O arroz é a base alimentar de metade da população mundial, com 95% da produção e do consumo concentrados em países em desenvolvimento. Mais de três quartos do grão cultivado globalmente são destinados diretamente à alimentação humana — uma proporção bem maior que a do trigo (66%) e do milho (12%).

Mas essa cultura essencial tem um peso significativo no balanço climático global. As plantações de arroz respondem por cerca de 9% das emissões antrópicas de metano e 1,5% das emissões totais de gases de efeito estufa. Além disso, consomem 40% de toda a água usada em irrigação no planeta.

Esse impacto está diretamente ligado ao modo de cultivo: os arrozais alagados criam um ambiente sem oxigênio, ideal para a proliferação de microrganismos que decompõem matéria orgânica e liberam metano — gás que, ao ser emitido pelas plantas, intensifica o aquecimento global.

A urgência climática no setor do arroz

As mudanças climáticas já estão afetando a produtividade da cultura. Estimativas indicam que, até o fim do século, o aumento das temperaturas pode reduzir em até 40% a produção global de arroz. Esse cenário já se reflete em regiões como a China, onde chuvas extremas vêm impactando as colheitas nas últimas duas décadas, e no Vietnã, que perdeu cerca de 100 mil hectares de terras cultiváveis no delta do Mekong, em parte devido ao avanço das mudanças climáticas.

Diante desse desafio, o Global Methane Hub, organização filantrópica dedicada a acelerar ações de mitigação do metano, anunciou um investimento de US$ 30 milhões na criação do Rice Methane Innovation Accelerator. O objetivo é desenvolver soluções que reduzam drasticamente as emissões do cultivo de arroz sem comprometer produtividade e rentabilidade dos agricultores.

Um novo impulso à pesquisa e inovação agrícola

O projeto conta com o apoio da Fundação Rockefeller e será oficialmente lançado em 2026, durante encontro no Bellagio Center, na Itália. A iniciativa buscará estimular inovações em quatro eixos principais: genética e fisiologia vegetal, microbioma do solo, agronomia e métodos de medição de emissões.

Segundo Hayden Montgomery, diretor do programa de agricultura do Global Methane Hub, o foco está em tecnologias que otimizem a produção com menor uso de recursos. “Variedades de arroz de ciclo curto e com menor necessidade de água podem reduzir significativamente as emissões e, ao mesmo tempo, aumentar a resiliência dos pequenos produtores, diminuindo custos e melhorando os rendimentos”, afirmou.

Entre as práticas mais conhecidas, está o método de irrigação intermitente (AWD – Alternate Wetting and Drying), que alterna períodos de alagamento e secagem dos campos. Apesar de promissor, o sucesso dessa técnica depende fortemente de infraestrutura local e do acesso dos agricultores a conhecimento e tecnologia — fatores que o novo acelerador pretende justamente aprimorar.

Estratégia global e captação de recursos

A estratégia detalhada do Rice Methane Innovation Accelerator será divulgada no início de 2026. A expectativa é desenvolver um roteiro global para aumentar a eficiência e a aplicabilidade das soluções mais promissoras em diferentes contextos agrícolas.

O programa já conta com mais de US$ 500 milhões em recursos agrupados de 20 das maiores fundações climáticas do mundo e agora busca atrair ao menos US$ 100 milhões adicionais em investimentos filantrópicos, públicos e privados.

“A conscientização sobre o papel do metano está crescendo, e governos e empresas começam a se organizar para enfrentar o problema”, explica Montgomery. “O acelerador cria uma estrutura para integrar esforços e evitar a fragmentação que até hoje tem limitado os avanços.”

O executivo destaca ainda o interesse crescente de empresas que atuam em toda a cadeia do arroz — de varejistas a processadores e marcas de bens de consumo — em reduzir suas emissões indiretas (escopo 3). Iniciativas recentes, como o guia lançado pelo World Business Council for Sustainable Development, devem impulsionar ainda mais esses investimentos.

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