Um ano depois de ser processada por divulgar sua carne bovina como “climaticamente inteligente” e por afirmar que chegaria a emissões líquidas zero até 2050, a gigante norte-americana Tyson Foods concordou em abandonar esse tipo de alegação ambiental.
A ação foi movida em setembro de 2024, no Tribunal Superior de Washington, pela organização Environmental Working Group (EWG). O argumento central era que a Tyson não tinha meios concretos — nem com as tecnologias atuais, nem com as que espera desenvolver — para reduzir de forma significativa as emissões de metano e óxido nitroso ligadas à produção de carne bovina, a não ser que deixasse de criar gado.
Pelo acordo, a empresa fica proibida de fazer novas afirmações semelhantes pelos próximos cinco anos, a menos que um especialista, escolhido em consenso entre as partes, valide que tais promessas são devidamente fundamentadas.
“Este desfecho reforça a ideia de que consumidores merecem transparência e responsabilidade das empresas que moldam o nosso sistema alimentar”, afirmou Caroline Leary, diretora jurídica e COO do EWG, representado por um grupo de organizações jurídicas ambientais. “Fica claro que compromissos climáticos corporativos precisam ser verificáveis e baseados em mudanças reais.”
Marketing climático sob questionamento
O foco da disputa foi o programa Climate-Smart Beef da Tyson, que levou ao lançamento da marca Brazen Beef, estampada com o selo “Low Carbon Beef” do USDA. A rotulagem sugeria que o produto resultava de práticas capazes de reduzir em 10% as emissões de gases de efeito estufa.
Na prática, porém, quase nada foi divulgado sobre como essa redução teria sido alcançada. A denúncia do EWG destacou ainda que a própria Tyson reconhece o avanço da demanda por alimentos com menor impacto climático e que muitos consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos assim — um cenário que, segundo a empresa, pode ameaçar suas vendas se não acompanhar essa tendência.
Durante mais de quatro anos, a Tyson afirmou ao público que estava comprometida com a meta de zerar emissões até 2050 e que vendia carne “climate-smart”, o que o EWG classificou como uma estratégia deliberada para lucrar com o interesse crescente por opções sustentáveis. O processo também destacou que a empresa não apresentou qualquer prova que sustentasse essas promessas.
E funcionou: uma pesquisa de 2024 mostrou que 95% dos americanos comprariam produtos rotulados como “climaticamente amigáveis”, e dois terços pagariam mais por eles. Além disso, parte dos consumidores acreditou que a carne “climate-friendly” teria menor impacto climático até mesmo que tofu — algo totalmente contrário ao consenso científico.
O peso climático da carne bovina
A realidade é dura: entre todos os alimentos, a carne bovina é o que mais contribui para o aquecimento global. O metano gerado pela digestão dos bovinos responde por 18% das emissões do gás nos EUA — e seu potencial de aquecimento é 86 vezes maior que o do CO₂ em 20 anos. A gestão de esterco libera ainda mais metano e óxido nitroso.
Somam-se a isso as emissões decorrentes do desmatamento para pastagens, que liberam carbono estocado no solo e impedem a regeneração de áreas de alto potencial de sequestro. Só a produção de carne bovina representa 85% da pegada climática da Tyson, cujas emissões totais superam as de países como Áustria ou Grécia.
No acordo, a Tyson negou todas as acusações e alegou ter investido US$ 65 milhões em iniciativas de redução de emissões — valor que representa pouco mais de 0,1% da receita anual de US$ 53 bilhões. Pesquisas mostram que a empresa gasta mais do que o dobro disso apenas em marketing.
Um movimento crescente contra o greenwashing da indústria da carne
Para Kelsey Eberly, advogada sênior da organização FarmSTAND, o acordo representa “um ponto de virada essencial na luta contra o greenwashing climático”. Ela lembra que a Tyson, segunda maior produtora de carne e frango do mundo, controla cerca de 20% do mercado americano e gera quase tanto metano quanto grandes petrolíferas. “Agora, é obrigada a recuar nas suas promessas climáticas.”
O caso Tyson foi concluído no mesmo mês em que a brasileira JBS — maior empresa de carne do mundo — também aceitou interromper afirmações infundadas sobre atingir emissões líquidas zero, após acordo com a Procuradoria-Geral de Nova York. Juntas, as duas empresas produzem cerca de metade da carne bovina consumida nos EUA, tornando esses desfechos um marco importante no enfrentamento ao greenwashing da pecuária industrial.
Apesar de o governo americano já ter concedido mais de US$ 377 milhões em subsídios diretos às grandes corporações da carne, os reguladores começaram a apertar o cerco. No ano passado, novas diretrizes para rotulagem passaram a exigir comprovação para termos como “climate-friendly” ou “humanely raised”. Embora de caráter voluntário, quem descumprir pode enfrentar ações de fiscalização.
“Este acordo é um alerta claro para que consumidores tenham cautela com alegações de grandes frigoríficos sobre ‘carne climaticamente inteligente’”, afirmou Carrie Apfel, da equipe de Agricultura Sustentável da Earthjustice. “A pecuária industrial emite enormes volumes de gases de efeito estufa em todas as etapas. Reduções significativas exigiriam mudanças profundas e transparentes — algo que, segundo alegamos, a Tyson não demonstrou.”
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