O movimento de consolidação que vem marcando o mercado plant-based nos últimos anos ganhou mais um capítulo com a estratégia ousada da Bettani Farms. A empresa californiana, que começou produzindo queijos veganos artesanais — inclusive já exibidos no The Late Show with Stephen Colbert — agora se posiciona como um polo de inovação com várias marcas desafiadoras sob o mesmo guarda-chuva.
Após levantar US$ 6,5 milhões em outubro, quando passou a se chamar Bettani Farms (antes Climax Foods), a companhia avançou sobre três novas aquisições: a fabricante nova-iorquina de muçarela vegana Numu, a produtora de carnes plant-based Hungry Planet e a sueco-americana Stockeld Dreamery, conhecida pelos seus queijos fermentados.
Para a Stockeld Dreamery, a nova fase representa praticamente uma ressurreição. A startup havia encerrado suas operações em outubro, após a desaceleração do segmento tornar inviável uma nova rodada de investimento. Parte dos seus equipamentos e tecnologias chegou a ser vendida para a dinamarquesa PlanetDairy, mas agora sua marca ganha uma segunda vida nos Estados Unidos por meio da Bettani.
Segundo o cofundador Sorosh Tavakoli, o acordo com a PlanetDairy envolveu principalmente infraestrutura e transferência de conhecimento técnico, enquanto a Bettani adquiriu a totalidade dos ativos: patentes, formulações, marcas, contratos com clientes e distribuidores — tudo o que sustentava a operação. Tavakoli anunciou a novidade nas redes sociais, descrevendo a aquisição como uma solução encontrada “no último minuto”. Ele também confirmou que as compras de Numu e Hungry Planet aconteceram muito recentemente.
As três marcas passam a integrar o ecossistema Bettani Brands, com a proposta de oferecer ao mercado uma gama mais completa de soluções plant-based de nova geração. Paralelamente, a empresa trabalha na introdução comercial de suas muçarelas e fetas feitas com Caseed, um ingrediente que replica as propriedades funcionais da caseína, mas 100% vegetal.
Marcas seguem ativas e com planos definidos
Criada em 2015, a Numu abastece pizzarias nos EUA e Canadá — incluindo as barras de pizza da Whole Foods — com uma muçarela vegana produzida a partir de óleo de coco, amidos e leite de soja.
A Hungry Planet, fundada em 2016, fabrica proteínas vegetais para diversos usos culinários, indo de carnes moídas a alternativas de frango, porco e até caranguejo. A marca já teve presença no varejo, mas hoje concentra seus esforços exclusivamente no foodservice.
Já a Stockeld Dreamery comercializava queijos fermentados — como Cheddar e provolone fatiados, além de seus cream cheeses — em cerca de 500 pontos entre redes de bagel, hamburguerias e supermercados. Seus produtos chegaram a ser servidos até em um afterparty do Met Gala, e estavam prestes a entrar na Whole Foods. A queda de 4% nas vendas de queijos sem lactose nos EUA no último ano, porém, tornou o avanço comercial mais custoso.
Com receita abaixo de US$ 1 milhão e projeção de chegar a US$ 1,2 milhão apenas em 2026, a startup precisava de um aporte de US$ 2 a 3 milhões para atingir a lucratividade — algo que levaria cerca de quatro anos e manteria o negócio vulnerável. Por isso, Tavakoli optou por encerrar a operação de forma ordenada, até ser surpreendido pelo interesse da Bettani.
O fundador afirma que os cream cheeses da marca seguirão disponíveis para cafeterias e restaurantes em todo o país. As fatias não voltarão por enquanto, mas estão no radar da Bettani para projetos futuros. Parte da equipe da Stockeld Dreamery permanecerá por alguns meses para apoiar a transição.
Aposta na caseína vegetal e estratégia acelerada de M&A
Baseada no Vale do Silício, a Bettani Farms utiliza inteligência artificial para entender e replicar as propriedades sensoriais que tornam os queijos tradicionais tão desejados. Daí surgiu o Caseed, uma proteína obtida de sementes de culturas regenerativas (a empresa não revela quais), com textura cremosa, cor branca e sabor neutro — características essenciais para queijos de alta funcionalidade.
É a resposta vegetal da Bettani para a caseína, principal proteína do leite de vaca e responsável pelo derretimento e elasticidade dos queijos. A empresa argumenta que sua abordagem é mais competitiva em custo do que as soluções baseadas em fermentação de precisão.
O Caseed permite criar queijos veganos ricos em proteína — entre 12 e 20 g por 100 g, praticamente o mesmo nível do queijo convencional — em variedades como muçarela, Cheddar, feta e Monterey Jack. O foco inicial será atender fabricantes de alimentos congelados, operadores de foodservice e marcas plant-based que buscam melhorar suas formulações.
“Queremos fazer pelo setor de pizzas o que o leite de aveia fez pelo café”, afirmou Sandeep Patel, CEO desde outubro. Para ele, os queijos produzidos com Caseed entregam o desempenho que consumidores esperam em pratos quentes, com menor impacto ambiental e livre dos alérgenos do leite. Patel destaca ainda que o ingrediente permite criar queijos que não precisam derreter, como feta e cream cheese, ampliando seu uso em saladas, patês e sanduíches.
As aquisições recentes da Bettani acompanham a onda de fusões, compras e liquidações que atravessa o setor de proteínas alternativas: desde setembro de 2024, mais de 50 operações foram registradas. Nos EUA, gigantes como Miyoko’s Creamery, Daring Foods, Meati Foods e Vertage também passaram por processos de compra — sinal claro de que o mercado está se reorganizando para uma nova fase.
Leia também:
Startup finlandesa aposta na fava para criar uma nova geração de proteínas texturizadas
Ripple Foods capta US$ 17 milhões para ampliar linha orgânica e proteica de leites vegetais
BSF Enterprise capta US$ 20 milhões para acelerar produção de carne e couro cultivados
Compartilhe:

