A Opalia, startup canadense que desenvolve leite a partir de células mamárias bovinas, acaba de alcançar um marco importante: fechou seu primeiro contrato comercial com a gigante holandesa Hoogwegt, uma das maiores fornecedoras privadas de ingredientes lácteos do mundo.

O acordo, que entra em vigor em 2026 e terá duração inicial de dois anos, prevê o desenvolvimento conjunto de uma linha de laticínios cultivados. Para a Opalia, esse passo representa não só a validação da sua tecnologia, mas também um impulso estratégico para sua escalada rumo à produção em escala comercial.

A CEO e cofundadora da empresa, Jennifer Côté, contou ao Green Queen que o contrato é fruto da relação construída desde 2023, quando a Hoogwegt fez seu primeiro investimento na startup. “Trabalhamos lado a lado nesses dois anos. Percebemos que o próximo passo seria justamente mostrar ao mercado que é viável produzir leite em escala a partir de células mamárias bovinas”, afirma.

Embora ainda não revele o volume que será produzido, Côté explica que o leite será utilizado para o desenvolvimento de uma ampla variedade de derivados, como queijos, iogurtes, manteigas e cremes, demonstrando a versatilidade do produto.

Leite integral feito por cultivo celular

Fundada em 2020 por Côté e pelo CTO Lucas House, a Opalia é uma das poucas empresas no mundo que está focada exclusivamente em leite cultivado. A tecnologia desenvolvida — atualmente em processo de patente — permite criar produtos lácteos reais sem precisar de uma vaca no pasto.

Tudo começa com a criação de uma linhagem celular imortalizada, a partir de tecido mamário bovino. “Isso significa que não precisamos mais coletar tecido de animais. Cultivamos essas células e as induzimos a produzir leite, num processo contínuo. As mesmas células podem continuar produzindo leite por longos períodos, o que torna o processo muito mais eficiente e escalável”, explica Côté.

Ela destaca ainda que, por não haver contato com bactérias, o leite da Opalia não precisa ser pasteurizado, e segue um processo de beneficiamento semelhante ao do leite convencional.

Outro avanço importante aconteceu em 2023, quando a empresa conseguiu eliminar o uso de soro fetal bovino, ingrediente que costumava ser essencial para o cultivo celular, mas que levanta questionamentos éticos e de viabilidade econômica.

Segundo Côté, a produção de leite cultivado é uma espécie de híbrido entre fermentação de precisão e carne cultivada. A grande diferença é que, ao contrário dos produtos de carne, onde as células se tornam parte do alimento final, no leite cultivado as células são apenas “fábricas vivas” — o consumidor consome apenas o leite produzido, não as células em si. Isso facilita tanto o processo regulatório quanto os custos envolvidos.

Regulação e expansão comercial no horizonte

A Opalia já está em contato com agências reguladoras da América do Norte, onde planeja iniciar sua entrada no mercado. A empresa está preparando os dossiês necessários para submissão junto à FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) e ao Departamento de Agricultura dos EUA. A equipe também acompanha de perto os avanços regulatórios em outras regiões estratégicas.

Um dos pontos que diferencia o leite cultivado da carne cultivada é justamente o nível de exigência na caracterização celular. Como o produto final é um fluido secretado e não a célula em si, os critérios de aprovação podem ser mais flexíveis.

Rumo à produção piloto e captação de US$ 4 milhões

Com um histórico de US$ 3 milhões já arrecadados em rodadas anteriores — com aportes da Hoogwegt, Big Idea Ventures, Ahimsa Foundation e do governo do Québec —, a Opalia agora busca captar mais US$ 4 milhões. O objetivo? Avançar para a produção em escala piloto, concluir o processo regulatório e começar a comercialização.

Segundo Côté, o principal desafio atual está na redução de custos, especialmente no meio de cultivo celular, que representa a maior fatia do orçamento. A empresa está desenvolvendo soluções para baratear esse insumo e viabilizar o produto em larga escala.

Enquanto muitas empresas de carne cultivada apostam em combinações com ingredientes vegetais para viabilizar seus produtos, a Opalia oferece uma solução completa: leite integral, com todos os seus componentes originais. Isso permite que ele seja usado como substituto direto do leite tradicional ou como base para derivados e produtos híbridos, combinando, por exemplo, proteínas cultivadas com ingredientes vegetais para melhorar sabor, funcionalidade e valor nutricional.

Impacto ambiental e reconhecimento internacional

Além de toda a inovação tecnológica, a Opalia também se destaca pelo impacto ambiental positivo: sua tecnologia promete reduzir em até 95% as emissões de gases de efeito estufa e o consumo de água, além de exigir 90% menos uso da terra em comparação com a produção leiteira convencional. Por esses motivos, a startup foi indicada ao Earthshot Prize 2025, um dos prêmios mais importantes do mundo em inovação para sustentabilidade.

Outras empresas que também estão explorando o leite cultivado incluem a Wilk (Israel), Senara (Europa), UnReal Milk da Brown Foods (EUA/Índia), Nūmi (França) e a americana 108Labs, focada em leite materno cultivado.

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