O setor de gorduras alternativas segue ganhando força, e a sueca Melt&Marble acaba de dar mais um passo importante nessa corrida. A empresa captou 80 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 8,5 milhões) em uma rodada Série A destinada a levar seus primeiros ingredientes ao mercado.
O investimento foi liderado pela Industrifonden, com participação do European Innovation Council Fund — braço de investimento da Comissão Europeia —, da gigante de cuidados pessoais Beiersdorf, da empresa de laticínios Valio, além da Chalmers Ventures e da Catalyze Capital.
Esse aporte se soma ao subsídio de €2,5 milhões recebido no ano passado pelo programa EIC Accelerator, elevando o total captado pela Melt&Marble, fundada há mais de uma década, para aproximadamente US$ 17,3 milhões. O novo capital será usado para ampliar a produção e iniciar a comercialização de suas gorduras obtidas por fermentação, começando por aplicações em cosméticos a partir de 2026.
“Este investimento representa uma virada essencial para a Melt&Marble. Estamos deixando de ser uma empresa focada quase exclusivamente em P&D para entrar, de fato, no mercado. Já avançamos em etapas-chave de escala e temos parceiros estratégicos ao nosso lado, o que nos dá confiança para causar impacto real”, afirmou a CEO, Anastasia Krivoruchko.
Ela reforça que a meta segue a mesma desde o início: oferecer ingredientes mais sustentáveis e de alto desempenho. “E este aporte nos aproxima significativamente desse objetivo”, completou.
Como a Melt&Marble transforma leveduras em gorduras de nova geração
A tecnologia da empresa se baseia em fermentação de precisão para criar alternativas sustentáveis às gorduras animais e a óleos tropicais. Em vez de direcionar a levedura para produzir álcool — como ocorre na fabricação de bebidas —, os microrganismos são programados para converter açúcares em lipídios específicos.
“Nossas cepas de levedura são desenvolvidas para gerar determinados tipos de gordura. Elas crescem em tanques de fermentação, alimentadas com açúcares e nutrientes. Quando terminam seu ciclo, extraímos esses lipídios em etapas de processamento bastante conhecidas pela indústria”, explicou Krivoruchko.
No setor alimentício, essas gorduras conseguem reproduzir características marcantes das versões de origem animal, como derretimento lento e textura rica — pontos essenciais para elevar o padrão sensorial de carnes e laticínios plant-based. Elas também podem desempenhar funções semelhantes às da manteiga de cacau em chocolates, além de melhorar textura e estrutura em panificação.
Para o mercado de cuidados pessoais, a empresa desenvolveu o Marble7, um lipídio bioativo cuja composição de ácidos graxos se aproxima da do sebo humano. Ele permanece sólido à temperatura ambiente, mas derrete ao entrar em contato com a pele, oferecendo hidratação prolongada e contribuindo para a integridade da barreira cutânea.
Segundo a CEO, hoje as gorduras da companhia se encaixam melhor em aplicações premium, que valorizam ingredientes diferenciados, produzidos localmente e com menor impacto ambiental. “Esperamos alcançar paridade de preço com algumas gorduras especiais ainda neste ano, e ampliar essa competitividade no médio prazo”, afirmou. “Começamos pelos segmentos em que nossa funcionalidade gera mais valor, enquanto continuamos reduzindo custos com escala.”
Lançamento em cosméticos previsto para 2026 e avançando no GRAS nos EUA
A produção das gorduras da Melt&Marble acontece atualmente por meio de um parceiro europeu, que já oferece capacidade industrial. A nova rodada deve acelerar a transição do estágio de demonstração para a operação comercial plena, permitindo volumes de várias toneladas e atendendo à demanda projetada para os próximos anos.
Na parte regulatória, a estratégia será dividida por segmento. “Para cuidados pessoais, já conquistamos as autorizações necessárias na Europa e em outros mercados, e nos preparamos para lançar nossos primeiros produtos no início do próximo ano. Em alimentos, estamos avançando no processo de GRAS nos Estados Unidos e devemos ter as aprovações para iniciar as vendas também no começo do ano que vem”, destacou Krivoruchko.
Para a Industrifonden, que liderou o investimento, o avanço técnico e comercial da startup é “impressionante para o estágio em que se encontra”, segundo o diretor sênior de investimentos, Tobias Elmquist. A empresa já colabora com players globais — entre eles Beiersdorf e Valio — em projetos de codesenvolvimento.
Susanna Kallio, vice-presidente da Valio (que detém as marcas plant-based Oddlygood e Rude Health), ressalta o potencial transformador da tecnologia: “As gorduras desenvolvidas pela Melt&Marble, baseadas em agricultura celular, podem abrir portas para produtos completamente novos e trazer mais dinamismo ao sistema alimentar.”
Gorduras sustentáveis atraem cada vez mais atenção
O interesse por gorduras alternativas cresceu à medida que marcas de alimentos e cosméticos buscam soluções mais sustentáveis — e que resolvam a lacuna sensorial que ainda separa muitos produtos plant-based de suas versões convencionais. Além disso, elas oferecem uma rota para reduzir a dependência de cadeias de suprimento que carregam altos impactos socioambientais.
As gorduras de origem animal estão diretamente ligadas a um setor que representa até 20% das emissões globais e consome grande parte das terras e da água doce disponíveis. Já óleos tropicais como o de palma estão associados à devastação florestal, incêndios e impactos severos a comunidades locais e à biodiversidade.
Na União Europeia, uma nova regulamentação contra o desmatamento irá proibir a entrada de produtos vinculados à derrubada de florestas — incluindo óleo de palma —, com multas que podem chegar a 4% do faturamento global das empresas que descumprirem a regra.
Por isso, cresce o número de companhias dedicadas ao desenvolvimento de gorduras mais responsáveis. Entre elas estão Nourish Ingredients, NoPalm Ingredients, Clean Food Group, Äio, Lypid, Time-Travelling Milkman, Terra Oleo e Fattastic.
“Fats têm uma combinação rara: atendem a uma demanda enorme, resolvem dores ainda não solucionadas e dialogam com múltiplos setores. Muitas indústrias procuram fontes de gordura mais estáveis, sustentáveis e produzidas localmente, além de funcionalidades que os ingredientes convencionais nem sempre entregam”, comentou Krivoruchko.
Segundo ela, a categoria também é menos exposta às oscilações que afetam segmentos como o de proteínas alternativas, o que explica o interesse crescente de investidores. Na visão de Thomas Cresswell, diretor de negócios da empresa, “estamos entrando em uma fase em que gorduras e lipídios deixam de ser tratados apenas como commodities e passam a ser vistos como ingredientes de precisão, capazes de elevar desempenho, favorecer a saúde e apoiar a sustentabilidade”.
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