Enquanto autoridades federais discutem a definição de alimentos ultraprocessados e analisam a proibição de alguns aditivos, Nova York decidiu agir de maneira prática e ousada: a cidade vai retirar todas as carnes processadas de seus programas de alimentação pública e, no lugar delas, ampliar o uso de proteínas vegetais minimamente processadas.
A mudança foi anunciada pela gestão do prefeito Eric Adams e valerá a partir de 1º de julho de 2026. Ao todo, 11 agências municipais terão de seguir os novos padrões nutricionais, que incluem tanto a eliminação de carnes processadas quanto o aumento de refeições à base de proteínas vegetais integrais. Um guia de implementação será lançado pelo Departamento de Saúde para apoiar a transição.
“Esse é um passo importante. Nova York é o segundo maior comprador público de alimentos dos EUA, atrás apenas do Exército. As diretrizes da cidade têm grande impacto sobre o que é servido e sobre como a cadeia de suprimentos se organiza”, destacou Sierra Hollowell, do Escritório de Política Alimentar da prefeitura.
Por que a cidade declarou guerra às carnes processadas
A medida afeta diretamente as 219 milhões de refeições e lanches servidos todos os anos em escolas, hospitais e centros de atendimento a idosos. O objetivo é claro: proteger a saúde de mais de um milhão de nova-iorquinos.
Os padrões alimentares da cidade, em vigor desde 2008, já tinham como base critérios científicos para priorizar frutas, vegetais, grãos integrais e proteínas saudáveis. Agora, o foco recaiu sobre as carnes processadas, apoiado por uma ampla revisão científica que concluiu que não existe nível seguro de consumo desse tipo de produto.
Basta um cachorro-quente para aumentar em 11% o risco de diabetes tipo 2, 7% o de câncer colorretal e 2% o de doenças cardíacas. O equivalente a duas fatias de presunto eleva o risco de diabetes em 30% e de câncer colorretal em 26%. Os problemas estão ligados ao excesso de sódio, nitratos e conservantes químicos, que podem danificar células, gerar tumores e comprometer o funcionamento do pâncreas.
Além da retirada das carnes processadas, os novos padrões exigem mais uma porção semanal de proteínas vegetais – como leguminosas e grãos –, servidas no almoço ou jantar. Estudos apontam que essas proteínas ajudam na prevenção de doenças crônicas e favorecem a saúde cardiovascular.
Um modelo para outras cidades
A atualização das regras inclui ainda restrições a corantes artificiais, aditivos de farinha e adoçantes de baixa ou nenhuma caloria, ampliando a proteção para todas as idades. Para especialistas, trata-se de um marco com potencial de influenciar tanto outras cidades quanto o governo federal.
“Se quisermos reduzir as taxas de doenças cardiovasculares e diabetes, precisamos de políticas públicas que coloquem a comida saudável ao alcance de todos. O que Nova York está fazendo deve servir de modelo para o país inteiro”, afirmou Anupama Joshi, do Center for Science in the Public Interest.
A cidade já vinha se destacando em políticas de alimentação mais alinhadas com saúde e sustentabilidade. O próprio prefeito Adams costuma dizer que mudou sua vida ao adotar uma dieta baseada em vegetais, revertendo um quadro pré-diabético. Desde 2022, hospitais públicos da cidade oferecem refeições veganas como opção padrão – uma iniciativa que reduziu custos, emissões de carbono e teve mais de 90% de aprovação dos pacientes.
Em 2023, a campanha ganhou escala nacional com uma resolução assinada por 1.400 prefeitos americanos, incentivando dietas plant-based. No ano passado, a prefeitura também lançou o Plant-Powered Carbon Challenge, iniciativa que envolve universidades, fundações e até o US Open na criação de cardápios mais sustentáveis.
“Cada refeição é uma oportunidade de cuidar da saúde dos nova-iorquinos. As novas diretrizes foram construídas com base na melhor ciência disponível e têm um papel essencial em garantir que a alimentação seja nutritiva, acessível e culturalmente adequada”, reforçou Kate MacKenzie, diretora do Escritório de Política Alimentar da cidade.
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