Para muitas crianças, excursões escolares são momentos marcantes: uma pausa bem-vinda da sala de aula e a oportunidade de enxergar o mundo sob outra perspectiva. Foi em uma dessas experiências que tudo começou para Pascal Bieri, cofundador da Planted, hoje a principal startup suíça de proteínas vegetais.
Criado no interior da Suíça, Bieri sempre teve uma relação próxima com a natureza e com a comida. Ainda jovem, percebeu como essas duas dimensões nem sempre convivem em harmonia. Em uma visita escolar a um lago da sua região, descobriu que o ecossistema estava praticamente morto, vítima do escoamento de resíduos da suinocultura. Para evitar o colapso total, uma enorme máquina bombeava oxigênio artificialmente na água. A tecnologia impressionava, mas ninguém parecia questionar a origem do problema. Por que não agir na causa, em vez de apenas remediar as consequências?
Anos depois, já adulto, Bieri decidiu enfrentar esse desafio. Em 2019, fundou a Planted ao lado do primo, o Dr. Lukas Böni, com o objetivo de acelerar a transição proteica e colocar proteínas sustentáveis e saborosas no centro da alimentação suíça. O movimento, no entanto, enfrenta obstáculos. Após anos de queda, o consumo de carne voltou a crescer no país, levando alguns a decretarem o fim do entusiasmo pelos produtos plant-based.
Ainda assim, transformações estruturais no sistema alimentar estão em curso. O governo federal suíço estabeleceu metas ambiciosas para lidar com um conjunto de problemas interligados: baixa soberania alimentar, aquecimento acelerado do clima e o aumento de doenças relacionadas à alimentação. Nesse contexto, a expectativa é que o setor de food tech e inovação desempenhe um papel-chave na transição.
Segurança alimentar em um país de território limitado
Encravada nos Alpes e com pouca terra arável, a Suíça trata a segurança alimentar como um tema estratégico. Desde 2010, a população cresce cerca de 1% ao ano, o que levanta uma questão inevitável: como alimentar o país de forma sustentável no longo prazo?
Esse dilema não é novo. Nos anos 1930, em meio às tensões que antecederam a Segunda Guerra Mundial, a Suíça neutra já enfrentava um problema existencial. Com território limitado e sem a garantia de importações, como assegurar que sua população não passasse fome?
A resposta veio com Friedrich Wahlen, agrônomo e político suíço, responsável pelo chamado “Plano Wahlen”. Apesar de impopular, a estratégia foi decisiva para atravessar o período sem racionamento severo. O plano previa o uso de toda área cultivável disponível — incluindo parques e campos de futebol — e defendia a redução drástica do consumo de carne, redirecionando grãos e ração animal para a alimentação humana.
Antes de 1941, cerca de 50% das calorias consumidas no país vinham de importações. Curiosamente, essa proporção se mantém até hoje. A diferença é que, agora, o governo quer preservar esse equilíbrio enquanto reduz em 67% a pegada de carbono da alimentação da população, conforme sua nova estratégia nacional de agricultura e clima.
O desafio é enorme. A Suíça aquece mais rápido do que a média global e já se aproxima de um aumento de 3 °C. Ao mesmo tempo, 43% da população é considerada acima do peso ou obesa, gerando um custo anual estimado em até 17 bilhões de francos suíços em despesas associadas à má alimentação.
Garantir acesso a proteínas saudáveis e sustentáveis é um pilar central para o futuro do sistema alimentar. Hoje, a produção de proteína animal consome cerca de 60% da já escassa terra arável do país para a produção de ração, além de ser responsável por 85% das emissões de gases de efeito estufa da agricultura suíça.
Reduzir o consumo de carne e laticínios parece lógico, mas mudar hábitos alimentares é complexo. Atualmente, cada suíço consome, em média, 50 quilos de carne por ano — o dobro da média global e cerca de 25% acima da média da União Europeia. Os laticínios também ocupam um lugar central na cultura alimentar: o consumo anual chega a quase 300 quilos por pessoa.
As estratégias federais e locais até mostram alinhamento. A política nutricional incorpora a sustentabilidade como eixo central, enquanto a política agrícola reconhece explicitamente os impactos das mudanças climáticas. O problema está na execução.
Tecnologia alimentar como parte da solução
Para muitos especialistas, enfrentar esses desafios passa necessariamente pelo investimento em novas tecnologias de proteína. Um exemplo frequentemente citado é Singapura. Em 2019, o país lançou a estratégia “30 por 30”, com a meta de produzir localmente 30% dos alimentos consumidos até 2030 — um desafio enorme para uma nação que importa mais de 90% do que come.
Após investimentos de centenas de milhões de dólares, os resultados ficaram aquém do esperado e a política foi reformulada. Em 2025, surgiu a “Food Story 2”, com uma abordagem mais ampla: produção local de fibras e proteínas, parcerias diversificadas e novas estratégias de estocagem. Embora as proteínas alternativas tenham deixado de ser o eixo central do plano, o país segue direcionando a maior parte do seu orçamento de P&D alimentar para esse setor.
