A Greenitio, startup de biotecnologia com sede em Singapura, acaba de captar US$ 1,5 milhão em rodada seed para escalar sua plataforma de biopolímeros produzidos a partir de quitosana de cogumelos. A proposta da empresa é substituir microplásticos e derivados do petróleo em setores estratégicos, começando pela indústria de cosméticos e de químicos especiais.

O investimento foi liderado pela SGInnovate, com participação da Better Bite Ventures, Silverstrand Capital e investidores já existentes. O capital será direcionado para ampliar a capacidade de produção, avançar em processos regulatórios e consolidar parcerias comerciais com grandes players globais.

“Tecnologias emergentes são fundamentais para acelerar a descarbonização e criar soluções realmente sustentáveis. A Greenitio está entre as empresas que estão na linha de frente dessa transformação”, destacou Hsien-Hui Tong, diretor de investimentos da SGInnovate.

Quitosana de cogumelos como alternativa aos plásticos convencionais

Fundada em 2021 por Amit Kumar Khan (CEO) e Susmita Roy (CTO), a Greenitio desenvolveu uma plataforma de química verde patenteada que substitui plásticos por biopolímeros de alta performance. A tecnologia utiliza modelagem computacional e insumos de origem natural, em um processo aquoso, em temperatura ambiente, sem solventes orgânicos ou químicos tóxicos — e sem geração de resíduos.

A base de suas formulações é a quitosana fúngica, tradicionalmente extraída de crustáceos, mas aqui obtida de forma 100% vegetal. Dependendo da aplicação, os biopolímeros da Greenitio podem conter entre 50% e 99% de quitosana de cogumelos, complementados por ingredientes funcionais de origem vegetal. O resultado é um material totalmente biodegradável, capaz de se decompor naturalmente em contato com o ar.

Além disso, o processo reduz em até 87% a pegada de carbono quando comparado à química convencional, não gera resíduos químicos e permite custos até três vezes menores que alternativas bio-based disponíveis hoje.

Funcionalidade e aplicações no mercado

Os biopolímeros da Greenitio são catiônicos e moduláveis, o que significa que podem ser aplicados em sistemas solúveis em água, dispersões em óleo e formulações em emulsão. Entre as propriedades, destacam-se:

  • aumento de FPS em protetores solares;
  • ação formadora de filme;
  • resistência à água;
  • efeito anti-inflamatório;
  • hidratação profunda;
  • potencial de entrega de ativos.

Atualmente, a empresa tem três linhas principais de biopolímeros já registradas em nomenclaturas internacionais de ingredientes cosméticos:

  • Chitosola: para formulações de proteção solar e cuidados com a pele;
  • Chitobela: voltado para skincare de luxo, com foco em antienvelhecimento e antiacne;
  • Chitobe: que adiciona benefícios nutritivos e proteção UV em cosméticos.

Além disso, a startup desenvolve biossurfactantes de base vegetal e microcápsulas derivadas de proteínas vegetais.

O desafio regulatório

Apesar do avanço tecnológico, a entrada no mercado exige aprovação regulatória, já que qualquer novo ingrediente cosmético precisa comprovar segurança e eficácia. Esse processo inclui dossiês de toxicologia, estabilidade e conformidade com órgãos como a IECIC (China), o Personal Care Products Council (EUA) e o REACH (Europa).

“Como esses ingredientes são aplicados diretamente na pele, é fundamental garantir que sejam seguros. A aprovação regulatória também traz segurança para as marcas, que podem lançar produtos globalmente sem riscos”, explicou Didier Vermeiren, COO da Greenitio.

Expansão internacional e vantagem competitiva

A Greenitio opera em Singapura com instalações de P&D e produção em escala piloto, além de contar com parceria na Índia para escalar até 25 toneladas mensais. Agora, a empresa prepara a criação de uma subsidiária no Benelux, região estratégica para atender a demanda europeia, aproveitando sua forte conexão com o setor químico e cosmético.

Já existem contratos de testes em andamento com multinacionais de beleza, cuidados pessoais, fragrâncias e químicos especiais. Os nomes não foram revelados, mas incluem alguns dos maiores fornecedores e fabricantes globais.

Para Khan, a vantagem competitiva está no equilíbrio entre preço e performance: “Oferecemos biopolímeros de alta performance com custo competitivo em relação tanto aos petroquímicos sintéticos quanto às alternativas naturais, que costumam ser caras e pouco eficientes. Nossa tecnologia de química verde nos permite produzir de forma acessível, sem depender de equipamentos especiais como a maioria das startups de biotecnologia.”

O futuro dos biopolímeros livres de origem animal

O mercado de quitosana livre de origem animal ainda é pequeno, mas está em franca expansão. Outras iniciativas também exploram cogumelos como matéria-prima, como a TômTex, que produz alternativas ao couro, e a Dyson, que pesquisa o uso de quitosana de cogumelos em produtos capilares.

Com sua proposta, a Greenitio se posiciona como uma das protagonistas na busca por alternativas escaláveis, sustentáveis e livres de crueldade para substituir plásticos e microplásticos em produtos de uso cotidiano.

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