeterias e outros canais fora do lar. Mas o destaque mesmo vem dos iogurtes, que cresceram a dois dígitos em valor.
Hoje, a marca detém 54% do mercado de iogurtes veganos no continente — um aumento de três pontos percentuais em relação ao ano anterior. Esses produtos já representam 40% do faturamento da marca no varejo.
Na Espanha, por exemplo, a performance é impressionante. O país tem um dos maiores índices de consumo per capita de bebidas vegetais do mundo, e a Alpro acaba de recuperar a liderança no segmento. No caso dos iogurtes, o crescimento ultrapassa 30%, com 65% de participação de mercado.
“O Reino Unido ainda é nosso maior mercado, mas a Espanha é hoje o que mais cresce. E quando olhamos para a França, o potencial é enorme. Com a força que a Danone tem por lá, ainda estamos abaixo do que poderíamos. É uma oportunidade real de triplicar ou até quadruplicar nosso tamanho no país”, projeta.
Juventude e inovação: os motores da nova fase
No ano passado, a Alpro atualizou suas embalagens, colocando em destaque ingredientes, atributos sensoriais e benefícios nutricionais. A mudança ajudou a marca a se reconectar com o público mais jovem.
“Vimos nosso alcance aumentar entre as gerações Z e Alpha. Isso mostra que essa nova abordagem tem funcionado”, afirma Millet.
A estratégia foi especialmente eficaz nos iogurtes, categoria onde a barreira sensorial costuma ser maior. Consumidores que não se viam como público-alvo começaram a experimentar — e repetir a compra. “Temos uma das maiores taxas de recompra da categoria de iogurtes como um todo”, destaca.
O foco da marca tem sido atrair pelo benefício nutricional e fidelizar pelo sabor. “Estamos reformulando constantemente para garantir o melhor sabor possível. Ao mesmo tempo, adicionamos nutrientes essenciais para que ninguém sinta que está abrindo mão de algo ao escolher o plant-based. Se você entrega sabor e saúde, você acerta em cheio”, resume.
A preocupação com a nutrição levou ao lançamento da linha 5 Nutrientes Essenciais, feita para atender a uma demanda real dos consumidores por alimentos mais completos. Segundo Millet, 1 em cada 3 consumidores tem receio de deficiências de iodo e vitamina D ao reduzir o consumo de laticínios — e essa linha foi criada justamente para suprir essas lacunas, com ingredientes como cálcio, proteínas vegetais, iodo e vitaminas B2, B6, B12, D2 e E.
Plant-based para crianças? Sim, tem demanda — e já chegou
Em julho, a Alpro deu um passo importante ao lançar, no Reino Unido, uma linha voltada ao público infantil, com bebidas e iogurtes vegetais com baixo teor de açúcar. A decisão veio após pesquisas apontarem que 71% dos pais priorizam a redução ou ausência de açúcar nos alimentos dos filhos.
Segundo Millet, famílias com crianças alérgicas, intolerantes ou simplesmente buscando novas opções pediam há anos por produtos mais adequados. “A nova geração quer ter escolha. E é importante que essas crianças cresçam familiarizadas com o sabor do plant-based, para que possam alternar com proteínas lácteas de forma natural”, defende.
Apesar de algumas opções já estarem no mercado, como leites vegetais para crianças em fase de crescimento, a nova linha da Alpro se propõe a ser mais saudável que a média atual — e a intenção é levá-la a outros mercados europeus em breve.
Os primeiros resultados são animadores. “Faz só dois ou três meses que lançamos, mas já superamos nossas expectativas. O desafio agora é transformar a experimentação em hábito”, comenta.
O que vem pela frente?
O foco da Alpro, por enquanto, segue em consolidar sua liderança nas categorias em que já atua: bebidas e iogurtes. Mas há planos de expansão para segmentos adjacentes — embora, segundo Millet, a marca não vá se aventurar em categorias como queijos veganos ou produtos híbridos (que misturam leite animal e ingredientes vegetais).
“Nossa prioridade é crescer onde já temos know-how. Não queremos nos distanciar demais do que dominamos. É um movimento de expansão progressiva”, afirma.
Sobre os híbridos, Millet reconhece que a aceitação tem aumentado, mas que ainda não há um caso claro de sucesso — e, para a Danone, isso ainda não está na lista de prioridades.
Uma nova geração “nativa plant-based”
Para Millet, o futuro dos laticínios vegetais está nas mãos das novas gerações. “Elas falam ‘plant-based’ antes mesmo de dominar a própria língua. São nativas desse movimento”, brinca.
Mas ele também aponta que esse público é mais exigente. Quer rótulos limpos, informação clara, produtos funcionais e experiências sensoriais inovadoras — não apenas cópias de laticínios convencionais.
Esse é um dos motivos pelos quais a Alpro decidiu encerrar a linha This Is Not Milk no Reino Unido. A ideia agora é valorizar ingredientes como aveia e amêndoas pelo que eles são, não pelo que tentam imitar.
Sobre a tentativa de restringir termos como “leite” ou “iogurte” em produtos veganos
Em meio a debates regulatórios na União Europeia, Millet classifica como um “conflito inútil” a tentativa de restringir o uso de nomenclaturas tradicionais em alternativas vegetais — algo que já acontece com derivados lácteos e pode se estender a substitutos de carne.
“Essas batalhas não ajudam ninguém. Só geram custos, complexidade e confusão para o consumidor. A energia deveria estar voltada para oferecer produtos melhores, mais nutritivos e com valor real”, afirma.
Segundo ele, apesar do impacto financeiro não ter sido significativo para a Alpro, o prejuízo para o setor é claro. “Seria ótimo se conseguíssemos transformar esse debate e barrar essas proibições, garantindo clareza para quem consome.”
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