Um dos estados mais influentes da Austrália decidiu apostar de forma concreta no futuro da alimentação. Foi inaugurado em Horsham, no interior de Victoria, um centro multimilionário dedicado a impulsionar pesquisas e soluções em culturas sustentáveis e ricas em proteína.

O chamado SmartFarm recebeu um investimento de A$ 12 milhões (cerca de US$ 8 milhões), anunciado ainda no orçamento de 2022-23. Desse total, A$ 9 milhões foram direcionados à criação de um verdadeiro polo de inovação em proteínas vegetais — o Plant Protein Hub — enquanto o restante foi destinado à construção de uma nova estufa de pesquisa.

A iniciativa pretende aproximar produtores, cientistas e empresas para desenvolver cultivos mais resistentes ao clima e capazes de atender à crescente demanda global por alimentos plant-based.
“Estruturas pensadas para esse propósito, como o Plant Protein Hub, fortalecem nossa capacidade de pesquisa e abrem portas para oportunidades em toda a cadeia de inovação agrícola e alimentar”, afirmou Jacinta Ermacora, integrante do Conselho Legislativo de Victoria.

Como o SmartFarm de Horsham vai impulsionar as proteínas vegetais

O Plant Protein Hub foi planejado para funcionar como um espaço de colaboração entre agricultores, pesquisadores e jovens empresas do setor. O local conta com cozinha experimental, equipamentos analíticos avançados e ambientes específicos para testar e desenvolver novos produtos plant-based.

Essas instalações vão apoiar a busca por variedades de lentilha, grão-de-bico, ervilha e outras culturas que combinem alto teor proteico com desempenho agronômico competitivo.

O governo do estado destaca que o hub já se consolida como um polo de inovação, reunindo pesquisadores, profissionais da indústria e estudantes de pós-graduação. A estrutura comporta até 10 doutorandos e três startups, e já existe uma parceria estabelecida entre o departamento de agricultura e empresas do mercado plant-based para orientar as prioridades de pesquisa dos próximos anos.

Enquanto isso, a nova estufa vai acelerar estudos sobre melhoramento genético, manejo de pragas e doenças e adaptação das plantas às mudanças climáticas — pontos essenciais para manter a produtividade agrícola em cenários cada vez mais instáveis.

A construção do Plant Protein Hub também movimentou a economia local, gerando dezenas de empregos diretos e indiretos em obras, fornecimento de materiais e serviços técnicos. Agora, o centro passa a oferecer novas oportunidades de formação, pesquisa e parceria com a indústria.

Além disso, estudantes desde o ensino fundamental até a pós-graduação terão acesso a experiências práticas em um espaço educacional dedicado, criando caminhos para carreiras no setor agrícola e de alimentos do futuro.

“Esse investimento abre novas possibilidades de mercado, fortalece o emprego local, incentiva práticas sustentáveis e ajuda a garantir um futuro resiliente para as regiões de Victoria”, destacou Michaela Settle, secretária parlamentar para a região.

Apoio governamental: peça-chave para o futuro da alimentação na Austrália

Victoria vem se firmando como protagonista na produção de culturas usadas em proteínas vegetais no país. Apenas a cadeia de pulses do estado gerou A$ 638 milhões em exportações no último ano.
“Victoria está na dianteira da pesquisa em proteínas vegetais, construindo estruturas de referência mundial e estimulando parcerias que vão transformar a agricultura e fortalecer as economias regionais”, declarou a ministra da Agricultura, Ros Spence.

A Austrália, como um todo, produz cerca de 59 milhões de toneladas anuais de cereais, pulses e oleaginosas ricos em proteína — e é líder global no cultivo de tremoço, além de grande produtora de trigo, cevada e canola.

Apesar disso, o país exporta aproximadamente 65% de seus grãos como commodities de baixo valor agregado. Em 2023, embarcou 41 milhões de toneladas de culturas ricas em proteína, mas importou 118 mil toneladas de ingredientes proteicos processados.
Esse desequilíbrio, segundo o think tank Food Frontier, coloca a Austrália em risco de perder espaço no mercado global de proteínas vegetais para países com políticas industriais mais estruturadas. A organização publicou recentemente um relatório pedindo uma estratégia federal para impulsionar a manufatura nacional de ingredientes proteicos de maior valor.

Entre os entraves apontados estão a falta de conhecimento técnico entre fabricantes, dificuldades de infraestrutura, custos elevados e lacunas na cadeia de suprimentos. Investidores também se mostram cautelosos sem políticas de cofinanciamento público que reduzam riscos.

As recomendações do Food Frontier incluem desenvolver mão de obra especializada, fortalecer cadeias produtivas regionais e viabilizar estruturas compartilhadas de produção e pesquisa — algo que hubs como o de Horsham começam a entregar.

Outros estados australianos também têm se movimentado. Queensland está financiando a construção de uma planta de hiperfermentação da Cauldron Ferm, enquanto New South Wales lançou um prospecto para atrair fabricantes de proteínas vegetais para sua região. No nível federal, a startup de carne cultivada Magic Valley recebeu A$ 100 mil para avançar seus projetos.

A agência nacional de pesquisa, CSIRO, também mantém parcerias com startups de food tech — entre elas Cauldron Ferm, a empresa de fermentação de precisão All G e a incubada Eclipse Ingredients, que desenvolve proteínas recombinantes similares às do leite materno.

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