O fenômeno Ozempic vem provocando reviravoltas inesperadas no debate sobre saúde nos Estados Unidos. O secretário de saúde, Robert F. Kennedy Jr., comemorou o acordo do governo Trump para baratear medicamentos contra obesidade — um gesto que desagradou parte de sua base, historicamente desconfiada da indústria farmacêutica e de seus fármacos de perda de peso.
Apesar das divergências políticas, uma coisa conecta o movimento “Make America Healthy Again” e os medicamentos GLP-1: ambos reacenderam o interesse dos americanos pela saúde metabólica. Essa guinada também fortaleceu uma percepção fundamental — a de que alimentação é pilar da saúde.
Para a Kate Farms, marca de nutrição plant-based adquirida recentemente pela Danone, esse é um terreno familiar. “Sempre atuamos entre a saúde e o bem-estar, unindo rigor clínico e acesso ao consumidor”, afirma Catherine Hayden, CMO da empresa, ao Green Queen. “Esses movimentos só ampliam algo que defendemos desde o início: nutrição baseada em ciência, realmente melhor para o corpo e para o longo prazo.”
A Kate Farms produz fórmulas e shakes nutricionais para crianças e adultos — de uma fórmula infantil sem os nove principais alergênicos a shakes de proteína de ervilha, refeições pediátricas e opções voltadas ao controle glicêmico e ao suporte renal.
Com a ascensão dos GLP-1, essa visão “comida como cuidado” ganhou força. Com nove em cada dez pacientes dizendo preferir melhorar a alimentação antes de recorrer a medicamentos, a empresa lançou este ano um High Protein Nutrition Shake, criado precisamente para suprir os déficits nutricionais comuns entre usuários de GLP-1.
Agora, esse produto chega ao maior varejista do país, o Walmart — uma movimentação importante para ampliar o alcance da nutrição clínica plant-based, especialmente em um momento de cortes nos programas públicos de assistência alimentar. “Muitas das nossas fórmulas são elegíveis ao SNAP e cobertas por Medicare, Medicaid, seguros privados e pelo WIC em 33 estados”, diz Hayden. “Defendemos políticas que garantam continuidade no acesso a produtos de alta integridade, principalmente em períodos de instabilidade federal.”
GLP-1: um consumidor mais atento, mais científico
Hoje, um em cada oito americanos já utilizou medicamentos como Ozempic, Wegovy ou Mounjaro. As projeções sugerem que até 2028 esse número pode chegar a 70 milhões, com impacto positivo até no PIB. E o comportamento alimentar já está mudando.
Com menor apetite e rejeição crescente por alimentos altamente calóricos, o público GLP-1 tem impulsionado o consumo de produtos ricos em proteína e fibras. Gigantes do setor se adaptam rapidamente: a Nestlé criou uma marca exclusiva para esse público, Coca-Cola e Pepsi investiram em refrigerantes prebióticos (a Pepsi, inclusive, comprou a Poppi por quase US$ 2 bilhões), a Conagra adicionou selos “GLP-1 friendly” em alguns produtos, e a Daily Harvest lançou smoothies reforçados em proteína e fibra.
A tendência é evidente. “Os GLP-1 elevaram o padrão. Esses consumidores entendem rótulos, se interessam por ciência e procuram soluções realmente eficazes”, diz Hayden. “Essa mudança confirma o que fazemos desde o começo: produtos plant-based desenvolvidos com intenção médica, capazes de entregar resultados nutricionais reais — não apenas promessas de marketing.”
Uma dúvida comum é por que quem usa GLP-1 escolheria shakes em vez de alimentos integrais. Hayden explica: “Com a supressão de apetite, muitas pessoas simplesmente não conseguem ingerir nutrientes essenciais. Nosso shake oferece uma forma simples de garantir proteína completa, fibras e micronutrientes em uma porção. Não é um substituto de comida de verdade; é uma ponte que ajuda a manter o corpo nutrido até quando a fome não aparece.”
Quando o rótulo vira ruído — e quando vira valor
Hayden destaca que muitos produtos “para GLP-1” são versões reaproveitadas de linhas esportivas ou voltadas ao diabetes, muitas vezes carregadas de adoçantes artificiais, conservantes ou alergênicos. A proposta da Kate Farms foi outra: criar do zero.
O shake de alta proteína, com 25 g de proteína, 6 g de fibras orgânicas e 27 vitaminas e minerais, foi desenvolvido com apoio de profissionais de saúde e testado diversas vezes com usuários de GLP-1. Estudos mostram que esses medicamentos podem levar a 25% a 40% de perda de massa muscular em poucos meses — uma queda muito maior do que a perda muscular típica relacionada à idade ou dietas convencionais. Por isso, a densidade nutricional era essencial.
Quanto ao rótulo “GLP-1 friendly”, Hayden reconhece o risco: “Se você trata isso como uma tendência, afasta consumidores. Nós não seguimos modismos — desenhamos soluções baseadas em necessidades reais, com precisão clínica. Nosso produto atende usuários de GLP-1, mas serve igualmente a qualquer pessoa que precise de nutrição equilibrada e confiável.”
Kate Farms cresce na contramão do mercado plant-based
O setor plant-based nos EUA vive um momento desafiador, marcado por retração nas vendas e ruído em torno da qualidade de alguns produtos — como o relatório da Consumer Reports sobre metais pesados em proteínas veganas. Hayden rebate sem hesitar: “Integridade de ingredientes sempre foi central para nós. Nossos shakes são orgânicos, plant-based, sem adoçantes artificiais ou corantes, isentos dos nove principais alergênicos e testados para atender aos padrões mais rígidos, incluindo a Proposition 65. Por isso somos a marca plant-based mais recomendada por médicos, presente em mais de 1.400 hospitais.”
Ela afirma que 2025 tem sido um ano de forte crescimento para a empresa, impulsionado por novas parcerias no varejo e expansão simultânea nos canais médicos e de consumo. Esse desempenho chamaria a atenção de qualquer gigante — inclusive da Danone, que adquiriu a empresa neste ano para fortalecer sua área de nutrição médica na América do Norte.
Agora parte do mesmo portfólio que Nutricia, Real Food Blends e Functional Formularies, a Kate Farms passa a integrar um ecossistema robusto de soluções nutricionais. A transição, segundo Hayden, tem sido simples e alinhada com o propósito original da marca. “Esse movimento amplia nossa capacidade de impacto, sem abrir mão dos pilares que nos definem. É uma união de missões: levar adiante a convicção de que boa nutrição e alimentos verdadeiramente melhores são essenciais para uma vida mais saudável.”
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