A Suíça tem muito a aprender com essa experiência. A inovação em food tech, especialmente em proteínas, é vista como um caminho promissor. Mas há um ponto crucial: consumidores são sensíveis a preço. Sem políticas públicas que equilibrem o jogo entre proteínas convencionais e alternativas, os investimentos em pesquisa correm o risco de não se traduzirem em impacto real nas gôndolas dos supermercados.
O ecossistema suíço de inovação alimentar está em plena expansão: cresceu 64% nos últimos quatro anos e já conta com 227 startups ativas. Ainda assim, os sinais enviados pelo governo são contraditórios. Há recursos para P&D, mas pouca ação regulatória para sustentar a transição no mercado.
É nesse cenário que se destaca a Planted, sediada nos arredores de Zurique, em um polo emergente de food tech. Com mais de 200 colaboradores, a empresa desenvolveu mais de 20 alternativas vegetais à carne, incluindo cortes inteiros e produtos inspirados em carne suína. Bieri reconhece que os primeiros passos só foram possíveis graças ao apoio da ETH Zurich e a um grant pioneiro de inovação.
Hoje, os produtos da Planted estão presentes em restaurantes, supermercados e grandes redes, como o Subway, além de já serem vendidos em diversos países da Europa Ocidental.
Outra iniciativa relevante é a Fabas, startup fundada por mulheres que busca reduzir a dependência suíça de laticínios a partir de leguminosas cultivadas localmente. A CEO e cofundadora Anik Thaler percebeu ainda na universidade o potencial dos grãos: nutritivos, com baixa pegada de carbono e benéficos para o solo. O desafio era — e ainda é — o preço. Leguminosas importadas são muito mais baratas do que as produzidas localmente.
Mesmo assim, Thaler manteve sua proposta “radikal lokal”. Após alguns anos produzindo falafel e homus com grão-de-bico suíço, a Fabas passou a focar nos laticínios, oferecendo a produtores tradicionais um pré-mix vegetal — equivalente ao “leite” — junto com culturas bacterianas para fermentação. O modelo se integra facilmente aos processos já existentes, tornando a transição simples para a indústria.
A resposta dos agricultores tem sido positiva. Mais de 120 produtores suíços aguardam para fornecer grãos à Fabas. O movimento em torno das leguminosas cresce, impulsionado por preocupações climáticas, de saúde e bem-estar animal. A startup recebeu apoio federal via Innosuisse, além de incentivos climáticos da cidade de Zurique e da vizinha Schlieren.
Estratégias ambiciosas, ações tímidas
Apesar do avanço, competir com o setor de laticínios convencional segue sendo difícil. O pré-mix da Fabas custa cerca do dobro do leite de vaca, reflexo da escala reduzida e da ausência de subsídios para leguminosas. Em contrapartida, o setor de laticínios recebe apoio amplo para a produção e promoção de leite e queijo.
Thaler também é cofundadora do Swiss Pulse Board, defendendo que as leguminosas recebam incentivos equivalentes aos de carne e laticínios. Estudos recentes mostram que proteínas vegetais suíças poderiam substituir até 84% da proteína proveniente da carne, mas barreiras políticas e econômicas ainda limitam esse potencial.
Bieri enfrenta um cenário semelhante. Após a fase inicial, a Planted não recebe subsídios contínuos, enquanto a indústria da carne segue beneficiada por incentivos à produção e publicidade. Para ele, trata-se de um sistema ultrapassado e caro para os contribuintes. A alternativa tem sido investir fortemente em escala para reduzir custos.
Embora a Suíça se apresente como defensora do livre mercado, a realidade é outra. Mais de 60% dos subsídios agrícolas são direcionados a alimentos de origem animal, enquanto menos de 10% apoiam produtos vegetais. Só o braço publicitário do lobby da carne recebe cerca de 5,4 milhões de francos suíços por ano.
Para Silvano Lieger, especialista em políticas públicas e fundador da Protein Transition Switzerland, há uma clara desconexão entre discurso e prática. As metas climáticas são ousadas, mas as medidas propostas não são suficientes para alcançá-las. “A cultura suíça tende a preservar o status quo — e o status quo é a carne”, afirma.
Essa percepção é compartilhada por Sarah Heiligtag, líder do projeto TransFARMnation, que já apoiou mais de 200 fazendas na transição da pecuária para o cultivo de leguminosas. Segundo ela, muitos agricultores querem mudar, mas carecem de apoio governamental. Hoje, grão-de-bico importado da Turquia ainda custa até dez vezes menos do que o cultivado localmente.
No fim das contas, o consumidor exausto que chega ao supermercado tende a escolher carne: ela é mais barata ou tem preço similar às alternativas vegetais e conta com uma máquina publicitária muito mais robusta.
Empreendedores suíços seguem trabalhando para preparar o sistema alimentar para o futuro. O governo, por sua vez, tem a chance de consolidar o país como referência global em alimentação sustentável.
“O que falta na Suíça é uma visão clara de futuro”, resume Bieri. “Não quero depender de subsídios para baratear nossos produtos. Mas, no mínimo, precisamos de condições justas em relação à indústria da carne — e de políticas que passem a contabilizar as externalidades, em vez de financiá-las.”
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