Três anos após ter sido afastada da própria empresa, a empreendedora e pioneira do mercado plant-based Miyoko Schinner está mobilizando esforços para retomar o controle da Miyoko’s Creamery, marca que ajudou a colocar os queijos veganos no radar do consumidor norte-americano.
Segundo o portal AgFunderNews, a Miyoko’s Creamery entrou recentemente em um processo de liquidação judicial voluntária — mecanismo usado por empresas em dificuldades financeiras que permite vender seus ativos a terceiros, evitando uma falência formal. A partir disso, iniciou-se uma rodada de lances para interessados em adquirir a companhia.
Decidida a tentar recomprar o negócio que fundou há 11 anos, Schinner lançou uma campanha de financiamento coletivo na GoFundMe, ao lado de Rick LeBeau, cofundador da marca de barras energéticas veganas Rickaroons. A resposta do público foi imediata: em cerca de 48 horas, mais de 1.600 apoiadores contribuíram, somando US$ 100 mil dos US$ 140 mil necessários para a proposta.
A mobilização reforça o vínculo entre a fundadora e a comunidade que acompanha sua trajetória — especialmente após o polêmico afastamento da empresa em 2022. Apesar do apoio, Schinner reconheceu que as chances de sucesso são limitadas: “É improvável que meu lance seja o vencedor, já que o liquidante tem a obrigação fiduciária de aceitar a oferta mais alta. Simplesmente não houve tempo suficiente para reagir.”
Novo propósito: recuperar o ativismo e reformular produtos
Schinner não planejava disputar a recompra da empresa neste ano. Ela acabara de lançar seu sétimo livro de receitas e se preparava para celebrar o décimo aniversário do santuário animal Rancho Compasión, na Califórnia.
Com o anúncio da liquidação, porém, enxergou uma oportunidade de retomar o propósito original da marca. Em sua página de arrecadação, escreveu:
“Minha esperança é impactar não apenas a vida dos animais, mas também o sistema alimentar — tirando o controle das mãos de fundos de investimento e corporações multinacionais que hoje decidem o que comemos.”
Para viabilizar essa nova fase, Schinner estruturou um grupo de profissionais experientes, incluindo executivos com mais de 30 anos de atuação na indústria e um parceiro de co-packing. A proposta é construir uma gestão horizontal e colaborativa, possivelmente em formato de cooperativa.
“A ideia é criar uma organização menos hierárquica e mais equitativa. Tudo está acontecendo muito rápido, mas queremos um modelo que reflita transparência e propósito coletivo”, afirmou.
Entre suas prioridades está reconectar o propósito da marca aos produtos. Schinner pretende reformular o portfólio atual e lançar itens “limpos e nutritivos”, como um queijo tipo cottage à base de plantas e novas versões da popular mozzarella vegana.
“Será um processo gradual, mas queremos voltar às origens e oferecer alimentos que inspirem escolhas melhores — para a saúde, para os animais e para o planeta.”
O que levou à saída de Miyoko Schinner
A Miyoko’s Creamery, cujos queijos e manteigas feitos de castanha-de-caju e leite de aveia estão presentes em mais de 20 mil pontos de venda nos EUA, chegou a ser avaliada em US$ 260 milhões antes de entrar em declínio.
Em 2022, Schinner foi afastada do cargo de CEO pelo conselho de administração, em meio a tensões internas. Meses depois, a empresa a processou por suposto descumprimento de contrato e uso indevido de propriedade intelectual. Schinner respondeu com uma ação judicial alegando discriminação de gênero e “retaliação” após denunciar comportamentos sexistas de executivos recém-contratados.
Ambas as partes encerraram o litígio após um acordo extrajudicial. A empresa seguiu sob a liderança de Stuart Kronauger, ex-executivo da Coca-Cola e da Beyond Meat. Ainda assim, enfrentou quedas de vendas de 24% e dificuldades financeiras prolongadas, culminando na decisão de liquidar os ativos no fim de 2023.
“Se não for Miyoko’s, talvez algo novo”
Mesmo com o sucesso parcial da arrecadação, Schinner reconhece que a recompra pode não se concretizar. “Tivemos apenas 48 horas para reunir fundos e estruturar a proposta. Se eu não vencer o leilão, iniciarei o reembolso aos apoiadores”, publicou nas redes sociais, afirmando que o processo reavivou lembranças difíceis de sua saída.
Ainda assim, o episódio reacendeu seu entusiasmo e compromisso com a transformação do sistema alimentar: “Os últimos dias foram intensos, mas também inspiradores. Percebi o quanto há amor e apoio por essa causa. Isso me dá coragem para falar com mais firmeza sobre comida, animais e o que precisamos fazer como sociedade.”
Em entrevistas recentes, Schinner havia dito não sentir falta da rotina executiva, mas admite estar repensando o futuro. “Talvez eu inicie algo novo — um tipo de empresa que ainda não existe nesse sistema alimentar concentrado. Preciso refletir sobre como viver meus valores dentro dele e encontrar os parceiros certos para construir isso.”
Com a mesma convicção que marcou sua trajetória, ela conclui: “Podem tirar o produto da pessoa, mas nunca a pessoa do produto.”
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