Enquanto os investimentos privados em carne cultivada enfrentam queda, o apoio público ao setor segue firme — especialmente na Europa. Um exemplo claro disso é a startup tcheca Mewery, que acaba de conquistar €3,3 milhões em recursos públicos para avançar na produção de carne suína cultivada com tecnologia própria de co-cultivo de células animais e microalgas.

A maior parte do valor — €2,5 milhões — vem do programa EIC Accelerator, ligado ao Horizon Europe, principal iniciativa de fomento à pesquisa e inovação da União Europeia. O restante é fruto da participação da Mewery no consórcio internacional Alliance, liderado pela Universidade de Wageningen e apoiado pela CzechInvest, que reúne 19 instituições para desenvolver biorrefinarias multiuso a partir de microalgas.

Com esse aporte, a empresa dará um passo importante para escalar sua produção: vai ampliar o volume de biomassa gerado em biorreatores médios, saindo dos testes iniciais em gramas para alcançar produções em quilos — algo essencial para os projetos-piloto que serão realizados com parceiros industriais na Europa já nos próximos meses.

Parceria com indústria e foco na escalabilidade

Segundo o fundador e CEO Roman Lauš, esse é um momento-chave para validar a tecnologia em conjunto com fabricantes de alimentos. “Estamos adaptando nosso processo para operar com volumes maiores, de forma que possamos fornecer a biomassa necessária para testes reais de aplicação com parceiros na Europa”, afirmou o diretor comercial Rostislav Brzobohatý.

Esses testes, realizados em instalações próprias da empresa, têm como objetivo entregar amostras a potenciais fabricantes que poderão usar a biomassa em seus próprios produtos. E o plano de negócios é claro: a Mewery não pretende produzir em larga escala por conta própria, mas sim licenciar sua tecnologia de co-cultivo para que os parceiros desenvolvam suas próprias linhas de produção.

Caminho para reduzir custos e viabilizar comercialmente

Criada em 2021, a Mewery desenvolveu um método de co-cultivo que combina células suínas com microalgas, aumentando a eficiência do crescimento celular e reduzindo os custos de produção. A startup já possui uma linha celular estável (sem OGM) e trabalha com alternativas ao soro fetal bovino, usando componentes baseados em microalgas desenvolvidos internamente — o que também ajuda a reduzir a dependência de insumos caros.

Hoje, o custo por quilo ainda está na casa das “dezenas de euros”, mas os ajustes contínuos no processo já apontam para uma redução significativa, com a meta de chegar a menos de €10/kg no futuro próximo. Isso se deve, entre outros fatores, ao rendimento até 10 vezes maior que o padrão da indústria, à menor necessidade de meio de cultivo e à redução de resíduos.

“O foco agora é entregar um produto com valor percebido, que realmente gere interesse do consumidor final — porque é isso que vai sustentar uma estratégia de preço competitiva a longo prazo”, destaca Brzobohatý.

Regulação, testes e próximos passos

A startup já apresentou ao público um hambúrguer e almôndegas feitas com 75% de células suínas e 25% de microalgas — e a recepção foi positiva: em um festival na Tchéquia, mais de 90% do público demonstrou interesse em experimentar o produto.

Agora, os testes com parceiros e a colaboração com a Universidade Mendel vão focar na composição nutricional, segurança e ajustes finais do produto, o que abrirá caminho para pedidos formais junto à EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar).

Apesar de apenas duas empresas — Mosa Meat e Gourmey — terem protocolado pedidos de aprovação até agora, a Mewery acredita que faz sentido iniciar a operação comercial na Europa, onde os parceiros já estão engajados no desenvolvimento conjunto.

Ainda assim, a empresa mantém planos de também solicitar aprovação nos EUA entre 2027 e 2028, mesmo diante das restrições estaduais à carne cultivada em alguns territórios americanos.

Contra a maré dos investimentos privados

Desde sua fundação, a Mewery já captou €4 milhões entre recursos públicos e privados. O reconhecimento mais recente veio com o Selo de Excelência da Comissão Europeia, que atesta a qualidade e o potencial do projeto com base em critérios rigorosos.

O contraste com o cenário geral do setor é grande: o investimento em carne cultivada caiu 75% em 2023 e mais 40% em 2024. Em três anos, o total captado pelas empresas do setor foi inferior ao que se arrecadou apenas em 2021 (US$ 1,3 bilhão). Em 2024, até agora, o segmento movimentou apenas US$ 35 milhões.

Para Brzobohatý, o motivo é claro: altos custos, escalabilidade limitada e promessas não cumpridas por algumas empresas pioneiras, que geraram desconfiança no mercado.

“A transição do laboratório para a escala industrial é um grande desafio, e muitos não conseguiram entregar soluções economicamente viáveis. Isso somado à incerteza regulatória leva os investidores a adotarem uma postura mais cautelosa.”

Mas o executivo vê diferenciais na abordagem da Mewery que podem reverter esse cenário. O primeiro é o desempenho técnico da co-cultura de células com microalgas, já validado em protótipos com resultados consistentes. O segundo é a construção de parcerias industriais desde as fases iniciais, o que poderá acelerar a entrada no mercado assim que os marcos regulatórios forem superados.

“Estamos convencidos de que o setor passará por mudanças importantes em breve, e isso vai reaquecer o interesse dos investidores. Há um enorme potencial a ser destravado”, conclui.

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