A startup Eclipse Ingredients, com sede em Brisbane, na Austrália, acaba de sair do modo “stealth” com um propósito ambicioso: tornar acessíveis ingredientes de alto valor nutricional que, até agora, eram praticamente impossíveis de obter em escala — e tudo isso de forma sustentável.

A empresa acaba de captar 7 milhões de dólares australianos (cerca de US$ 4,6 milhões) em investimentos, sendo quase metade desse valor proveniente do governo australiano por meio do programa Food and Beverage Accelerator (FaBA). O restante veio do fundo AgFunder e de investidores-anjo. A Eclipse é um spin-off do CSIRO, a agência nacional de ciência da Austrália, e sua missão começa pela produção de lactoferrina humana, uma proteína funcional presente no leite materno, em células do sistema imunológico e em diversos tecidos do corpo humano.

Uma proteína rara, com enorme potencial

A lactoferrina é conhecida por seus efeitos antivirais, antimicrobianos e de fortalecimento imunológico, além de ser fundamental para a absorção de ferro no organismo. Embora esteja presente no leite humano e bovino, a sua extração é extremamente ineficiente: para obter apenas 1 kg da substância, são necessários cerca de 10 mil litros de leite, o que encarece o processo e restringe seu uso, principalmente à nutrição infantil.

Para superar esse gargalo, a Eclipse utiliza a fermentação de precisão, técnica que permite programar microrganismos (como leveduras) para produzir proteínas bioidênticas às humanas. É um processo parecido com a fermentação usada na fabricação de cerveja, mas, em vez de álcool, o que se obtém é uma proteína funcional, livre de origem animal e altamente pura.

“Não se trata apenas de produzir ingredientes — é sobre desbloquear o acesso a compostos poderosos da natureza que até hoje estavam fora do alcance,” explica Siobhan Coster, fundadora e CEO da Eclipse, que tem formação em nutrição e administração.

Escalando tecnologia com eficiência e estrutura nacional

Com apoio técnico do FaBA, a startup está migrando sua operação do laboratório para fermentadores industriais de 2.000 litros, em parceria com a Queensland University of Technology (QUT). A estrutura permitirá escalar a produção da lactoferrina de forma eficiente, com custos controlados e alta previsibilidade.

“Criamos uma plataforma enxuta, capital eficiente, aproveitando ao máximo as estruturas e talentos já existentes aqui na Austrália, como a QUT, a Universidade de Queensland e o próprio CSIRO,” destaca Coster.

O objetivo da Eclipse é claro: colocar no mercado, até 2027, os primeiros produtos cosméticos contendo a proteína, com foco inicial no mercado asiático — uma das regiões que mais cresce em demanda por ingredientes funcionais. Depois disso, a empresa planeja expandir para alimentos, fórmulas infantis e suplementos nutricionais.

“Embora estejamos começando pela cosmética, os benefícios da lactoferrina humana vão muito além. Estamos falando de saúde preventiva, bem-estar e qualidade de vida,” afirma a fundadora.

Um novo polo global para ingredientes de alta performance

A Eclipse se junta a um grupo crescente de empresas australianas que estão colocando o país no mapa da fermentação de precisão, ao lado de nomes como All G, Nourish Ingredients, Eden Brew, Daisy Lab e Cauldron. Essa nova geração de startups está ajudando a posicionar a Austrália como referência em ciência aplicada à nutrição e bem-estar, utilizando biotecnologia de ponta.

Segundo Crispin Howitt, líder de pesquisa no CSIRO, esse movimento não apenas reforça a confiança na ciência local, como também abre caminho para novas indústrias tecnológicas e sustentáveis.

“A Austrália já é reconhecida pela produção de ingredientes confiáveis, sustentáveis e de alta qualidade. Agora temos a chance de liderar também na inovação.”

O programa FaBA, por sua vez, faz parte da iniciativa Trailblazer Universities do governo australiano, com um investimento público de 50 milhões de dólares australianos, complementado por mais de 110 milhões de dólares australianos de universidades e da iniciativa privada. Ele também apoia outras empresas do setor, como a All G, que está desenvolvendo lactoferrina bovina livre de vacas usando o mesmo modelo tecnológico.

Embora outras empresas internacionais também estejam de olho na lactoferrina humana — como a americana Helaina e a portuguesa PFx Biotech —, a Eclipse Ingredients acredita ter uma vantagem estratégica na combinação de infraestrutura científica, apoio governamental e foco em eficiência.

“Estamos transformando ciência em impacto real. Queremos que a inovação chegue às prateleiras e melhore a vida das pessoas”, finaliza Coster.

Leia também:

Mercedes-Benz aposta em couro livre de origem animal em parceria com a Modern Meadow

21st.Bio lança plataforma para democratizar o acesso à proteína láctea livre de origem animal

Miswak Brasil aposta em produto milenar e 100% ecológico para higiene bucal

Compartilhe: