A empresa dinamarquesa 21st.Bio acaba de anunciar uma iniciativa que pode transformar o acesso a uma das proteínas mais valiosas do leite: a alfa-lactoalbumina — sem a necessidade de vacas e sem os impactos ambientais associados à produção convencional.

Com sede em Copenhague, a 21st.Bio desenvolveu uma plataforma de fermentação de precisão voltada à produção dessa proteína, que representa cerca de 25% do soro de leite bovino. A tecnologia é baseada em uma cepa microbiana de alto rendimento licenciada com exclusividade da Novonesis, uma gigante em biossoluções.

A proposta é simples e ambiciosa: oferecer às empresas do setor alimentício a possibilidade de produzir, por conta própria, essa proteína funcional de forma escalável, limpa e acessível. A alfa-lactoalbumina é rica em aminoácidos essenciais, fácil de digerir e associada ao desenvolvimento cognitivo — o que a torna especialmente valiosa para fórmulas infantis. No entanto, sua oferta ainda é muito limitada e costuma ser restrita a produtos premium voltados ao público infantil.

“Com a fermentação de precisão, conseguimos tornar a produção mais eficiente, sustentável e, principalmente, acessível para mais empresas e consumidores”, afirma Thomas Schmidt, CEO da 21st.Bio. “Além disso, atingimos um nível de pureza elevado, algo essencial quando falamos de nutrição infantil.”

A empresa já está em negociações com parceiros estratégicos para levar essa solução ao mercado, embora os detalhes ainda sejam mantidos em sigilo. Segundo Schmidt, o interesse é grande em setores como nutrição, alimentos funcionais, bebidas prontas, suplementos e até nutrição clínica.

Um ingrediente de alto valor – e difícil de obter

A alfa-lactoalbumina não é importante apenas para bebês. Estudos apontam benefícios que vão desde melhora na qualidade do sono até auxílio no combate ao estresse e na saúde intestinal de adultos. Isso explica o crescente interesse de fabricantes de alimentos funcionais por essa proteína.

No entanto, extrair alfa-lactoalbumina do leite de vaca não é tarefa fácil: ela representa apenas 3 a 5% do total de proteínas do leite. Para se ter uma ideia, são necessários cerca de 1.000 litros de leite para produzir apenas 1 quilo da proteína em sua forma purificada — o que a torna uma das proteínas de origem animal mais caras do mercado.

A 21st.Bio propõe uma alternativa mais eficiente: insere a sequência genética da alfa-lactoalbumina bovina em microrganismos, que passam a produzi-la durante o processo de fermentação. Depois, o líquido é filtrado para separar as células e obter a proteína de forma limpa, livre de origem animal.

A empresa está trabalhando para otimizar a cepa desenvolvida pela Novonesis para produção industrial em larga escala. A promessa é entregar uma solução competitiva e escalável, reduzindo gargalos que ainda limitam a expansão da fermentação de precisão.

Essa abordagem ganha ainda mais relevância diante dos desafios ambientais do setor lácteo, responsável por cerca de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa. Com as mudanças climáticas, estima-se que a produtividade leiteira por vaca pode cair até 4% até 2050.

“Estamos caminhando para um cenário de escassez de proteínas. Mesmo a indústria convencional reconhece que os métodos atuais não serão suficientes para atender à demanda futura”, alerta Schmidt. “A fermentação de precisão não é uma substituição total, mas uma solução complementar que alivia a pressão sobre os recursos naturais e cria uma cadeia de suprimento mais distribuída e resiliente.”

Modelo de negócios baseado em licenciamento

Fundada em 2020 por Thomas Schmidt e Per Falholt (CSO), a 21st.Bio atua como parceira completa para empresas bioindustriais, desde a inovação molecular até a produção em escala. Com laboratórios na Dinamarca e na Califórnia, a empresa aposta em um modelo de licenciamento com royalties para permitir que outras empresas adotem a tecnologia.

O programa de desenvolvimento para alfa-lactoalbumina oferece acesso a cepas microbianas já prontas para produção, suporte técnico para escalonamento, desenvolvimento de processos e orientação regulatória. Tudo isso com o objetivo de levar a tecnologia do laboratório ao mercado de forma ágil e viável.

“Vamos além do licenciamento: acompanhamos nossos parceiros em todas as etapas da produção industrial”, diz Schmidt. “Nosso foco é atingir, no mínimo, a paridade de custo com os produtos lácteos convencionais — o que pode ser um divisor de águas para quem quer competir de verdade nesse mercado.”

A empresa também trabalha com outras proteínas recombinantes. Em 2024, lançou a BLG Essential+, uma versão da beta-lactoglobulina (outra proteína do soro de leite) produzida sem vacas. A 21st.Bio concluiu o processo de autoavaliação de segurança (GRAS) nos EUA e espera ver os primeiros produtos com essa proteína no mercado já no próximo ano.

Para a alfa-lactoalbumina, o processo de GRAS será iniciado ainda em 2025, seguido por uma submissão à Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA).

Tanto a BLG quanto a alfa-lactoalbumina são baseadas em cepas licenciadas da Novonesis, controlada pelo grupo Novo Holdings — o mesmo por trás da farmacêutica Novo Nordisk, fabricante do Ozempic. Segundo Thomas Batchelor, vice-presidente sênior da Novonesis, a parceria com a 21st.Bio é estratégica:

“A alfa-lactoalbumina se encaixa perfeitamente no portfólio e na visão da 21st.Bio. Enquanto seguimos focando em outras inovações, confiamos que eles são os parceiros ideais para levar essa proteína ao mercado.”

Desde 2021, a Novo Holdings investiu €86 milhões na 21st.Bio, tornando-se acionista relevante. Segundo Schmidt, os atuais investidores estão comprometidos com a visão de longo prazo da empresa.

No cenário global, outras startups também apostam na fermentação de precisão para produzir alfa-lactoalbumina, como a Imagindairy (Israel) e a PFx Biotech (Portugal). Mas a 21st.Bio acredita que sua abordagem técnica e comercial integrada a coloca em uma posição de destaque nessa corrida por alternativas sustentáveis às proteínas de origem animal.

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