As mudanças climáticas estão colocando em risco o futuro do chocolate. A produção global de cacau atingiu o menor nível em uma década, resultado de ondas de calor, doenças nas plantações e eventos climáticos extremos que atingem especialmente Costa do Marfim e Gana, responsáveis pela maior parte da produção mundial.
Esse cenário levou o preço do cacau a recordes históricos. Em Londres, por exemplo, o valor da commodity chegou a ser quase cinco vezes maior entre janeiro e dezembro de 2023, e em Nova York as cotações triplicaram em 2024, alcançando US$ 12.565 por tonelada. Pesquisadores alertam que até um terço das árvores de cacau pode desaparecer até 2050, o que abre espaço para um possível déficit global de chocolate.
A ironia é que a própria indústria do cacau contribui para o problema. O chocolate amargo, por exemplo, é um dos alimentos com maior pegada de carbono, atrás apenas da carne bovina. A produção de uma única barra consome, em média, 1.700 litros de água e ainda carrega o peso da ligação com o desmatamento via uso de óleo de palma.
Diante da crise, grandes empresas buscam alternativas. A Hershey, por exemplo, já revisou suas projeções de lucro e aumentou preços em função dos custos mais altos do cacau. A Nestlé, maior empresa de alimentos do mundo e também uma das mais criticadas por sua pegada ambiental, aposta em inovação para reduzir desperdícios e aumentar a eficiência da cadeia.
Como funciona a técnica da Nestlé
A companhia desenvolveu e patenteou um método que utiliza até 30% a mais da fruta do cacau na produção de chocolate, sem alterar o sabor. Normalmente, apenas as sementes da vagem são aproveitadas, enquanto partes como polpa, placenta e casca acabam descartadas — cerca de 70% do fruto.
Esses subprodutos, porém, são ricos em nutrientes e compostos antioxidantes, com potencial para melhorar a circulação sanguínea e reduzir inflamações. Em vez de desperdiçá-los, a Nestlé propõe transformá-los em uma massa úmida que passa por fermentação natural, etapa que libera os sabores característicos do chocolate. Depois, esse material é moído, torrado e seco, dando origem a flocos de chocolate prontos para uso.
Segundo a empresa, além de ampliar a disponibilidade de matéria-prima e reduzir perdas, o processo libera tempo para que agricultores se concentrem em práticas agrícolas que também ajudam a aumentar a produtividade, como a poda adequada.
Chocolate para um futuro sustentável
“A crise climática está afetando cada vez mais os rendimentos do cacau no mundo todo. Estamos explorando soluções inovadoras que ajudem os agricultores a aproveitar melhor suas colheitas”, afirmou Louise Barrett, diretora do centro de P&D da Nestlé em York, Inglaterra.
A companhia reforça que o projeto ainda está em fase piloto, mas já estuda como escalar a inovação. Essa não é a primeira vez que a Nestlé recorre à ciência agrícola para mitigar riscos: recentemente, desenvolveu uma variedade de café arábica mais produtiva e resistente às mudanças climáticas.
O movimento se soma a iniciativas de outros gigantes do setor. A Barry Callebaut vem testando chocolates produzidos a partir de sementes de girassol por fermentação de precisão e também pesquisa cacau cultivado em laboratório em parceria com a Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique. Já a Mars firmou acordo com a biotech Pairwise para usar edição genética CRISPR no desenvolvimento de variedades de cacau mais resistentes.
Enquanto isso, startups como Voyage Foods, Planet A Foods e Prefer apostam em chocolates totalmente livres de cacau, feitos com ingredientes vegetais alternativos. Outras, como California Cultured, Celleste Bio e Kokomodo, trabalham com cacau cultivado em laboratório.
Em comum, todas essas iniciativas apontam para um mesmo desafio: reinventar o chocolate em um mundo onde o cacau, cada vez mais escasso, não pode mais ser tomado como garantido.
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