Um latte gelado preparado com café sem grãos, leite vegetal e proteína literalmente “vinda do ar”. Pode soar como ficção científica, mas essa combinação já é realidade em Singapura. A novidade é fruto da japonesa Ajinomoto, gigante global do setor alimentício, conhecida mundialmente pelo MSG (glutamato monossódico).

A empresa apresentou o GRe:en Drop Coffee, uma linha de bebidas criada sob a marca Atlr.72 em parceria com duas startups de tecnologia alimentar: a finlandesa Solar Foods, que desenvolve proteínas produzidas a partir de dióxido de carbono, e a singapurense Prefer, especializada em café sem grãos.

Durante uma prévia de uma semana no Ocean Financial Centre, em Singapura, a Ajinomoto apresentou duas opções geladas que unem o substituto de café PreferRoast — que representa 30% do blend final — com leite de aveia e um creme vegetal feito com Solein, proteína desenvolvida pela Solar Foods. As bebidas disponíveis foram um café filtrado e um latte, ambos completamente livres de ingredientes de origem animal.

Além de atender pessoas com intolerância ou alergia ao leite, a inovação busca enfrentar um dos maiores desafios ambientais do setor: a redução das emissões, do uso de terra e do consumo de água. De acordo com a Prefer, o produto final ainda pode custar até 50% menos que o café tradicional.

O CEO e cofundador da Prefer, Jake Berber, destacou que cerca de 70% do GRe:en Drop Coffee ainda contém café torrado, mas com um perfil de sabor robusto, com notas de chocolate e nozes, pensado para o paladar local. “A Solein adiciona proteína de maneira sustentável e resulta em um latte surpreendentemente saboroso”, afirma.

Fermentação microbiana no centro da inovação

A tecnologia da Prefer parte da fermentação e do aproveitamento de resíduos alimentares para criar alternativas sustentáveis a culturas agrícolas ameaçadas pelas mudanças climáticas. A startup transforma subprodutos da indústria — como arroz quebrado e grão-de-bico — em uma base fermentada com microrganismos, que depois é torrada e moída, reproduzindo os compostos aromáticos do café tradicional. Esse processo reduz em até 8,8 vezes a pegada de carbono em comparação ao café comum e exige muito menos água.

A Solar Foods adota um caminho ainda mais disruptivo: em vez de depender de matérias-primas agrícolas, cultiva microrganismos que se alimentam de dióxido de carbono, hidrogênio e oxigênio. O resultado é uma biomassa transformada em um pó neutro — o Solein — que contém 78% de proteína, além de gorduras, fibras, ferro e vitaminas do complexo B.

A empresa descreve o Solein como “a proteína mais sustentável do planeta”, já que sua produção emite apenas 1% dos gases de efeito estufa da carne e cerca de 20% das emissões das proteínas vegetais, utilizando energia renovável e sem necessidade de solo agrícola ou irrigação.

O ingrediente já foi aplicado em produtos como mooncakes, sanduíches de sorvete e sobremesas da linha Atlr.72, que concentra as inovações da Ajinomoto baseadas em plantas, células e microrganismos. Agora, ele ganha uma nova função: o pó de Solein é combinado com óleo vegetal e água para criar um creme vegetal proteico, de textura aveludada e sabor intenso.

Café e laticínios sob pressão ambiental

O investimento da Ajinomoto em um latte de nova geração não é apenas uma aposta tecnológica — é também uma resposta às pressões ambientais que atingem o café e os laticínios. A produção de leite representa cerca de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa e 8% das emissões de metano, gás com poder de aquecimento 28 vezes maior que o do CO₂. Além disso, o setor demanda grandes extensões de terra e enormes volumes de água.

O café, por sua vez, enfrenta sua própria crise climática. Cada xícara requer, em média, 140 litros de água para ser produzida, e um quilo de grãos emite mais gases de efeito estufa do que a mesma quantidade de frango ou carne suína. Com as mudanças climáticas ameaçando plantações, 60% das espécies de café estão em risco de extinção, e o preço do arábica subiu 80% em 2024, atingindo o maior valor em cinco décadas.

Enquanto isso, a indústria de laticínios também sente os impactos: prevê-se uma escassez global de 30 milhões de toneladas de leite até 2030, e estudos apontam que as ondas de calor extremas podem reduzir a produção leiteira em 4% até 2050.

A aposta da Ajinomoto em alimentos do futuro

Nos últimos anos, a Ajinomoto vem fortalecendo sua presença no ecossistema de alimentos sustentáveis por meio de colaborações com startups de tecnologia alimentar. Entre as parcerias estão nomes como v2food e Daring Foods (para o desenvolvimento de carnes vegetais), Standing Ovation (para a produção de caseína livre de origem animal) e Fattastic Technologies, que cria substitutos de gordura saturada com base em oleossomos.

O GRe:en Drop Coffee representa o quarto projeto conjunto entre a Ajinomoto e a Solar Foods.

De acordo com Juan Benitez Garcia, diretor comercial da Solar Foods, “a demanda por cremes vegetais para café vem crescendo rapidamente. O creme à base de Solein entrega uma textura rica, sabor intenso e um impulso proteico que transforma a experiência do café”.

A startup finlandesa tem expandido sua atuação, lançando recentemente um shake proteico em pó voltado para atletas e uma maionese sem ovos. Também firmou parcerias com empresas nos Estados Unidos, Itália e outros países, além de avançar na construção de sua primeira fábrica em escala industrial.

O nome GRe:en carrega um duplo significado: o “Re:” representa regenerar e repetir. Segundo Berber, da Prefer, a ideia é continuar apresentando novos formatos de bebidas e ingredientes em colaboração com a Ajinomoto. A empresa já planeja levar o produto para Tailândia, Austrália e Nova Zelândia, impulsionada pelos US$ 4,2 milhões captados em investimentos neste ano.

Leia também:

Bezos Earth Fund investe US$ 2 milhões em IA para aprimorar proteínas sustentáveis

Burger King Áustria elimina o leite de vaca e adota bebida de aveia da Oatly em todos os cafés

Nutropy capta US$ 8 milhões e planeja lançar queijo sem origem animal até 2027

Compartilhe: