No dia 20 de outubro, o Burger King Áustria surpreendeu o mercado ao anunciar que o leite de aveia passaria a ser o padrão em todas as bebidas quentes, retirando o leite de vaca do cardápio. A medida, inédita entre grandes redes de fast food, foi celebrada como um marco para o avanço da alimentação plant-based e da sustentabilidade no setor.

Mas a comemoração durou pouco: em apenas uma semana, a rede voltou atrás.

Apesar de afirmar que a recepção à mudança foi “extremamente positiva”, a empresa decidiu recolocar o leite de vaca no menu, alegando que parte dos consumidores ainda prefere o produto tradicional.

O Burger King continuará oferecendo o leite de aveia da sueca Oatly — em sua nova versão Baristamatic, desenvolvida especialmente para máquinas automáticas de café — em todas as 63 unidades do país, mas agora ao lado do leite de origem animal.

Por que o Burger King trouxe o leite de vaca de volta

Quando anunciou a substituição, o Burger King destacou que o leite de aveia oferecia o mesmo sabor e textura do leite de vaca, porém com impacto ambiental significativamente menor. A marca chegou a enaltecer a Oatly como “a primeira empresa de soluções climáticas no setor alimentício”, já que mais de 90% de sua receita vem de produtos com pelo menos 50% menos emissões que as opções convencionais.

Na época, a rede também reforçou que não haveria custo adicional para quem pedisse bebidas com leite vegetal — uma barreira comum em cafeterias.

Poucos dias depois, entretanto, o comunicado oficial e a página do site que explicavam a mudança foram removidos. Em seu lugar, uma nova nota afirmou:

“A resposta inicial foi extremamente positiva, mas muitos clientes ainda preferem saborear seu café com leite de vaca. No Burger King, as preferências dos clientes são continuamente incorporadas ao desenvolvimento e à atualização do nosso cardápio.”

Hartmut Graf, CEO do The Eatery Group, franqueado master do Burger King na Áustria, complementou:

“Fortalecer nossa linha de cafés com o leite de aveia da Oatly é mais um passo importante para ampliar nossas alternativas plant-based e consolidar nossa liderança nesse segmento. Mas, como sempre, o cliente é rei — e nosso cardápio reflete seus gostos e escolhas.”

Um retrocesso para a trajetória plant-based da rede

A decisão marca um revés na trajetória do Burger King, que vinha se destacando entre as grandes cadeias por investir de forma consistente em opções à base de plantas.

Nos últimos anos, a marca transformou diversas unidades em restaurantes 100% sem carne, como o famoso caso em Colônia, na Alemanha, e a operação temporária totalmente vegana em Leicester Square, Londres.

Em 2022, uma unidade em Viena chegou a servir hambúrgueres vegetais por padrão — oferecendo carne apenas mediante solicitação do cliente. No ano seguinte, a rede testou o leite de aveia como opção principal em dez lojas na Alemanha. Nenhuma dessas iniciativas, no entanto, tornou-se permanente.

Antes de recuar, o Burger King havia afirmado que o objetivo da mudança era promover escolhas alimentares mais sustentáveis sem comprometer sabor ou experiência.

“Depois do sucesso dos hambúrgueres plant-based, converter todo o portfólio de cafés era mais um passo para provar que prazer e sustentabilidade podem andar juntos”, dizia o comunicado original.

Com a volta do leite de vaca, essa narrativa perde força. A indústria láctea é responsável por cerca de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa e por 8% das emissões de metano — um gás até 28 vezes mais potente que o CO₂. Além disso, demanda muito mais terra e água do que as alternativas vegetais.

Já o leite de aveia Baristamatic da Oatly emite cerca de 0,53 kg de CO₂e por litro, aproximadamente metade do impacto médio do leite de vaca na Áustria. O produto foi desenvolvido para oferecer textura cremosa, boa espuma e estabilidade em máquinas de café — sem comprometer sabor nem funcionalidade.

A Oatly esperava que a parceria com o Burger King servisse como prova de que os leites vegetais podem ser o novo padrão, e não apenas uma opção alternativa. A reviravolta, no entanto, mostra que a transição para o plant-based ainda enfrenta resistências, mesmo quando o público demonstra apoio crescente a escolhas mais sustentáveis.

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