Os leites vegetais estão mais perto de chegar, de forma definitiva, às bandejas do almoço escolar nos Estados Unidos.

A Câmara dos Representantes aprovou o Freedom in School Cafeterias and Lunches Act (FISCAL Act), projeto que autoriza escolas a oferecerem bebidas não lácteas aos estudantes mediante solicitação dos pais, responsáveis ou médicos. A proposta já havia sido aprovada por unanimidade no Senado no mês anterior e agora segue para a sanção do presidente Donald Trump, que, segundo fontes ligadas ao processo, deve assinar a lei nas próximas semanas.

Para Wayne Pacelle, presidente da Animal Wellness Action e do Center for a Humane Economy, não há dúvidas sobre a sanção. As duas organizações atuaram junto à ONG Switch4Good para viabilizar a proposta, que acabou avançando como medida complementar ao Whole Milk for Healthy Kids Act, projeto apoiado pela indústria de laticínios.

Segundo Pacelle, o setor lácteo concentrou seus esforços quase exclusivamente na volta do leite integral ao cardápio escolar, deixando em segundo plano a ampliação das alternativas vegetais. “Neste momento, não existe uma oposição organizada forte contra a inclusão dos leites plant-based”, afirmou.

Assim que o projeto for sancionado, sua aplicação será imediata. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) deve atualizar as orientações oficiais às escolas, mas os distritos não precisam aguardar. “As escolas já poderão oferecer leite de soja fortificado na linha de serviço para qualquer aluno”, explicou Chloë Waterman, gerente sênior de programas do Friends of the Earth.

A nova lei representa um passo importante na atualização do Programa Nacional de Alimentação Escolar, criado há mais de 80 anos, ao eliminar a exigência de que o leite de vaca esteja presente em todas as refeições para garantir reembolso federal.

Para Dotsie Bausch, fundadora e diretora executiva da Switch4Good, a decisão marca um ponto de virada. “É uma vitória enorme para as crianças, para o planeta e para o futuro da alimentação escolar. O Congresso mostrou que ciência, compaixão e progresso podem caminhar juntos.”

O que muda na prática com o FISCAL Act

O projeto foi apresentado pelo deputado democrata Troy Carter, com apoio de parlamentares de ambos os partidos e de mais de 200 organizações ligadas à justiça racial e alimentar. Ao longo do processo, acabou sendo incorporado ao projeto que busca reintroduzir o leite integral e o leite 2% nas escolas, revertendo uma diretriz adotada durante o governo Obama.

Atualmente, a legislação federal só garante uma alternativa ao leite de vaca quando há laudo médico que comprove uma condição de saúde. Além disso, as escolas são impedidas de oferecer proativamente bebidas vegetais, já que o reembolso do governo está atrelado à presença do leite animal na refeição.

O USDA destina cerca de US$ 1 bilhão por ano em subsídios para leite de vaca com baixo teor de gordura. Com o FISCAL Act, as escolas também poderão receber reembolso por leites não lácteos.

O texto da lei substitui a exigência de oferta de “leite fluido” por uma definição mais ampla, que inclui tanto o leite de origem animal quanto opções vegetais. Para Pacelle, essa estratégia foi essencial. “O Congresso raramente aprova projetos isolados. Aproveitamos um veículo legislativo que interessava à indústria de laticínios para garantir espaço às alternativas vegetais.”

Saúde, desperdício e economia no centro do debate

Um dos principais argumentos a favor da nova lei é a alta prevalência de intolerância à lactose no país. Cerca de metade das quase 30 milhões de crianças atendidas pelo programa de alimentação escolar apresenta dificuldade para digerir lactose. Entre pessoas negras, indígenas, asiáticas e latinas, os índices são ainda mais elevados.

“O modelo atual causa impactos negativos claros, sobretudo para estudantes de comunidades racializadas”, afirmou o deputado Troy Carter. “Muitas crianças continuam recebendo leite de vaca mesmo sem conseguir consumi-lo de forma segura ou confortável.”

O desperdício também é expressivo. Estima-se que cerca de 30% das embalagens de leite servidas nas escolas sejam descartadas sem sequer serem abertas. Em volume, isso representa aproximadamente 150 milhões de galões de leite jogados fora todos os anos, gerando perdas de cerca de US$ 400 milhões em recursos públicos.

Ao permitir que escolas ofereçam opções como leite de soja, amêndoas e outras alternativas vegetais, o FISCAL Act tende a reduzir o desperdício, promover inclusão alimentar e otimizar o uso do dinheiro dos contribuintes.

Um precedente para outras políticas plant-based?

A aprovação do FISCAL Act acontece pouco depois da apresentação do Plant Powered School Meals Pilot Act, que propõe a criação de um programa piloto com US$ 10 milhões para ampliar a oferta de refeições e bebidas vegetais nas escolas.

Pacelle destaca que o caráter bipartidário foi decisivo para o avanço do FISCAL Act. “Sem apoio dos dois lados, nada anda no Congresso. Esse projeto cria um precedente importante para outras iniciativas.”

Ainda assim, ele pondera que o caso do leite é singular. “Nenhum outro produto de origem animal provoca reações tão imediatas quanto o leite. A intolerância à lactose gera sintomas agudos, o que expõe uma vulnerabilidade específica da indústria de laticínios.”

Não por acaso, os leites vegetais são hoje a categoria mais consolidada dentro do mercado de proteínas alternativas. “Eles já conquistaram espaço no varejo e essa mudança deve se refletir rapidamente nas escolas. É uma escolha simples e lógica — desde que esteja disponível”, concluiu.

Para o ecossistema plant-based, a decisão sinaliza não apenas uma vitória regulatória, mas um avanço concreto rumo a sistemas alimentares mais inclusivos, eficientes e alinhados às demandas do presente.

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