Embora a maioria dos sul-coreanos demonstre curiosidade e abertura para experimentar carnes cultivadas, o preço ainda é o principal entrave para que esses produtos ganhem espaço no dia a dia. Uma pesquisa realizada em 2023 pela APAC Society for Cellular Agriculture (APAC-SCA) revelou que 65% da população da Coreia do Sul considera o valor final o fator mais decisivo na hora de formar opinião sobre essas proteínas. Menos de 20% estariam dispostos a pagar mais caro por elas.
Por outro lado, o mesmo estudo indica um cenário promissor: se a carne cultivada custasse menos do que a convencional, cerca de um quarto dos consumidores passaria a comprá-la. Para Calisa Lim, gerente sênior de projetos da APAC-SCA, esse avanço só será possível com um esforço coletivo. “É fundamental unir investidores, fabricantes por contrato, grandes empresas, startups e o governo para criar um ecossistema forte de carne e frutos do mar cultivados na Coreia do Sul”, afirmou à época.
É exatamente nesse contexto que surge a nova parceria entre a SeaWith, startup sediada em Seul, e a britânica 3D Bio-Tissues. O acordo prevê o fornecimento de meio de cultura celular pela empresa do Reino Unido, permitindo que a SeaWith reduza em até 30% os custos de produção da sua carne bovina cultivada.
Tecnologia que ajuda a tornar a carne cultivada mais acessível
A 3D Bio-Tissues é uma subsidiária da empresa de engenharia de tecidos BSF Enterprise e atua no desenvolvimento de tecidos estruturados sem scaffolds, além de suplementos para meios de cultura aplicáveis a diferentes espécies animais. No início deste mês, a companhia captou US$ 19,8 milhões em investimentos, parte dos quais será destinada à expansão das operações da subsidiária.
Já a SeaWith se destaca como uma das principais startups de carne cultivada da Coreia do Sul. A empresa desenvolveu uma tecnologia própria baseada em algas marinhas e pretende lançar seus produtos sob a marca Welldone, começando por almôndegas de carne bovina.
Com a parceria, a 3D Bio-Tissues passará a fornecer à SeaWith o City-Mix, um suplemento avançado conhecido como “macromolecular crowder”. Esse tipo de composto atua criando um ambiente mais denso no meio aquoso onde as células crescem, favorecendo a estabilidade e a atividade de biomoléculas essenciais, como proteínas.
Na prática, o City-Mix funciona como um “impulsionador celular”, aumentando a eficiência dos fatores de crescimento, enzimas e proteínas presentes no meio de cultura. Ele simula condições semelhantes às encontradas em organismos vivos, acelera a multiplicação celular, melhora o rendimento, reduz a dependência de insumos caros e elimina a necessidade de componentes de origem animal, como o soro fetal bovino.
Além de facilitar a escala de produção da carne cultivada da SeaWith, a tecnologia contribui diretamente para a redução de custos. O contrato firmado tem valor estimado em £300 mil (cerca de US$ 400 mil), tornando-se uma fonte relevante de receita para a 3D Bio-Tissues.
Para Che Connon, CEO da empresa britânica, o acordo representa um passo estratégico importante. “Expandir o City-Mix para um dos mercados de carne cultivada mais dinâmicos da Ásia valida nossa tecnologia e reforça nosso papel na aceleração da adoção global dessas proteínas”, afirmou.
Próximo passo: aprovação regulatória na Coreia do Sul
Segundo Connon, a colaboração com a SeaWith também serve como prova concreta de que a tecnologia pode gerar impacto comercial real, aumentando a produtividade celular, melhorando a qualidade dos tecidos e, principalmente, tornando a carne cultivada economicamente viável em larga escala.
Do lado da SeaWith, o foco agora está na aprovação regulatória de sua carne cultivada no mercado sul-coreano. A startup integra uma zona especial livre de regulamentação no distrito de Gyeongbuk, criada pelo governo no ano passado para acelerar pesquisas e o desenvolvimento desse setor.
Nesse ambiente, empresas ficam temporariamente isentas de algumas exigências regulatórias, o que facilita testes em escala, avanços tecnológicos e a busca pela paridade de preços com a carne convencional.
A SeaWith já levantou US$ 8 milhões em investimentos e também demonstrou interesse em se instalar no Food Tech Research Support Center, em Uiseong-gun — um centro dedicado à carne cultivada, financiado pelos governos nacional e local, com inauguração prevista para 2027.
“Como operadora da zona regulatória especial para carne cultivada na Coreia, estamos muito satisfeitos em firmar parceria com uma empresa líder como a 3D Bio-Tissues enquanto avançamos rumo à aprovação regulatória”, afirmou Heejae Lee, cofundador e CTO da SeaWith. Segundo ele, o City-Mix se encaixa perfeitamente nas células-tronco musculares derivadas do gado Hanwoo, fortalecendo tanto a robustez quanto a escalabilidade do processo produtivo.
A corrida pela liberação regulatória no país envolve também outras startups, como CellMeat e Simple Planet. Para o Good Food Institute APAC, a Coreia do Sul é um dos mercados mais promissores para aprovações regulatórias em breve.
“Nenhum país, isoladamente, consegue reinventar o sistema global de proteínas”, avalia Mirte Gosker, diretora-geral da organização. “Mas uma rede de polos asiáticos de pesquisa e desenvolvimento, trabalhando de forma colaborativa, pode acelerar a transformação da alimentação do futuro. A Coreia tem um papel central nesse movimento, ao lado de países como Japão, China e Singapura, além de economias emergentes como Tailândia, Malásia e Indonésia.”
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