A britânica Win-Win, especializada em chocolates veganos livres de cacau, acaba de captar US$ 4 milhões (equivalente a £3 milhões) em uma rodada Série A liderada pela Oetker Collection e o fundo FoodLabs. Também participaram do aporte os investidores Mustard Seed Maze, Gota Ventures, Paulig e Kapital. Com isso, a foodtech soma US$ 9,6 milhões captados até agora.

Os novos recursos vão impulsionar a expansão da empresa para países da Europa como Alemanha, França, Suíça, os nórdicos e a região do Benelux — e esse movimento já começou com um acordo estratégico com o grupo alemão Martin Braun-Gruppe, referência no setor de panificação.

Pelo contrato, a Martin Braun passará a distribuir duas coberturas baseadas nos chocolates veganos da Win-Win — uma versão ao leite e outra amarga — para atender padarias, atacadistas e empresas de foodservice em busca de alternativas mais sustentáveis.

“Estamos muito felizes com essa parceria. A Martin Braun é um nome forte no setor e tem uma rede comercial de grande alcance,” afirma Mark Golder, CEO da Win-Win.

Chocolate sem cacau, com sabor e desempenho profissional

Antes conhecida como WNWN Food Labs, a Win-Win vem reinventando o uso da alfarroba como base para chocolates, combinando-a com tubérculos como o “tiger nut” (chufa), sementes de girassol, arroz fermentado e uma pequena quantidade de óleo de palma certificado (RSPO).

O diferencial está na técnica: a produção segue o mesmo processo tradicional do chocolate — fermentação, torrefação, moagem, conchagem e temperagem — garantindo sabor, textura e performance similares ao chocolate convencional, sem depender do cacau.

As coberturas desenvolvidas em parceria com a Martin Braun foram pensadas especialmente para aplicações em larga escala, como doces, bolos, tortas e confeitaria fina. Produzidas com ingredientes europeus, derretem a 50°C e rendem até três vezes mais que o chocolate de cobertura tradicional.

A versão amarga leva alfarroba torrada, farinha de chufa, proteína de semente de girassol, arroz fermentado, açúcar, óleo de palma, lecitina e aromas naturais. Já a versão ao leite vegetal acrescenta xarope de aveia desidratado à base, trazendo mais cremosidade e doçura.

Para apoiar o lançamento, a Martin Braun desenvolveu um livro de receitas exclusivo com sugestões de uso dos produtos — entre elas, tarteletes, rolinhos de amaretto, petits gâteaux de pera e outros clássicos da confeitaria.

“É uma honra sermos escolhidos como parceiros exclusivos da Martin Braun no segmento de chocolates alternativos. Juntos, estamos criando soluções mais sustentáveis para o setor”, diz Golder.

Setor busca alternativas diante da crise do cacau

A proposta da Win-Win surge em um momento crítico para a indústria. A combinação de mudanças climáticas, doenças nas plantações e eventos climáticos extremos derrubou a produção de cacau nos principais países produtores, como Gana e Costa do Marfim. Como resultado, os preços atingiram recordes históricos — e a tendência é de alta contínua.

Estudos alertam que um terço das árvores de cacau pode desaparecer até 2050, ameaçando o abastecimento global de chocolate. E há ainda outro fator: o chocolate amargo é um dos alimentos com maior pegada de carbono, atrás apenas da carne bovina, com uma barra exigindo em média 1.700 litros de água para ser produzida.

Empresas sentem os efeitos. A gigante Hershey, por exemplo, anunciou que vai reajustar seus preços em dois dígitos e já prevê uma queda nos lucros para 2025, justamente por causa da crise do cacau.

“Todos amamos chocolate, mas o modelo atual de produção não é sustentável. Estamos vendo uma tempestade perfeita: baixa oferta, preços altos, pressão ambiental e cadeias de suprimento instáveis,” resume Golder. “O setor chegou a um ponto de virada — e precisa de alternativas reais, viáveis e escaláveis.”

Chocolate com menos impacto e mais eficiência

As alternativas da Win-Win são promissoras também do ponto de vista ambiental: a produção consome até 80% menos água e emite 82% menos gases de efeito estufa (CO₂e) que o chocolate tradicional. E o sabor tem conquistado chefs e marcas de prestígio: os produtos da Win-Win já foram usados na Toad Bakery, no bar premiado Lyaness, e no restaurante Apricity, detentor da estrela verde Michelin.

Além dos produtos desenvolvidos para a indústria, a marca já lançou edições limitadas ao consumidor final, incluindo versões veganas inspiradas em clássicos como Cadbury Wholenut, Terry’s Chocolate Orange e Tony’s Chocolonely.

No crescente universo dos chocolates alternativos, a Win-Win se junta a startups como Planet A Foods, Compound Foods, Voyage Foods, Nukoko e Endless Food Co, que também atuam com soluções livres de cacau. Paralelamente, empresas como California Cultured, Celleste Bio, Food Brewer e Kokomodo estão apostando no cacau cultivado em laboratório.

Todas essas iniciativas indicam um mesmo caminho: o futuro do chocolate passa por inovação, sustentabilidade e independência do cacau, sem perder o sabor ou a indulgência que fazem do chocolate um dos alimentos mais amados do mundo.

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