A startup holandesa Qorium, especializada na produção de couro a partir de células cultivadas de vacas, acaba de dar um passo decisivo rumo à comercialização de seu material sustentável.

Com sede em Maastricht, a empresa captou €22 milhões (cerca de US$ 25 milhões) em uma rodada Série A liderada pela Invest-NL — fundo de investimento estatal da Holanda — e pela LIOF, agência de desenvolvimento regional de Limburg. Também participaram da rodada os fundos Brightlands Venture Partners, Sofinnova Partners e um grupo de investidores privados.

O aporte da Invest-NL foi realizado no âmbito do programa InvestEU, da Comissão Europeia, elevando o total de investimentos captados pela Qorium para €30 milhões desde sua fundação há 11 anos.

“O couro desenvolvido pela Qorium representa uma inovação capaz de transformar uma das indústrias mais poluentes do mundo”, afirmou Lisette Kersting-van der Boog, gestora sênior da Invest-NL. “Ao produzir couro autêntico sem a criação de gado, a Qorium mostra como a biotecnologia pode contribuir para um sistema de materiais mais sustentável.”

O CEO da Qorium, Michael Newton, descreveu o investimento como “um voto de confiança poderoso” na missão da empresa. “Estamos unindo ciência de ponta, expertise tradicional em curtimento e práticas sustentáveis para criar um couro real, com desempenho superior ao convencional, mas sem os custos ambientais e éticos associados à pecuária”, disse. “Com o apoio da Invest-NL, da LIOF e de nossos novos parceiros, estamos prontos para escalar a produção e levar essa revolução ao mercado.”

Parcerias com marcas de moda e automotivas

A Qorium foi fundada por Rutger Ploem, curtidor de sexta geração; Stef Kranendijk, empreendedor ambiental; e Dr. Mark Post, farmacologista conhecido por ter apresentado ao mundo o primeiro hambúrguer cultivado em laboratório e cofundado a Mosa Meat.

O processo desenvolvido pela startup começa com uma biópsia em vacas vivas, coletando células das melhores peles. Essas células são multiplicadas em biorreatores com um meio de cultivo proprietário, resultando em folhas de colágeno uniformes. O material é então enviado a curtumes e marcas globais, que o transformam em couro com a mesma aparência, resistência e durabilidade do tradicional — mas sem o uso de insumos de origem animal além das células iniciais.

A tecnologia se integra perfeitamente às linhas de produção já existentes, permitindo que o couro cultivado seja utilizado por toda a cadeia de produtos da indústria.

No ano passado, a Qorium apresentou um protótipo de 35 x 35 cm produzido em um biorreator de maior escala, comprovando o potencial para produção comercial. Agora, com o novo investimento, a empresa planeja expandir suas instalações, instalar novos sistemas de biorreatores e nomear um novo membro para o conselho. Já há, inclusive, parcerias firmadas com marcas premium de moda e do setor automotivo para o codesenvolvimento de materiais e fornecimento em larga escala.

“Acompanhamos a Qorium desde o início, apostando tanto na ciência do Dr. Mark Post quanto na expertise em couro de Rutger Ploem”, destacou Guillaume Baxter, sócio da Sofinnova Partners. “Este investimento reflete o avanço impressionante da empresa e nossa convicção no potencial econômico e ambiental do couro cultivado.”

O novo couro e o futuro da sustentabilidade

Durante décadas, o couro foi promovido como um subproduto da indústria da carne e do leite — e, portanto, um material “natural” e biodegradável. Mas críticos afirmam que, na prática, ele é muitas vezes um coproduto de alto valor, cuja fabricação consome grandes quantidades de água e energia, além de estar associada à desflorestação e perda de biodiversidade.

Há ainda as questões éticas e de bem-estar animal, que têm levado consumidores conscientes a buscar alternativas. Além disso, o couro convencional possui uma pegada de carbono de cerca de 110 kg de CO₂e por metro quadrado, muito superior às opções sintéticas e às de base vegetal, e libera produtos químicos tóxicos durante o curtimento.

Por outro lado, as alternativas veganas mais antigas geralmente utilizam plástico derivado do petróleo, que pode levar até 500 anos para se decompor e liberar microplásticos nocivos aos oceanos e à saúde humana.

Nesse cenário, o couro cultivado em laboratório surge como uma solução promissora. A tecnologia da Qorium elimina a necessidade da criação de gado, reduz emissões de carbono e metano, minimiza o uso de água e produtos químicos e gera menos resíduos.

De acordo com projeções de mercado, o segmento de couro cultivado deve crescer 14% ao ano e atingir quase US$ 400 milhões até 2032. Diversas startups estão explorando esse caminho: a francesa Faircraft levantou US$ 16 milhões e adquiriu a VitroLabs, enquanto colabora com artesãos e marcas de moda locais. A também holandesa Pelagen trabalha ao lado da Meatable para aprimorar a produção de couro livre de origem animal, aplicável à moda, automóveis e design de interiores.

No Reino Unido, empresas como Lab-Grown Leather Ltd e 3D Bio-Tissues seguem avançando nessa direção, e em Singapura a ProjectEx desenvolve versões cultivadas de couros exóticos, como os de crocodilo e avestruz. Nos Estados Unidos, a Cultivated Biomaterials lançou a linha Angelry, composta por joias feitas com couro celular.

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