Rumo ao lançamento comercial previsto para o início de 2026, a All G, sediada em Sydney, garantiu um novo aporte para levar sua produção de proteínas lácteas recombinantes ao nível industrial.

A empresa, que utiliza fermentação de precisão para desenvolver proteínas equivalentes à lactoferrina bovina e humana, captou mais de A$ 10 milhões (cerca de US$ 6,6 milhões) em uma rodada de notas conversíveis — etapa que antecede sua Série B. Entre os investidores, estão nomes já conhecidos do setor, como Agronomics, Döhler Ventures e ID Capital. Com isso, a All G ultrapassa a marca de US$ 36 milhões captados desde sua fundação, há cinco anos.

Para acelerar essa fase de expansão, a startup firmou uma joint venture com a francesa Armor Protéines, referência global em bioativos lácteos, que dará suporte à produção e à comercialização dessas novas proteínas.

Fermentação de precisão: solução para os entraves da lactoferrina

A fermentação de precisão consiste em programar microrganismos com trechos específicos de DNA para que produzam moléculas desejadas durante a fermentação. No caso da All G, a tecnologia permite fabricar diferentes proteínas recombinantes do leite, com a lactoferrina assumindo papel central.

Presente no leite humano e bovino, a lactoferrina é altamente valorizada por seu papel na regulação do ferro, além de suas propriedades antivirais, antibacterianas, imunomoduladoras e benéficas para o intestino. É um ingrediente importante no tratamento de anemia gestacional, e suplementos contendo a proteína ajudam a reduzir o risco de infecções respiratórias.

O desafio é que ela aparece em concentrações muito pequenas no leite de vaca — são necessários pelo menos 10 mil litros de leite para obter apenas 1 kg de lactoferrina purificada. Isso torna a produção cara (entre US$ 600 e US$ 2.000/kg) e limita sua oferta principalmente a fórmulas infantis e suplementos premium.

Diante desse cenário, várias empresas de fermentação de precisão vêm apostando na produção de lactoferrina — bovina ou humana — para aplicação em alimentos funcionais, bebidas, nutrição esportiva e produtos voltados a idosos. Entre elas estão Helaina, TurtleTree, Eden Brew, PFx Biotech, Daisy Lab, De Novo Foodlabs e Eclipse Ingredients. A versão produzida pela All G já apresentou alta pureza, forte bioatividade, padrões de glicosilação similares aos naturais e níveis equivalentes de saturação de ferro.

A empresa também desenvolve lactoferrina humana, naturalmente presente em maior concentração no leite materno. Segundo o cofundador e CEO Jan Pacas, essa proteína possui estrutura idêntica à do leite humano e apresenta características bioativas diferentes das versões bovinas, o que reforça seu potencial em nutrição infantil e clínica — segmentos onde a demanda vem crescendo rapidamente.

Parceria com a Armor Protéines fortalece capacidade de escala

A All G afirma ter superado os principais obstáculos na produção de lactoferrina recombinante, como alcançar padrões de glicosilação semelhantes aos naturais e garantir rendimento em escala comercial. Em seu processo, os microrganismos liberam a lactoferrina diretamente no meio fermentado; depois, o composto é separado, purificado por cromatografia, dessalinizado e transformado em pó.

A empresa já produziu lactoferrina bovina em escala piloto e obteve mais de 95% de pureza na versão humana. Também conquistou a autodeclaração de status GRAS para venda em nutrição adulta nos EUA e recebeu aprovação para uso em cuidados pessoais na China — embora ainda não tenha liberação para fórmulas infantis.

Paralelamente, a startup conduz processos regulatórios nos EUA, China, Austrália/Nova Zelândia e União Europeia, alinhando cada etapa ao cronograma de lançamento dos ingredientes.

Com o apoio da Armor Protéines, um dos maiores produtores mundiais de lactoferrina, a All G amplia sua capacidade de oferecer proteínas de alto valor agregado e reformular a forma como a lactoferrina é produzida, adquirida e incorporada pela indústria. A parceria inclui o desenvolvimento da versão humana da proteína, abrindo caminho para fórmulas infantis com perfis mais próximos ao leite materno. O know-how da francesa em bioativos e sua rede de relações com fabricantes globais de nutrição serão essenciais para escalar a produção da All G de forma consistente nos principais mercados.

Além da lactoferrina, a startup trabalha em caseínas micelares humanas — responsáveis por 20% a 45% das proteínas do leite materno e fundamentais para absorção de cálcio, crescimento, desenvolvimento e saciedade. A All G já registrou diversas patentes envolvendo suas composições e processos proprietários, incluindo montagem de micelas, métodos escaláveis de produção e aplicações em formulações inspiradas no leite humano.

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