A demanda global por laticínios continua crescendo em ritmo acelerado, enquanto o número de produtores rurais segue em queda. Estimativas indicam que, até 2030, o déficit mundial de leite pode chegar a 30 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, muitos substitutos vegetais — especialmente os queijos veganos — ainda enfrentam resistência entre consumidores que buscam sabor e textura semelhantes aos produtos tradicionais.

É justamente nesse ponto que a Nutropy, startup francesa de biotecnologia, quer atuar. A empresa desenvolve proteínas lácteas idênticas às do leite de vaca por meio de fermentação de precisão, criando uma base em pó pronta para uso que permite a produção de queijos, iogurtes e outros derivados sem a necessidade de animais, mas com o mesmo sabor, valor nutricional e desempenho culinário.

A Nutropy acaba de captar €7 milhões (cerca de US$ 8,1 milhões) em uma rodada de investimento acima do esperado, liderada pela Big Pi Ventures e Zero Carbon Capital, com participação da Big Idea Ventures, Beta Lab, Wyngate, Paul Dischamp (tradicional fabricante de queijos), Desai Ventures, PVS Investments e Novax, braço de investimentos da Axel Johnson.

O aporte também contou com apoio público de programas europeus e franceses, incluindo o Bpifrance, o banco estatal de fomento à inovação. Com isso, o total já captado pela empresa ultrapassa US$ 10 milhões, considerando a rodada pré-Série A de 2022.

Segundo Nathalie Rolland, CEO e cofundadora ao lado da cientista Maya Bendifallah, o novo investimento será direcionado à ampliação da produção e ao fornecimento de amostras em maior escala para parceiros da indústria alimentícia.

Caseína sem origem animal: o segredo do “leite queijeável” da Nutropy

O foco da Nutropy é a caseína, principal proteína do leite e responsável pela elasticidade e capacidade de derretimento dos queijos. A startup programa microrganismos para produzir versões idênticas dessas proteínas, sem recorrer a vacas.

“Nutrimos nossos microrganismos com açúcares e nutrientes em biorreatores; eles secretam as caseínas, que depois são purificadas e colhidas”, explica Bendifallah. Embora a empresa não revele qual cepa microbiana utiliza, já trabalha para substituir insumos tradicionais por matérias-primas mais simples e sustentáveis.

O leite de vaca contém quatro tipos de caseína, que se organizam naturalmente em micelas — estruturas esféricas que determinam a textura e as propriedades nutricionais dos laticínios. Algumas startups tentam reproduzir todas as quatro, mas a Nutropy descobriu que é possível obter o mesmo efeito funcional produzindo apenas algumas delas.

“Desenvolvemos micelas que cumprem o mesmo papel das bovinas, sem precisar replicar exatamente todas as proporções originais. Elas são essenciais para a textura e o comportamento do queijo”, afirma a cientista.

Após a colheita, as proteínas são funcionalizadas e combinadas com ingredientes de origem vegetal, formando um pó que a empresa batizou de ‘cheeseable milk’ — literalmente, “leite queijeável”. Esse processo de funcionalização é o que garante a cremosidade, a maciez e o sabor ideais, de acordo com o tipo de produto desejado.

Modelo plug-and-play que encanta investidores

O diferencial da Nutropy está na simplicidade de aplicação: ao misturar o pó de “cheeseable milk” com água, o resultado se comporta como leite convencional — mas sem gerar resíduos como o soro, comum na indústria tradicional.

“O produto pode ser processado com o mesmo maquinário usado hoje para coalhar e produzir queijos”, explica Bendifallah.

Rolland destaca que o foco inicial é o mercado de queijos, mas a tecnologia também abre espaço para categorias como iogurtes, leites e sorvetes. A pesquisa e desenvolvimento são realizados no Genopole, o maior biocluster da França, e o plano é ampliar a produção com parceiros industriais a partir de 2026, em escala piloto.

A meta é atingir paridade de preço com o leite de vaca já no lançamento, previsto para 2027, começando com produtos que exigem menor concentração de caseína. À medida que o processo se torna mais eficiente, o objetivo é igualar os custos também em outras categorias.

De acordo com Rolland, a Nutropy já conversa com grandes marcas do setor alimentício desde antes de sua fundação — e há forte interesse em receber amostras do produto. Os mercados prioritários incluem América do Norte, Europa, alguns países asiáticos e o Oriente Médio.

Mesmo em um cenário desafiador para o financiamento de foodtechs, a startup conseguiu conquistar investidores. “O segredo é encontrar parceiros que compartilhem da nossa visão”, afirma Rolland.

“Nossos investidores valorizam o modelo B2B plug-and-play, a abordagem científica desde o início e, principalmente, nossa missão de transformar o sistema alimentar por meio da biotecnologia”, completa.

Leia também:

Matr Foods capta €20 mi para escalar carne de micélio e expandir produção

Sunrize Shakehouse inaugura segunda unidade em São Paulo

01/11 – Dia Internacional do Veganismo – Descubra alternativas para experimentar pratos 100% veganos em São Paulo

Compartilhe: