Com a iminente entrada em vigor da nova regulação europeia que proíbe a importação de matérias-primas associadas ao desmatamento, como o óleo de palma, indústrias de alimentos e cuidados pessoais têm buscado alternativas mais sustentáveis para reformular suas cadeias produtivas.
Uma das soluções mais promissoras vem da startup Äio, que transforma resíduos da indústria madeireira e agrícola — como açúcares extraídos de serragem — em óleos e gorduras de origem fermentada, utilizando uma levedura vermelha desenvolvida especialmente para isso. A empresa, criada por pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Tallinn, acaba de receber um investimento de €1 milhão (cerca de US$1,1 milhão) do Programa de Pesquisa Aplicada da Agência de Negócios e Inovação da Estônia.
O financiamento vai viabilizar um projeto de três anos dedicado ao desenvolvimento de lipídios fermentados voltados à indústria cosmética, com foco em substituir ingredientes derivados do óleo de palma, coco e até do petróleo, com soluções mais limpas, seguras e eficientes.
“Durante muito tempo, alternativas sustentáveis esbarravam em desempenho inferior ou custo elevado. Mas os avanços em fermentação estão mudando esse cenário”, explica Magdalena Koziol, líder de desenvolvimento cosmético da Äio. “Nossa missão é mostrar que é possível criar cosméticos — do sabonete ao sérum — sem sacrificar a saúde do planeta ou das pessoas.”
Fermentação como ferramenta para um futuro sem desmatamento
Fundada em 2022 por Nemailla Bonturi e Petri-Jaan Lahtvee, a Äio nasceu a partir de uma pesquisa acadêmica com foco em reaproveitamento de biomassa. A tecnologia desenvolvida pela startup usa processos semelhantes à produção de cerveja ou pão para transformar resíduos industriais em óleos de alto valor agregado. E o impacto ambiental da tecnologia é significativo: a produção consome 97% menos terra e 90% menos água do que a extração tradicional de óleo de palma — e tudo isso em um tempo até 10 vezes mais rápido.
A empresa já conta com três produtos em desenvolvimento:
- Encapsulated Oil: pensado para substituir o óleo de palma na indústria alimentícia;
- Buttery Fat: alternativa ao uso de gorduras animais, gordura vegetal hidrogenada e óleo de coco;
- RedOil: voltado para cosméticos e limpeza, substituindo óleos de peixe, sementes e minerais.
A aposta da Äio está especialmente alinhada às exigências da nova Regulamentação Europeia de Desmatamento, que pode gerar multas de até 4% do faturamento global para empresas que continuarem utilizando ingredientes com origem duvidosa. Atualmente, estima-se que 34% do óleo de palma importado pela Europa esteja ligado a áreas desmatadas.
Além disso, a indústria cosmética enfrenta novas pressões com relação ao uso de microplásticos e substâncias perfluoroalquiladas (PFAS), o que amplia a urgência por matérias-primas de menor impacto e mais transparentes.
De startup de base científica a fornecedora global
Com interesse crescente por parte de fabricantes de cosméticos, a Äio já está enviando amostras para marcas que buscam reformular seus produtos. A startup também prevê uma nova rodada de captação até o terceiro trimestre de 2026, para ampliar sua escala de produção e atender à demanda internacional.
“Estamos prontos para crescer. O interesse de marcas que entenderam que a sustentabilidade deixou de ser opcional é o maior que já vimos”, comenta Koziol. “A pergunta já não é mais se o setor vai migrar para ingredientes alternativos, mas sim quando. E a hora de começar é agora.”
A CEO Nemailla Bonturi ressalta que o apoio do governo estoniano é mais do que financeiro:
“Esse investimento valida nosso modelo e mostra que mesmo um país pequeno pode ser protagonista em soluções que transformam indústrias globais. Estamos empolgados para colaborar com marcas que compartilham nossa visão e querem estar na linha de frente da inovação sustentável.”
Com €7,2 milhões já levantados em rodadas anteriores, a Äio se junta a outras startups que vêm desafiando o status quo do óleo de palma por meio da fermentação. Entre os nomes que também exploram essa fronteira estão as britânicas Clean Food Group e PALM-ALT, a norte-americana C16 Biosciences, as holandesas Time-Travelling Milkman e NoPalm Ingredients, além da californiana Kiverdi.
O que todas essas empresas têm em comum é a crença de que o futuro dos ingredientes — inclusive na beleza — passa pela biotecnologia, pelo reaproveitamento inteligente de resíduos e por um novo olhar sobre o que é possível produzir, consumir e escalar com responsabilidade.
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