A ciência tem sido unânime em um ponto: estamos consumindo carne em excesso. Esse hábito exerce uma pressão enorme sobre um sistema alimentar já fragilizado. Hoje, a pecuária é responsável por até 20% das emissões globais de gases de efeito estufa, consome 70% da água doce disponível e ocupa 80% das terras agrícolas do planeta.
Esse modelo não só impulsiona a crise climática, como também sofre suas consequências. O aumento dos custos de produção e a escassez de carne já se tornaram realidade — e, segundo projeções, a demanda por proteína animal deve crescer 6% na próxima década, agravando ainda mais o cenário.
Mas há um caminho alternativo: adotar padrões alimentares mais sustentáveis e baseados em plantas. Pesquisas anteriores já mostraram que dietas veganas podem reduzir emissões, uso de terra e poluição da água em até 75%. A Comissão Eat-Lancet, por exemplo, estima que dietas flexitarianas — predominantemente vegetais, mas que ainda incluem pequenas quantidades de carne — poderiam cortar as emissões globais em 15% e evitar cerca de 15 milhões de mortes prematuras todos os anos.
Agora, um novo estudo da Universidade de Oxford indica que a transição para dietas mais plant-based poderia gerar uma economia de quase US$ 1 trilhão por ano nos custos de produção de alimentos. O motivo é simples: a produção animal demanda, em média, quatro vezes mais mão de obra por quilotonelada do que o cultivo de vegetais — sendo o cordeiro e o boi os campeões dessa ineficiência.
Os pesquisadores reforçam que, para essa transição ser justa e viável, é essencial que governos apoiem agricultores e pecuaristas, oferecendo incentivos e políticas de reconversão produtiva.
Menos trabalho na pecuária, mais oportunidades na horticultura
Publicado na revista The Lancet Planetary Health, o estudo avaliou o impacto de diferentes padrões alimentares na força de trabalho agrícola em 179 países.
Ao cruzar dados globais sobre a necessidade de mão de obra para diferentes tipos de cultivo e criação com modelos de produção de alimentos, os cientistas estimaram quantos trabalhadores seriam necessários para 20 grupos alimentares distintos em níveis global, regional e nacional.
Os resultados mostram que a menor demanda por carne e laticínios reduziria a necessidade de trabalhadores em até 28% em cenários vegetarianos e veganos — o que equivale a uma diminuição de 18 a 106 milhões de empregos em tempo integral até 2030. Em contrapartida, o aumento no consumo de frutas, legumes, leguminosas e outros alimentos de origem vegetal criaria até 56 milhões de novas vagas, impulsionando o setor hortícola entre 8% e 25%.
A dinâmica, no entanto, varia entre regiões. Países mais ricos — onde a pecuária é dominante — teriam as maiores reduções de postos (-20%), enquanto nações de baixa renda sofreriam um impacto menor (-4%). Já os países especializados em horticultura ou exportação de produtos vegetais, como Colômbia e Equador, tenderiam a ver um aumento expressivo na demanda por trabalhadores rurais. O mesmo ocorreria em regiões africanas com potencial agrícola ainda em expansão, como Eritreia e Gâmbia.
Quando esses dados são combinados com os custos salariais agrícolas, a pesquisa indica que a transição para dietas flexitarianas ou pescetarianas reduziria os gastos globais com mão de obra em cerca de 10%, chegando a 32% em cenários totalmente livres de carne — uma economia estimada entre US$ 290 bilhões e US$ 995 bilhões, o equivalente a até 0,6% do PIB mundial.
Nos países de baixa renda, o efeito seria ainda mais marcante: a redução dos custos trabalhistas poderia representar até 11% do PIB regional.
Um novo sistema alimentar precisa ser justo e inclusivo
“O sistema alimentar exerce enorme impacto sobre o meio ambiente e a saúde humana. Sem uma mudança em direção a dietas equilibradas e predominantemente vegetais, será praticamente impossível conter as mudanças climáticas dentro dos limites planetários”, destacam os autores do estudo.
Os pesquisadores observam que as mudanças na demanda por trabalho rural trarão tanto desafios quanto oportunidades. Em países com maior demanda por alimentos vegetais, haverá geração de empregos — uma boa notícia para economias emergentes. Em nações desenvolvidas, porém, será necessário atrair novos trabalhadores para a agricultura, um setor que hoje representa uma parcela pequena da economia e é pouco valorizado.
Entre as recomendações, estão políticas que facilitem a mobilidade de trabalhadores entre regiões e setores, incentivos à imigração e programas sazonais de trabalho. Já nos países com maior capacidade financeira, os especialistas sugerem redirecionar mão de obra da pecuária para a horticultura ou para áreas como conservação ambiental e reflorestamento. Investir em qualificação profissional também será essencial para que agricultores possam migrar para setores de maior renda, como manufatura, construção civil e serviços alimentares.
“Alterar nossa dieta não afeta apenas a saúde e o planeta — também transforma o modo como milhões de pessoas vivem do campo”, afirma Marco Springmann, pesquisador sênior do Environmental Change Institute da Universidade de Oxford e autor principal do estudo. “Ao reduzirmos a produção animal, diminuímos a necessidade de trabalho nesse setor, mas aumentamos a demanda por profissionais na horticultura e em serviços alimentares.”
Com a COP30 se aproximando, Springmann reforça a importância de políticas públicas para uma transição justa e economicamente sustentável: “Precisamos de estratégias consistentes e apoio político para garantir que essa mudança ocorra de forma equilibrada — tanto para quem deixa quanto para quem entra no setor agrícola.”
Leia também:
Uluu capta US$ 10,5 milhões para produzir bioplásticos a partir de algas marinhas
Burger King Áustria recua em decisão de substituir leite de vaca por leite de aveia
Projeto de lei nos EUA propõe US$ 10 milhões para levar refeições plant-based às escolas
Compartilhe:

