A Harmony Baby Nutrition, startup de biotecnologia focada em nutrição infantil, deu um passo decisivo para reduzir a distância entre as fórmulas tradicionais e o leite materno — e pretende fazer isso por meio da fermentação de precisão.

A empresa foi selecionada em uma chamada pública do BNDES e da Finep para a criação de centros de pesquisa e inovação no país, recebendo um aporte de R$ 31,8 milhões (aprox. US$ 5,8 milhões). O programa integra a política Nova Indústria Brasil, que destina R$ 3 bilhões ao fomento da inovação nacional.

Com o novo investimento, a Harmony vai instalar em Belo Horizonte um centro de P&D dedicado ao desenvolvimento de fórmulas inspiradas na composição do leite humano.

Segundo o fundador e CEO, Wendel Afonso, o recurso permitirá não apenas ampliar a capacidade produtiva para o primeiro lançamento comercial, mas também estruturar uma operação capaz de chegar às famílias que dependem dessas soluções. “Até aqui, éramos essencialmente uma equipe científica. Agora, entramos em um ciclo que exige estrutura em manufatura, qualidade, marketing e suporte ao consumidor”, afirma.

De onde veio a ideia e o que a tecnologia promete resolver

A inspiração para criar a Harmony surgiu enquanto Afonso cursava MBA no MIT. Na época, sua filha apresentava alergias às fórmulas disponíveis no mercado — situação comum: entre 2% e 3% dos bebês têm alergia à proteína do leite de vaca e até um sexto sofre algum tipo de desconforto. Some-se a isso o fato de que uma parcela relevante das mães enfrenta dificuldades para amamentar exclusivamente.

A Harmony quer enfrentar esse desafio construindo uma nova geração de fórmulas: com menos açúcares adicionados, sem laticínios (responsáveis por cerca de 80% da pegada de carbono do setor) e com sabor mais próximo ao leite materno. O plano começa por uma base hipoalergênica robusta, que futuramente será complementada por proteínas humanas recombinantes produzidas via fermentação de precisão.

No primeiro momento, essas proteínas ainda não aparecem nos produtos, mas a tecnologia permitirá, gradualmente, substituir componentes derivados do leite bovino por moléculas equivalentes às presentes no leite humano. Entre as primeiras proteínas a serem incorporadas estão lactoferrina, alfa-lactoalbumina, caseínas humanas e albumina — todas essenciais para imunidade, digestão e absorção de nutrientes.

Parcerias para escalar inovação

A Harmony não pretende produzir internamente essas proteínas recombinantes. A estratégia é trabalhar com fabricantes especializados que já operam em escala industrial. Segundo Afonso, o gargalo não está na capacidade produtiva, mas na garantia de padrões rigorosos de qualidade e segurança, fundamentais especialmente no segmento hipoalergênico.

A empresa já firmou acordos com parceiros capazes de operar linhas dedicadas ou segregadas, seguindo requisitos do FDA e do Codex Alimentarius.

O novo centro de pesquisa em Belo Horizonte deve começar a ser implantado no primeiro semestre de 2026. Serão cerca de 250 m² de laboratórios avançados e uma planta-piloto equipada para testes de aplicação. A expansão também prevê a contratação de pelo menos 25 profissionais, incluindo cinco especialistas em nutrição.

Regulação: entraves, avanços e oportunidades

A Harmony mira o mercado dos Estados Unidos para o primeiro lançamento, onde já concentra sua estratégia regulatória. O caminho para aprovar novas fórmulas infantis no país é complexo e demorado — envolve testes nutricionais, análises de segurança de ingredientes e estudos comparativos com o leite materno.

Mas um movimento recente pode facilitar o processo: o orçamento federal americano para 2026, aprovado em novembro pelo presidente Donald Trump, orienta o FDA a acelerar a análise de fórmulas livres de leite e soja.

O Brasil aparece como segundo mercado prioritário. Além de abrigar o novo centro de P&D, o país é um dos maiores consumidores de fórmulas infantis, mas depende quase totalmente de importações para produtos especializados, o que encarece e limita o acesso.

Afonso acredita que o ambiente regulatório brasileiro também está se movimentando. A Anvisa tem revisado normas e incorporado novos ingredientes com base em evidências científicas, abrindo portas para a discussão de proteínas recombinantes.

Olhando para o mundo

Depois de EUA e Brasil, mercados como Austrália, Nova Zelândia e Singapura devem receber as primeiras submissões regulatórias envolvendo proteínas humanas recombinantes — regiões conhecidas por processos mais transparentes e alinhados à inovação.

No curto prazo, o foco está no lançamento de Melodi, uma fórmula para crianças a partir de 12 meses, inspirada na composição do leite humano. Estudos independentes apontaram uma preferência sensorial 61% maior em comparação a fórmulas hipoalergênicas tradicionais. Em vez de xaropes de milho, a marca utiliza lactose — carboidrato naturalmente presente no leite materno — e adiciona oligossacarídeos humanos no limite máximo permitido, contribuindo para imunidade e saúde intestinal.

O desafio de transformar ciência em negócio

Afonso reconhece que o próximo salto da Harmony — deixar de ser apenas uma empresa guiada pela ciência para se tornar uma marca globalmente relevante — é o maior desafio até agora. Será preciso ampliar a operação, estruturar vendas, comunicação e atendimento, além de preparar a escala industrial.

A startup integra um movimento global de empresas que utilizam fermentação de precisão para desenvolver ingredientes presentes no leite humano. Entre elas estão Helaina, All G, Eclipse Ingredients, PFx Biotech, Yali Bio, The Live Green Co e Checkerspot. Outras, como a Nūmi, apostam na produção de leite materno cultivado.

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