A Mercedes-Benz acaba de dar mais um passo rumo a um futuro mais sustentável ao se unir à startup norte-americana Modern Meadow, especializada em biotecnologia, para desenvolver alternativas ao couro tradicional. A novidade faz parte do projeto tecnológico Concept AMG GT XX, que estreia um material inovador: o LabFiber Biotech.
Essa nova geração de “couro” combina resíduos de pneus de carros de corrida da linha AMG GT3 — reciclados quimicamente — com proteínas vegetais e biopolímeros. O resultado é um material de alto desempenho, sem origem animal, que mantém o visual sofisticado e a textura típica do couro natural.
“Com a Mercedes-Benz, conseguimos desenvolver uma alternativa de luxo ao couro tradicional que mantém a estética e a funcionalidade, sem abrir mão da sustentabilidade,” afirmou David Williamson, CEO da Modern Meadow.
De carne cultivada a biomateriais de alto desempenho
A Modern Meadow nasceu com uma proposta ousada: produzir carne cultivada em laboratório. Porém, diante de desafios econômicos e logísticos, a empresa redirecionou seu foco para um mercado igualmente desafiador — o de materiais sustentáveis. Assim surgiu o Innovera, anteriormente conhecido como Bio-Vera, um material de base vegetal que se tornou a principal aposta da empresa.
Hoje, o Innovera é a base do LabFiber Biotech, e já está sendo testado em aplicações em larga escala. Com mais de 80% de carbono renovável em sua composição, o material dispensa tratamentos especiais de armazenamento e é compatível com os processos industriais tradicionais. Isso facilita a adoção por setores como moda, mobiliário, calçados e, agora, automóveis.
“Queremos transformar a forma como a indústria enxerga os interiores automotivos. O Innovera representa uma fusão equilibrada entre beleza, performance e responsabilidade ambiental,” completou Williamson.
Um novo caminho para o luxo automotivo
O Concept AMG GT XX antecipa uma futura linha esportiva de quatro portas da Mercedes-AMG. O modelo experimental traz revestimentos feitos com o LabFiber Biotech, inclusive nos assentos tipo concha, com acabamento que simula o couro Nappa. O material é respirável, resistente à água e mais leve que o couro convencional — além de ter o dobro da resistência à tração.
Cada pneu reciclado dá origem a cerca de quatro metros quadrados do novo material, que pode ser finalizado com diferentes texturas, como nobuck, camurça e couro integral, em várias cores e sensações ao toque. Além disso, o material replica propriedades importantes do colágeno, conferindo flexibilidade de design semelhante à do couro tradicional.
Essa não é a primeira iniciativa da Mercedes-Benz com materiais livres de origem animal. Em 2022, a marca já havia apresentado o conceito Vision EQXX, com interiores feitos de couro de cogumelo, fibras de bambu, seda biofabricada e couro de cacto.
A indústria automotiva busca alternativas mais limpas
Cada vez mais montadoras vêm repensando o uso do couro de origem animal, que tem um alto impacto ambiental: exige grandes quantidades de água e energia, contribui para o desmatamento e a perda de biodiversidade, e libera substâncias tóxicas no processo de curtimento. Estima-se que a produção de couro tradicional emita cerca de 110 kg de CO₂ por metro quadrado — um número significativamente maior do que o de alternativas sintéticas e vegetais.
No entanto, os couros sintéticos também apresentam desafios, especialmente por conterem plásticos derivados do petróleo. Esses materiais demoram séculos para se decompor e liberam microplásticos tóxicos, que contaminam os ecossistemas aquáticos e a cadeia alimentar.
Diante desse cenário, empresas como a Modern Meadow estão ganhando espaço, oferecendo soluções que eliminam tanto os impactos da pecuária quanto os danos associados ao plástico. Além dela, outras iniciativas vêm se destacando no setor, como Faircraft, 3D Bio-Tissues, Qorium, Pelagen e Lab-Grown Leather.
O futuro do luxo pode, sim, ser sofisticado e sustentável — e, ao que tudo indica, o mercado automotivo está pronto para acelerar nessa direção.
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